Prescrição de medicamentos que elevam a PA para hipertensos: isso precisa ser abordado

Dr. Mitchel L. Zoler

Notificação

17 de maio de 2021

Quase um a cada cinco adultos norte-americanos com hipertensão está tomando algum medicamento controlado que sabidamente eleva a pressão arterial (PA), segundo uma análise de mais de 27.000 pessoas incluída em relatórios recentes da National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES).

Praticamente metade dos adultos norte-americanos avaliados tinha hipertensão e, neste subgrupo, 18,5% referiram uso de algum fármaco de venda controlada que sabidamente eleva a pressão arterial. A classe de medicamentos com esse efeito mais utilizada pelos participantes foi a dos antidepressivos (8,7%), seguida por anti-inflamatórios não esteroides (aines) (6,5%), corticosteroides (1,9%), estrogênios (1,7%), além de vários outros, usados por menos de 1% (cada medicamento) da coorte do estudo, disse o médico Dr. John Vitarello durante uma coletiva de imprensa da sessão científica anual do American College of Cardiology (ACC).

John e colaboradores estimaram que o uso de medicamentos controlados que sabidamente elevam a pressão arterial esteja impedindo entre 560 mil e 2,2 milhões de norte-americanos de controlarem seus quadros hipertensivos – dependendo do exato impacto na PA de vários desses medicamentos e presumindo que a metade das pessoas poderia suspender o uso e passar a tomar outros agentes, que não elevem a PA, explicou o Dr. John, que é pesquisador do Beth Israel Deaconess Medical Center, nos Estados Unidos.

O médico destacou que o estudo avaliou apenas medicamentos de venda controlada (sob prescrição médica) e não examinou o uso de medicamentos de venda livre (sem necessidade de prescrição), o que pode ser especialmente relevante para a grande quantidade de pessoas que toma anti-inflamatórios não esteroides regularmente.

Os médicos devem revisar o uso de medicamentos – tanto controlados como de venda livre – por pacientes hipertensos e considerar a suspensão de fármacos que elevem a PA ou a troca para agentes que não interfiram na PA, ressaltou o Dr. John durante a coletiva. Ele advertiu que deixar pacientes hipertensos usarem agentes que elevam a PA pode gerar um efeito cascata, no qual o uso de medicamentos que elevam a PA resulta na necessidade de tratamento anti-hipertensivo intensificado.

Uma oportunidade para alternativas aos aines

"Tomara que este estudo aumente a conscientização em relação à existência de um uso muito intenso de medicamentos que elevam a pressão arterial. E o uso de agentes de venda livre pode aumentar ainda mais esta taxa", disse o Dr. Eugene Yang , cardiologista e codiretor do Cardiovascular Wellness and Prevention Program da University of Washington, nos EUA. A substituição de certos antidepressivos muitas vezes pode não ser algo realista, mas existe uma oportunidade para reduzir o uso de anti-inflamatórios não esteroides, uma classe farmacológica que também está associada a um aumento do risco de sangramento e a outros efeitos colaterais, disse o Dr. Eugene durante a coletiva. Minimizar o uso de aines, inclusive de ibuprofeno e naproxeno , "é algo a se pensar", sugeriu.

"O efeito dos anti-inflamatórios não esteroides na pressão arterial não foi bem estudado e pode variar de pessoa para pessoa", observou o Dr. John, que acrescentou que doses mais elevadas e uso mais prolongado de aines provavelmente aumentam o risco de efeitos colaterais relacionados com a pressão arterial. Uma opção razoável é incentivar os pacientes a usarem uma classe farmacológica alternativa para analgesia, como o paracetamol .

Identificar as diferenças nos efeitos colaterais na pressão arterial continua sendo "um desafio", bem como em todos os efeitos adversos cardiovasculares relacionados com os diferentes anti-inflamatórios não esteroides, explicou o Dr. Eugene. Os resultados de "alguns estudos mostram que certos aines podem ser mais seguros, mas outros estudos não mostram isso. Precisamos ter muito cuidado ao usar aines, porque, em média, eles elevam a pressão arterial em cerca de 3 mmHg. Precisamos estar atentos e tentar prescrever medicamentos alternativos, como o paracetamol".

Uma década de dados da NHANES

A análise realizada por Dr. John e colaboradores usou dados de 27.599 adultos norte-americanos incluídos na NHANES durante 2009/2018, e focou nos 44% que tinham pressão arterial média ≥ 130 × 80 mmHg ou que referiram diagnóstico prévio de hipertensão feito verbalmente por um médico. As avaliações da NHANES incluíram os medicamentos controlados tomados por cada participante. A prevalência de uso de pelo menos um medicamento que sabidamente eleva a PA foi de 24% entre as mulheres e 14% entre os homens; 4% dos pacientes com hipertensão usavam dois ou mais agentes que sabidamente elevam a PA.

Os pesquisadores basearam a identificação de medicamentos que elevam a pressão arterial na lista incluída nas diretrizes para controle da hipertensão de 2017 do ACC e da American Heart Association (AHA). Esta lista especifica que os antidepressivos que elevam a pressão arterial são os inibidores da monoamina oxidase, os inibidores da recaptação da serotonina norepinefrina e os tricíclicos.

Os Drs. John e Eugene informaram não ter conflitos de interesses.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com – Medscape Professional Network.

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