Consequências psiquiátricas da covid-19 prolongada: como se preparar

Pauline Anderson

Notificação

4 de junho de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Com o aumento das evidências indicando um componente psiquiátrico relevante da covid-19, os especialistas estão preocupados com o influxo dos que sobreviveram à doença apresentando problemas persistentes de saúde mental e como melhor se preparar para este cenário.

Os médicos devem estar cientes de que os pacientes que tiveram covid-19 frequentemente evoluem com sintomas psiquiátricos, disse ao Medscape a Dra. Silvia S. Martins, Ph.D., médica e professora associada de epidemiologia da Mailman School of Public Health na Columbia University nos EUA.

"Deve haver mais rastreamento de todos os pacientes convalescendo da infecção por covid-19 quanto à ocorrência de ansiedade, transtorno do estresse pós-traumático e depressão, bem como o devido encaminhamento para o atendimento especializado, como a psicoterapia e o uso de medicamentos, se houver indicação", disse a Dra. Silvia, que, junto com os seus colaboradores, identificou a alta prevalência destes sinais e sintomas em pacientes que tiveram a doença.

A pandemia da covid-19 tem tido um enorme custo social, emocional e de saúde pública. As vidas das pessoas ficaram desestruturadas e isso causou tensão, medo e incerteza sobre os problemas de saúde e de perda dos rendimentos, sem mencionar o isolamento forçado.

Além disso, um número significativo de pacientes que contraem a infecção continua apresentando sintomas após a fase aguda da doença. Essa síndrome pós viral da covid-19, ou "doença prolongada", não está bem definida; os especialistas citam uma variedade de sinais e sintomas que persistem durante semanas ou meses.

Esses sintomas contínuos podem ser tosse, fadiga e dor crônica, bem como queixas psiquiátricas. Como publicado no Medscape, um estudo observacional feito com mais de 230.000 prontuários de pacientes norte-americanos revelou que um em cada três pacientes convalescentes da covid-19 recebeu um diagnóstico psiquiátrico ou neurológico nos seis primeiros meses após a contração do vírus.

Os diagnósticos psiquiátricos mais comuns foram: transtornos de ansiedade, transtornos do humor, transtornos de dependência química e insônia.

Sintomas significativos mesmo em casos leves

Outro estudo mostrou que mesmo pessoas com quadros leves de covid-19 podem apresentar sintomas psiquiátricos, independentemente de terem história de diagnósticos psiquiátricos. Os resultados revelaram que 26% da amostra de quase 900 pacientes referiram depressão, 22% referiram ansiedade e 17% referiram sinais e sintomas de estresse pós-traumático dois meses após um resultado positivo para o vírus SARS-CoV-2. Esta constatação é importante porque a maioria das pessoas que contraem covid-19 tem quadro leve.

Dr. Mauricio Castaldelli-Maia

"Vimos níveis muito altos de depressão, ansiedade e sintomas de estresse pós-traumático clinicamente expressivos em pessoas com história de doença leve", disse ao Medscape o pesquisador do estudo, o Dr. Mauricio J. Castaldelli-Maia, Ph.D., médico e pós-doutor do departamento de epidemiologia na Mailman School of Public Health da Columbia University.

O pesquisador atribui estes sintomas em parte a longos períodos de isolamento, mesmo de familiares no mesmo domicílio, em espaços restritos típicos das grandes cidades como São Paulo, no Brasil.

Dr. Vivian Pender

O isolamento social pode ter um impacto enorme nas pessoas que dependem das conexões sociais e dos relacionamentos, disse ao Medscape a Dra. Vivian Pender, médica, presidente da American Psychiatric Association e preceptora de psiquiatria no Weill Cornell Medical Center nos EUA.

"O fato de não termos podido conviver com nossos colegas, nossos amigos, nossa família e, no caso dos psiquiatras, até mesmo nossos pacientes, representa um alto custo para todos, e isso causa mais tensão e ansiedade", disse a Dra. Vivian.

