História de dengue é associada a covid-19 sintomática

Clarinha Glock

27 de maio de 2021

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Um estudo [1] realizado no Acre mostra que habitantes da cidade de Mâncio Lima que tinham história de dengue e foram infectados pelo SARS-CoV-2 apresentaram o dobro de chances de manifestar sintomas de covid-19.

Organizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), o estudo analisou amostras sanguíneas de 1.285 habitantes, que foram coletadas em novembro de 2019 – antes, portanto, da chegada da pandemia ao Brasil – e novamente em novembro de 2020. Os resultados alertam para a urgência de intensificar as medidas de combate ao mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue, especialmente durante a pandemia de covid-19, como já havia sido preconizado em 2020 pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). [2] A pesquisa sugere que a história de infecção pelo vírus da dengue pode agravar os efeitos da infecção subsequente pelo SARS-CoV-2.

A população da cidade de Mâncio Lima é acompanhada desde 2018 pela equipe do Dr. Marcelo Urbano Ferreira, médico, coordenador do estudo e professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, em função de o município apresentar uma alta concentração de casos de malária, foco de outra pesquisa. A cada seis meses a equipe do Dr. Marcelo visita o local para realizar as consultas de acompanhamento e coletar amostras de sangue. O estudo abrange cerca de 20% da população. Com o advento da covid-19, surgiu a oportunidade de, utilizando as amostras prévias, fazer um estudo comparativo.

O cruzamento de dados entre covid-19 e dengue foi realizado para verificar os resultados de um trabalho publicado em setembro de 2020 [3] sugerindo que indivíduos previamente expostos a dengue seriam menos suscetíveis à covid-19. Como o número de casos de dengue no município de Mâncio Lima costuma ser alto, especialmente entre novembro e abril, o material coletado foi submetido a um estudo sorológico para detectar anticorpos contra o SARS-CoV-2 e os quatro sorotipos da dengue. 

"Encontramos exatamente o oposto", disse o Dr. Marcelo. Segundo o pesquisador, em novembro de 2019, 37% da população do estudo tinha anticorpos contra o vírus da dengue e, em novembro de 2020, 35% apresentavam anticorpos contra o SARS-CoV-2. Os sintomas e o desfecho dos pacientes com anticorpos contra o novo coronavírus também foram avaliados. Os resultados indicam que "quando as duas epidemias ocorrem juntas, há uma sobreposição de fatores – embora a infecção pelo vírus da dengue não seja o único –, potencialmente levando a casos mais graves", observou o médico.

Uma das hipóteses para explicar por que os indivíduos com história de dengue apresentaram maior risco de infecção pelo novo coronavírus é o fato de esses pacientes desenvolverem uma resposta de natureza mais inflamatória. Outra possibilidade é que apenas haja uma sobreposição de populações de risco. O Dr. Marcelo ressaltou que, como o combate à dengue foi prejudicado durante a pandemia e os serviços de saúde superlotaram, é provável que pacientes com infecção grave pelo vírus da dengue estejam evitando ir aos hospitais.

"Estudos apontam a existência de reatividade cruzada entre anticorpos que reconhecem o vírus da dengue e o Zika. [4] Os dois vírus são da família dos flavivírus, por isso, geneticamente semelhantes. De acordo com esses estudos, quem teve dengue pode estar parcialmente protegido contra o vírus Zika, porém, a exposição prévia ao Zika pode aumentar o risco de dengue grave. Na nossa população de estudo não encontramos evidências de reação cruzada entre respondedores para o vírus da dengue e SARS-CoV-2", explicou a bióloga Vanessa Nicolete, integrante do grupo de pesquisa do Dr. Marcelo, e primeira autora do artigo recém-publicado sobre o tema.

"Este estudo é importante para conscientizar sobre a associação de complicações, e para que os médicos também orientem seus pacientes no combate ao vetor da dengue", afirmou.

A próxima etapa deverá estar concluída dentro de cinco meses, segundo o Dr. Marcelo. Os pesquisadores querem saber agora se as pessoas identificadas como soropositivas para covid-19 em novembro de 2020 continuam soropositivas em maio de 2021; qual foi o impacto da segunda onda e da vacinação; e quais variantes estão circulando na região.

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