Serrana dá o recado: mais gente vacinada, menos casos e mortes por covid-19

Mônica Tarantino

Notificação

1 de junho de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 .

Quanto mais gente vacinada, maior será a redução no número de novos casos de infecção por SARS-CoV-2 e de vidas ceifadas pela covid-19. É o que apontam os dados ainda preliminares do estudo que avalia o impacto da vacinação em massa em Serrana, cidade a 315 km da capital São Paulo cuja população é de cerca de 45.644 mil habitantes. O propósito do Projeto S, como é chamado o estudo, é identificar a efetividade da vacinação em massa na redução do número de novos casos e óbitos, ou seja, no controle da pandemia, bem como registrar reações adversas à vacina CoronaVac.

De acordo com os pesquisadores do Instituto Butantan, que coordenou a pesquisa feita em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, a vacinação de 95,7% da população adulta (27.160 mil pessoas) da cidade reduziu em 86% as internações por covid-19 e em 80% os casos sintomáticos de infecção pelo SARS-CoV-2, além de promover uma derrocada de 95% nos óbitos.

As informações foram anunciadas em entrevista coletiva na segunda-feira (31), com a presença do governador de São Paulo, pesquisadores e médicos convidados. Um dia antes da coletiva, dados preliminares foram exibidos pelo programa Fantástico e comentados pelos pesquisadores.

Entre a primeira e a segunda doses da vacina, a cidade registrou 28 hospitalizações e duas mortes na faixa etária entre 18 e 59 anos e 15 internações e 5 óbitos na faixa acima dos 60 anos. Nos 14 dias seguintes após a segunda dose, foram três internações de pessoas com idades entre 18 e 59 anos e nenhuma morte. Já na faixa acima dos 60 anos, foram duas internações e uma morte. Mais de 14 dias depois da segunda dose, houve apenas duas internações na faixa de 18 a 59 anos. Nenhum idoso precisou ser hospitalizado.

Mais uma conclusão do estudo destacada pela equipe de pesquisadores foi a baixa incidência de efeitos colaterais. Segundo os dados divulgados, houve 4,4% de relatos de reações adversas com a primeira dose, sendo que apenas 0,02% foram considerados graves (grau 3, como mialgia e cefaleia) porque interferiram em atividades cotidianas. Na segunda dose, foram 0,2% de relatos de reações adversas, mas nenhum foi considerado grave.

O desfecho mais relevante para os pesquisadores, no entanto, foi a proteção geral oferecida pelas vacinas, o que inclui pessoas vacinadas e não vacinadas.

“Quando comparamos os grupos de vacinados e não vacinados, vimos um pico de pessoas não imunizadas com covid-19 aguda, que era uma contraindicação relativa da vacina. Depois, começamos a ver uma queda do número de casos também entre os não vacinados. Isso evidenciou a imunidade indireta, como prefiro chamar em vez de imunidade de rebanho”, disse o Dr. Ricardo Palácios, médico e diretor de pesquisa clínica do Instituto Butantan.

“Por isso, tomar a vacinar é algo que a pessoa não faz por si, mas faz também pelo outro”, disse ele em entrevista ao Medscape logo após a coletiva.

O Dr. Palácios apresentou mais subsídios para compreender a extensão do efeito indireto. “Quando vacinamos 75% dos adultos – o equivalente a 40% da população de Serrana – o efeito da vacinação se deu uma semana antes, ou seja, mesmo antes de completarmos a segunda dose houve benefício para os outros grupos vacinais. A diminuição da transmissibilidade do vírus beneficia até aqueles que não cumpriram a vacinação”, disse ele.

“Os resultados desse estudo são o testemunho de que, quando conseguimos alinhar políticos, ciência e a condição rigorosa desses projetos, as respostas vêm”, comentou o Dr. Esper Kallás, infectologista, pesquisador e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), que participou da coletiva.

“A participação de quase 98% da população acima de 18 anos é extraordinária e mostra quanto é importante a comunicação de forma clara e científica”, observou o pesquisador. As mensagens conflitantes sobre a vacinação e as notícias falsas reconhecidamente prejudicam a adesão dos brasileiros à vacinação.