Pesquisas nacionais nos EUA mostram que os sinas e sintomas psiquiátricos ocorreram após o quadro agudo de covid-19. Uma enquete revelou que mais de 50% dos 3.900 entrevistados que tiveram a doença relataram ter tido pelo menos sintomas moderados de depressão maior.

Subtipo diferente de depressão?

Outro levantamento, com publicação prevista para mais tarde este ano, mostra que entre os pacientes que tiveram covid-19, os fatores de risco de depressão, bem como alguns sinais e sintomas da depressão, diferem um pouco dos sintomas típicos do transtorno depressivo maior, disse ao Medscape o pesquisador responsável pelo estudo, o médico Dr. Roy Perlis, médico e professor de psiquiatria na Harvard Medical School nos EUA.

Isto poderia sugerir um componente neurofisiológico. Os pesquisadores estão especulando se a persistência dos problemas psiquiátricos que ocorrem após o quadro de covid-19 estão ligados ao impacto psicossocial da doença ou a processos patológicos que acometem o cérebro, como o quadro inflamatório.

Embora a prevalência de sintomas psiquiátricos após um quadro de covid-19 varie de estudo a estudo, "eles parecem ser consideravelmente persistentes" observou a Dra. Faith Gunning, Ph.D., psicóloga, vice-presidente de pesquisa do departamento de psicologia do Weill Cornell Medicine, especializada em neuropsicologia clínica.

"Então não se trata apenas de uma resposta breve" à doença, fato que indica a potencial necessidade de tratamento, disse a médica ao Medscape . "Em alguns trabalhos que começam a ser publicados, parece que os sintomas persistem, pelo menos em um subconjunto relativamente grande de pacientes".

Embora a depressão tipicamente atinja duas vezes mais as mulheres do que os homens, estas novas enquetes mostram que depois da covid-19 "essa diferença não é tão diferenciada", disse a Dra. Faith.

Não está claro por que isso acontece, mas pode ser pelas preocupações financeiras que podem atingir os homens em maior medida, acrescentou a professora. "Há tanto que ainda estamos aprendendo".

Aumento do risco de suicídio?

Outros pesquisadores, como o Dr. Leo Sher, médico e professor de psiquiatria da Icahn School of Medicine at Mount Sinai e diretor da enfermaria de psiquiatria do James J. Peters Veterans' Administration Medical Center nos EUA, temem que o aumento da prevalência de sintomas psiquiátricos entre os pacientes com covid-19 prolongada aumentem o risco de ideação e comportamento suicida.

Estudos sobre a ideação e os comportamentos suicidas entre os que sobrevivem à covid-19 "são urgentemente necessários", disse o Dr. Leo em um artigo publicado na Monthly Journal of the Association of Physicians.

"Precisamos estudar quais fatores podem aumentar o risco de suicídio entre os pacientes que sobreviveram à covid-19 durante a infecção e na convalescença. Também precisamos investigar se existe algum risco de aumento do suicídio em longo prazo entre os pacientes que se recuperaram da covid-19", disse o psiquiatra.

A covid-19 não é singular entre as doenças respiratórias virais na sua associação com problemas de saúde mental em longo prazo. Pesquisas mostram que os pacientes que se recuperaram da síndrome respiratória aguda (SRA) no surto de 2003 apresentaram aumento dos quadros de sofrimento psicológico que persistiram por pelo menos um ano, bem como os pacientes que em 2015 contraíram o coronavírus que causa a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV, do inglês Middle East Respiratory Syndrome).

Alguns especialistas acreditam que os médicos devem rastrear os pacientes para sinais e sintomas de transtorno mental após a fase aguda da covid-19 e oferecer atendimento precoce e prolongado.

"A intervenção precoce nos casos de saúde mental, como a psicoterapia e os grupos de apoio, poderia desempenhar um papel importante na prevenção dos transtornos mentais incidentes em pacientes após um quadro de covid-19", disse o Dr. Mauricio.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....