COMENTÁRIO

Efeito Dunning-Kruger: uma grave pandemia dentro da pandemia da covid-19

Dr. Mauricio Wajngarten

Notificação

3 de junho de 2021

Como as pessoas podem ter tantas certezas sobre a pandemia de covid-19 se ainda há tantas dúvidas sobre a doença? Elas opinam sobre tudo, desde o famoso "é só uma gripezinha", até o "tempo de isolamento", os "testes que mostram a imunidade", os "tratamentos que previnem" e as "melhores vacinas". Surgiram incontáveis "experts" em virologia, imunologia, epidemiologia, infectologia, pneumologia etc. Uma verdadeira pandemia de palpiteiros dentro da pandemia de covid-19.

Outro dia, em uma conversa com o amigo e colega de equipe, Mauricio Bernstein, eu reclamei sobre isso. Bernstein tentou conter a minha irritação, dizendo que se trata de um mecanismo psicológico bastante comum: o efeito Dunning-Kruger.

Como eu nunca tinha ouvido falar nesse conceito, fiquei curioso e fui pesquisar. E realmente achei o assunto relevante. Tentarei resumi-lo com base em três fontes: o trabalho original de Kruger e Dunning, [1] um artigo de Daniel Nunes e Davi Carvalho, publicado em 2020 no Blogs de Ciência da Unicamp, [2] e um longo ensaio de Dunning publicado na Pacific Standard em 2014. [3]

O que é este efeito

Pode ser definido por quanto mais ignorante em um determinado assunto, mais confiante a pessoa pode se sentir ao opinar sobre ele. As pessoas tendem a ter visões excessivamente favoráveis de suas habilidades em muitos domínios sociais e intelectuais. Essa superestimação ocorre, em parte, porque as pessoas não qualificadas nesses domínios, chegam a conclusões errôneas, fazem escolhas infelizes, e, além disso, sua incompetência rouba-lhes a capacidade (metacognitiva) de identificar as próprias limitações de conhecimento e de compreender diversas situações.

O efeito foi batizado com o nome dos dois pesquisadores pioneiros em estudá-lo, e a história que os motivou à pesquisa é das mais curiosas, quase cômica.

Em 1996, um assaltante chamado McArthur Wheeler se convenceu de que ficaria invisível se passasse limão no rosto. Munido desta "arma secreta" ele então passou a praticar assaltos sem máscara e... foi preso. Nada indicava a influência de transtornos psiquiátricos ou de entorpecentes. Ele realmente acreditava na própria invisibilidade diante das câmeras ao cometer os crimes. Os policiais relataram que Wheeler lhes teria dito, espantado: "Mas eu usei o suco de limão!"

O aspecto cômico dessa história levou Dunning e Krugger a ganharem, em 2001, o conhecido Prêmio IgNobel de psicologia, conferido anualmente na Universidade de Harvard, que laureia pesquisas inusitadas que provocam risos, mas também reflexões, como a que estamos fazendo.

Fatores desencadeantes

É intuitivo pensar que a educação seria o antídoto natural contra o efeito Dunning-Krugger, mas, às vezes, ela só traz uma confiança ilusória. Estudos têm mostrado que o efeito independe do tema, da idade ou do grau de instrução. Os exemplos incluem de crianças a idosos, de analfabetos a cientistas, do futebol à nanotecnologia.

Por exemplo, em 2014, avaliou-se a influência de aulas de biologia do ensino médio na compreensão da teoria evolutiva em 536 alunos. Eles foram rigorosamente questionados sobre a teoria da evolução antes e logo após as aulas de introdução à biologia. Após as aulas aumentou número de afirmações corretas, mas também o número de respostas incorretas. A única resposta que se tornou menos frequente foi "não sei"; ou seja, o efeito persistiu após a educação, mas agora os alunos erraram com mais confiança.

Simplesmente dar ao público mais informações, provavelmente não implica na compreensão neutra e compartilhada dos fatos; pode reforçar as visões tendenciosas.

Tudo sugere que o efeito Dunning-Krugger está relacionado a crenças subjacentes. As experiências de vida que acumulamos fornecem conhecimento, mas não uma visão das dimensões de nossa ignorância. O valor está em saber reconhecer quando um limite foi atingido e entender que responder "não sei" não representa um fracasso.

Implicações

Segundo Dunning e Kruger a ignorância gera mais confiança e segurança do que o conhecimento.

Todos somos suscetíveis ao efeito. Na década de 80, casualmente fui apresentado ao técnico da seleção brasileira, Telê Santana. Pasmem, durante uma curta conversa tentei "ensiná-lo" como a defesa da seleção deveria jogar. Telê, educado, ostentando um sorriso amarelo, fingiu que ouviu. O meu deslize não causou problemas, porém, infelizmente, políticas e decisões baseadas na ignorância podem, mais cedo ou mais tarde, ter consequências indesejáveis.

O problema é complexo, diferentemente das salas de aula, a desinformação se dissemina por meio de veículos de informação e mídias de controle difícil ou praticamente impossível.

Temos saídas para tentar combater essa pandemia de efeito Dunning-Krugger?

A primeira providência é divulgar o efeito para tentar "vacinar" as pessoas contra ele. Também é necessária uma boa dose de humildade para reconhecer que sabemos muito pouco sobre muitas coisas. Finalmente, devemos tentar ser razoavelmente complacentes com as opiniões equivocadas, sem deixar de apontar os equívocos, em especial sobre aspectos ligados à medicina. Afinal, "de médico e louco todo mundo tem um pouco".

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....