COMENTÁRIO

Circunferência abdominal: qual é o melhor ponto de corte para determinar o risco cardiovascular?

Dr. Fabiano M. Serfaty

Notificação

4 de junho de 2021

A obesidade é uma pandemia global. Trata-se de um estado de inflamação crônica, ocasionada pelo excesso de acúmulo de tecido adiposo, que leva à redução da expectativa de vida destes pacientes. [1]

O índice de massa corporal (IMC) é o parâmetro antropométrico pelo qual, atualmente, se "define" a obesidade e o sobrepeso. [1] Entretanto, por não ser sensível à composição e distribuição da gordura corporal, o IMC apresenta uma série de limitações.

A circunferência abdominal, por sua vez, é um parâmetro simples de ser avaliado, que apresenta correlação direta com os riscos da obesidade. [2] A circunferência abdominal é uma maneira simples de avaliar a obesidade abdominal do paciente.

De acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), a circunferência abdominal deve ser medida na região mais estreita do abdome ou no ponto médio entre o rebordo costal inferior e a crista ilíaca. A medição deve ser realizada com uma fita métrica flexível posicionada em plano horizontal.

Os pacientes com obesidade abdominal, conhecida também como obesidade visceral, apresentam maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares, diabetes, doença hepática gordurosa não alcoólica, câncer, apneia obstrutiva do sono e dislipidemia. [3]

Um consenso publicado em 2020 pelos grupos IAS e ICCR sugeriu que a circunferência abdominal seja medida de rotina prática clínica, como um sinal vital, uma vez que este parâmetro fornece informações adicionais úteis para a orientação do tratamento do paciente. [4] Entretanto, ainda não há consenso sobre os valores a serem utilizados como ponto de corte, uma vez que existe uma variedade étnica que pode influenciar os limiares associados a aumento do risco cardiovascular.

De acordo com o National Cholesterol Education Program (NCEP)/Adult Treatment Panel III (ATP-III), o ponto de corte ideal para determinar aumento do risco cardiovascular entre homens e mulheres seria: [5]

≥ 102 cm para homens; e

≥ 88 cm para mulheres.

A International Diabetes Federation (IDF) utiliza a obesidade abdominal como critério diagnóstico para síndrome metabólica, de acordo com a seguinte classificação: [5]

  • homens brancos de origem europeia e negros: ≥ 94 cm;

  • homens sul-asiáticos, ameríndios, chineses e japoneses: ≥ 90 cm; e

  • mulheres brancas de origem europeia, negras, sul-asiáticas, ameríndias, chinesas e japonesas ≥ 80 cm.

Recentemente foi publicada no periódico BMJ uma metanálise correlacionando a gordura central com o risco de morte por todas as causas. [6] Foram avaliados 72 estudos de coorte prospectivos, que demonstraram associação entre os parâmetros antropométricos adotados na prática clínica e o aumento do risco de morte por todas as causas, independentemente da adiposidade geral. [6]

Os índices antropométricos avaliados na metanálise foram: circunferência abdominal, relação cintura-quadril, circunferência do quadril, circunferência da coxa, relação cintura-altura, relação cintura-coxa, índice de adiposidade corporal e índice de forma corporal.

É interessante notar que, de acordo com esta importante metanálise, o ponto de corte global para a circunferência abdominal foi de 80 cm para mulheres e 90 cm para homens. [6] Valores acima destes foram associados a um nítido aumento linear do risco mortalidade.

Os resultados obtidos como medidas antropométricas de adiposidade central podem ser associados ao índice de massa corporal como uma abordagem complementar para determinar o risco de morte dos pacientes na prática clínica.

A circunferência abdominal deve fazer parte do exame físico de rotina, uma vez que este parâmetro apresenta uma associação importante com a adiposidade visceral, o que nos permite uma adequada estratificação do risco cardiovascular e um melhor atendimento ao nosso paciente.

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