A Dra. Rosana Richtmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas, também convidada para comentar os dados durante a entrevista coletiva, enfatizou a importância da segunda dose: “Isso ganha ainda mais importância quando a vê o gap de gente que não voltou para tomar a segunda dose. Uma dose da vacina não é suficiente”, disse a médica, para quem o estudo de Serrana tocou em pontos extremamente importantes.

“Os dados obtidos precisam ter o segmento, ver se solidificam e se são sustentáveis”, disse ela.

De acordo com o diretor do Butantan, Dr. Dimas Covas, a pesquisa indica que “não há necessidade de revacinar ou dar dose de reforço a idosos que receberam a CoronaVac.”

Por enquanto, os resultados do Projeto S são provisórios e estão sendo analisados pelos pesquisadores, que elaboram um modelo explicativo, como detalhou em entrevista exclusiva ao Medscape o Dr. Ricardo Palácios (leia mais adiante). Não há ainda previsão de publicação dos resultados revisados por pares. 

Como foi o estudo

Entre fevereiro e abril deste ano, 27.160 moradores de Serrana com idade acima de 18 anos foram vacinados com duas doses do imunizante CoronaVac (Sinovac Biotech/Instituto Butantan). É o equivalente a cerca de 95,7% de toda a população adulta da cidade.

O Projeto S começou a ser gestado depois que um surto de covid-19 atingiu, em abril de 2020, idosos e funcionários de um asilo em Serrana. O episódio chamou a atenção dos pesquisadores do Butantan, que lideraram um inquérito epidemiológico em 160 residências da cidade e se surpreenderam com os resultados da amostragem. A testagem sorológica e o teste RT-PCR permitiram constatar que 25,7% dos moradores já tinham estado em contato com o novo coronavírus. Era um dos mais altos índices do Estado.

Com o planejamento ainda em sigilo, os pesquisadores promoveram um levantamento, chamado de Censo da Saúde, que cadastrou todos os moradores maiores de 18 anos com a intenção de garantir que a imunização em massa atingisse de fato o público-alvo. Para isso, a estratégia adotada no trabalho foi a de Implementação Escalonada por Conglomerados, pela qual o território de Serrana foi dividido em 25 pequenas áreas e quatro grupos, cada um deles vacinado em uma semana diferente.

No começo de fevereiro de 2021, depois de ser informada sobre o estudo e convidada a participar como voluntária, a população de Serrana pode acompanhar um sorteio em tempo real que definiu o primeiro grupo a receber a vacina. Com a demanda em alta e a disputa por vacinas anticovídicas estampada na imprensa mundial, a maioria dos moradores de Serrana aderiu ao estudo. Oito semanas depois, em 11 de abril, todos haviam recebido a segunda dose da CoronaVac. Ao todo, foram 54.882 doses administradas.

A vigilância ativa em Serrana também foi reforçada, com a criação de um sistema de monitoramento de casos e contatos. A coleta e análise de amostras passou a ser feita em todos os casos de novas infecções, independentemente de o quadro sintomático ser leve, moderado ou grave.

Os moradores de Serrana serão monitorados até fevereiro de 2022. Até lá, segundo o Instituto Butantan, as análises da situação da pandemia na cidade serão divulgadas de forma sistemática. Chama também a atenção o fato de que a cidade está situada em uma região em que Ribeirão Preto e outros municípios registram alta de casos neste momento – alguns já adotam medidas rigorosas, como o fechamento do comércio e outros serviços.

“É importante que os moradores entendam isso e sigam os mesmos cuidados vigentes e regras do Plano São Paulo”, disse o diretor do Butantan. Serrana hoje mantém as taxas de incidência baixas por causa da vacinação, ainda que diariamente mais de 10 mil pessoas se desloquem para trabalhar em Ribeirão Preto, por exemplo. Na opinião dos pesquisadores, o município criou uma barreira coletiva contra o vírus.

“As importantes conclusões do estudo poderão embasar estratégias de imunização no Brasil e no mundo, e oferecem uma esperança do controle da pandemia com vacinas como a CoronaVac”, afirmou o Dr. Dimas Covas.

"Não precisamos criar ilhas para atingir a imunidade da população", complementou Ricardo Palácios.

“Nós conseguimos satisfazer a vontade das pessoas de retomarem suas vidas quando a vacina é ofertada. Isso nos gera uma luz de esperança", disse o pesquisador.

ENTREVISTA: Os desafios do Projeto S

O Dr. Ricardo Palácios, diretor de pesquisa clínica do Instituto Butantan, conversou com o Medscape logo após o anúncio dos dados preliminares do estudo de Serrana. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

O senhor sabe quando e em qual periódico será publicado o paper com os dados do estudo?

Dr. Ricardo Palácios: O que mostramos hoje foram dados descritivos, fundamentalmente. Ainda não temos um modelo explicativo e esse atualmente é o nosso desafio: construir um modelo que consiga dar maior precisão sobre os fatores que influenciaram a modificação do comportamento da epidemia em Serrana. É um trabalho muito difícil que vem pela frente, no qual teremos de testar modelos e a partir deles poder oferecer uma comunicação científica mais robusta. Eu devo admitir que ainda não pensamos onde vai sair esse estudo. Estamos mais preocupados em construir um modelo explicativo robusto e depois ver o melhor lugar para oferecer essas informações ao público. 

Então agora vocês estão analisando as variáveis que levaram a esses resultados e depois irão construir o trabalho, é isso?

Dr. Ricardo Palácios: Exatamente. Há algumas coisas que a gente intuitivamente sabe que poderiam ter uma correlação. Por exemplo, a quantidade de pessoas expostas previamente ao SARS-CoV-2 nos diferentes grupos. Podemos prever que o efeito da vacinação nessas pessoas termina sendo até um pouco mais rápido ou muito mais robusto. É uma informação contida em vários estudos de vacinas e não seria uma surpresa que isso também afetasse o modelo. Outras variáveis são as diferentes proporções de faixas etárias, como crianças e idosos, e como elas podem influenciar ou não esse modelo explicativo. É a partir disso que vamos construir uma publicação científica robusta.

Os dados atuais podem variar?

Dr. Ricardo Palácios: Neste momento, realmente, é uma questão que está mais descritiva. Claro que é uma excelente notícia, mas ainda precisamos de muito mais detalhes. Quando a gente fala da diferença entre o terceiro e o quarto grupos, por exemplo, é um valor extremamente expressivo. E por isso, mesmo sem termos um modelo estabelecido, a diferença veio à tona. Mas pode ser que o valor final esteja um pouco abaixo ou tenha alguma co-dependência com variáveis como a exposição prévia da população – eu, pessoalmente, acho que esta pode ser uma das variáveis mais importantes.

Como vocês avaliaram a parcela da população que teve contato prévio com o vírus?

Dr. Ricardo Palácios: Antes da vacinação, nós coletamos uma amostra de sangue de todos os participantes da pesquisa para verificar se tiveram exposição prévia e se tinham ou anticorpos ao novo coronavírus. Eu imagino que esse é um dos fatores relevantes para entender os resultados desse estudo.

O decréscimo dos novos casos e óbitos começou a partir da vacinação de 50% da população-alvo?

Dr. Ricardo Palácios: Sim. Mas essa é uma forma de analisar. Há uma resposta indireta esperada em duas semanas após a vacinação com a segunda dose. Vimos em Serrana que esse efeito começou a aparecer antes de completarmos o esquema vacinal das áreas, e essa antecipação é o que temos como indicador de imunidade indireta em nível populacional.

O senhor acha que os resultados divulgados devem mudar algo na estratégia vacinal daqui por diante?

Dr. Ricardo Palácios: Esperamos que, por meio de um modelo explicativo, consigamos uma maior aproximação dos dados sobre quais seriam realmente os principais alvos e o nível de vacinação necessário para uma mudança no comportamento da epidemia e, com isso, orientar os programas de imunização. Novamente, não serão os mesmos níveis para uma cidade que teve uma grande exposição prévia da população ao vírus em comparação com uma cidade que teve uma quantidade pequena de exposição. Mas já percebemos algumas lições para o controle da pandemia. Uma delas é que: nós tínhamos a presunção de achar que, sendo Serrana um município muito próximo de Ribeirão Preto, a epidemia estaria muito sincronizada entre as duas cidades. Pois verificamos que isso não acontece assim. O planejamento e a vigilância local para controlar as circunstâncias particulares de cada município é muito importante, pois o comportamento da epidemia em cada cidade é diferente.

Há previsão de realizar algum estudo sobre a vacinação de crianças?

Dr. Ricardo Palácios: Países como os Estados Unidos estão vacinando crianças, mas não vimos em Serrana evidências de que necessitamos vaciná-las. O que vimos é que as crianças vão ser protegidas indiretamente. Isso é algo que também dá uma possibilidade de reabertura de escolas, de tranquilidade para os pais e familiares dessas crianças, que vivem sob grande angústia. Dentro do Programa Nacional de Imunizações, acho que as crianças não parecem ser o grupo mais prioritário. Sem dúvida, aquelas que têm alguma condição especial e que podem se beneficiar das vacinas devem ser vacinadas.

A vigilância local rendeu alguma outra lição?

Dr. Ricardo Palácios: Outra coisa que vimos em Serrana é que podem acontecer pequenos focos e precisamos dar atenção especial a eles. Quando há vacinação desigual em diferentes lugares do mundo, com as minorias tendo menos acesso à vacina, vem a preocupação sobre se isso não pode estar configurando focos permanentes de transmissão. É um alerta às autoridades de saúde, porque em Serrana a cobertura foi excelente, mas vimos isso acontecer. É parte dos ensinamentos desse estudo.

Quantos surtos houve nas 25 pequenas regiões em que a cidade foi dividida para o estudo?

Dr. Ricardo Palácios: Houve dois lugares com dois microfocos no período pós-vacinação. Felizmente, foram bem controlados porque a cobertura vacinal foi muito boa. Mas eu imagino que em um lugar onde não exista uma cobertura tão boa esses microfocos podem se converter algo muito relevante.

Como está sendo feita a vigilância epidemiológica do Projeto S? E o monitoramento genético?

Dr. Ricardo Palácios: Desde setembro, existe em Serrana um sistema de vigilância aprimorada de portas abertas que permite a qualquer morador solicitar um exame RT-PCR se estiver há dois dias com ao menos um sintoma associado à covid-19. Eles podem, livremente, solicitar esse exame. As pessoas já estão acostumadas, a comunidade sabe que pode esperar o resultado para o dia seguinte e tem funcionado muito bem, o que é fundamental para estabelecer um estudo como esse. Depois, uma boa amostra desses exames positivos é sequenciada junto ao Hemocentro da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Esse sequenciamento nos permite fazer esse acompanhamento ao longo do tempo.

O senhor mencionou o receio de que a vacinação pudesse induzir uma pressão de seleção por meio da imunização. Induziu?

Dr. Ricardo Palácios: A resposta felizmente foi não. A mesma P.1 estava circulando em outros lugares. Ficamos bem satisfeitos de poder anunciar isso, porque realmente não aconteceu. Em Serrana encontramos a mesma variante P.1 que estava circulando em toda a região.

Toda a vacinação foi feita em oito semanas. Um período maior para atingir elevada cobertura vacinal pode ter algum impacto na redução dos casos?

Dr. Ricardo Palácios: Neste momento não sabemos. Não dá para avaliar essa temporalidade e qual o impacto dela em relação às diferentes vacinas. Mas eu me atreveria a falar que os resultados de todas as vacinas não iriam variar tão significativamente, de modo geral, em relação à efetividade para aquilo que importa, que é hospitalização e morte. Todas acabam sendo muito semelhantes. Nós precisamos fazer o que outros países aqui na região já fazem, como o Chile e o Uruguai, que é o acompanhamento em larga escala das populações vacinadas. Infelizmente, não temos esses estudos ainda no Brasil.

O estudo permitirá saber por quanto tempo persiste a imunidade induzida pela vacina?

Dr. Ricardo Palácios: O propósito desse estudo não é um acompanhamento imunológico, e sim um acompanhamento clínico, afinal é isso que importa. É normal que o nível de anticorpos tenha um certo decaimento com o tempo, mas não temos como interpretar esse dado por indivíduo ainda. Por isso é mais importante entender as populações e seu comportamento.

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