Consumo regular de café é associado a alterações funcionais no cérebro

Batya Swift Yasgur

Notificação

12 de maio de 2021

O consumo regular de café parece aumentar a concentração e melhorar o controle motor e o estado de alerta ao induzir mudanças funcionais e de conectividade no cérebro, sugere um novo estudo de imagem.

Usando ressonância magnética funcional (RMf), os pesquisadores descobriram que a conectividade nos estados de repouso somatossensorial e límbico foi menor nas pessoas que tomam café com frequência do que naquelas que não tomam café, sugerindo uma associação entre o consumo de café e um controle motor e estado de alerta mais aguçados. Além disso, a atividade dinâmica em várias áreas cerebelares e subcorticais do cérebro foi maior nas pessoas que tomam café com frequência, o que é consistente com uma maior capacidade de concentração.

Foram observadas mudanças estruturais e de conectividade semelhantes no cérebro de pessoas que não costumam tomar café depois de tomarem uma xícara de café.

"A principal mensagem para os médicos é que a ingestão regular de café, ao reduzir a conectividade de redes cerebrais específicas em risco, pode ser relevante para a atenção e vigilância, com possíveis implicações na aprendizagem e na memória, e também para o controle motor", disse ao Medscape o autor sênior, Dr. Nuno Sousa, Ph.D., médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Minho, em Portugal.

"Para a população em geral, a principal mensagem é que agora sabemos melhor como a ingestão regular de café prepara o seu cérebro para ação e resposta imediata", disse ele.

O estudo foi publicado on-line em 20 de abril no periódico Molecular Psychiatry.

"Assinatura" do café

O café tem "é particularmente interessante para a saúde humana, em vista de seus efeitos de curto prazo na atenção, sono e memória e seu impacto prolongado no surgimento de diferentes doenças e na duração saudável do envelhecimento", escreveram os autores. No entanto, apesar de seu "uso generalizado", poucas pesquisas se concentraram nos "efeitos do consumo crônico nas redes funcionais intrínsecas do cérebro".

O estudo "não teve como objetivo medir o efeito benéfico em comparação com o deletério da cafeína no cérebro, onde existem vários resultados conflitantes", disse o Dr. Nuno.

Em vez disso, observou ele, a motivação dos pesquisadores foi avaliar o impacto da ingestão regular de café na conectividade do cérebro, às vezes descrita como a "assinatura" do consumo regular de café.

Os pesquisadores compararam 31 pessoas que tomam café com frequência a 24 pessoas que não tomam café. Os grupos não diferiram em idade (variação: de 19 a 57 anos) ou grau de instrução (em número de anos), no entanto, o grupo de consumidores de café contou com um pouco mais de homens do que mulheres (41,95% versus 33,33%).

Além das informações demográficas, os pesquisadores avaliaram os hábitos de consumo de cafeína e os níveis de depressão, ansiedade e estresse dos participantes (determinados com base em escalas de depressão, ansiedade e estresse).

Após uma entrevista de admissão, os participantes fizeram uma ressonância magnética em repouso. Para as pessoas que não tomam café, o exame de imagem foi seguido por um cafezinho e então foi realizada outra ressonância, cerca de 30 minutos depois.

O cérebro cafeinado

Antes do café, entre o grupo de consumidores de café, houve "uma tendência" de padrões de conectividade funcional mais baixos nos componentes da maioria das redes cerebrais, mas diferenças significativas entre os grupos foram encontradas apenas nas redes somatossensoriais e límbicas, incluindo o pré-cúneo direito e ínsula direita.

Os autores observaram que esses efeitos foram linearmente associados à frequência de consumo de produtos cafeinados.

"É importante ressaltar que as diferenças de grupo descritas foram reduzidas depois que as pessoas que não tomam café com frequência beberam café, o que aponta para um potencial vínculo de causalidade entre o consumo de café e as mudanças na conectividade mais baixa descritas acima", escreveram.

Rede somatossensorial Rede límbica
Pré vs. pós em quem não toma café: valor de t = 1,86; P = 0,075 Pré vs. pós em quem não toma café: valor de t = 3,88; P < 0,001
Pós em quem não toma café vs. quem toma café com frequência: valor de t = −2,89; P = 0,006 Pós em quem não toma café vs. quem toma café com frequência: valor de t = −1.46; P = 0,15

Em uma análise de conexões conduzida usando uma abordagem estatística baseada em rede, as conexões de rede mais fortes estavam dentro do tálamo, cerebelo, giro pós-central direito, giro temporal médio esquerdo, giro pré-central esquerdo, caudado bilateral e putâmen. Depois de consumir cafeína, os indivíduos no grupo que não toma café tiveram um "perfil semelhante" ao do grupo que toma café com frequência.

A conectividade funcional média foi negativamente associada à frequência de consumo de cafeína (P < 0,001).

A análise dinâmica descobriu que um subsistema funcional durou significativamente mais em pessoas que tomam café com frequência do que em pessoas que não tomam café (17,95 ± 18,32 vs. 8,95 ± 6,13 segundos). Uma análise dinâmica separada descobriu que os resultados ao longo da vida foram positivamente correlacionados com a frequência de consumo de cafeína (P = 0,012).

"Depois de beber café, tanto a duração quanto a probabilidade desse estado no grupo que não toma café se aproximaram dos valores observados no grupo que toma café, com a probabilidade não sendo significativamente diferente do grupo que toma café (...) embora tenha sido significativamente maior do naqueles que não costumam tomar café antes de eles terem consumido a bebida", relataram os autores.

Não houve diferenças significativas entre os grupos em relação aos níveis de depressão, no entanto, entre o grupo de pessoas que tomam café com frequência, os níveis de estresse foram mais elevados (principalmente em relação à dificuldade de relaxar e excitação nervosa), em comparação com o grupo de pessoas que não tomam café (mediana de 6,0 vs. 4,0).

Uma maior frequência de consumo de cafeína foi associada a aumento da ansiedade em homens (P = 0,023).

Os autores observaram que os dados "representam uma contribuição para o conhecimento do 'cérebro cafeinado' e como essas mudanças estão subjacentes aos efeitos comportamentais desencadeados pela ingestão de café, com implicações para condições fisiológicas e patológicas".

Faca de dois gumes

Comentando o estudo para o Medscape, a Dra. Astrid Nehlig, Ph.D., diretora de pesquisa emérita do Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale (Inserm), que não participou do estudo, disse que a diminuição da conectividade funcional em redes somatossensoriais e relacionadas em pessoas que tomam café com frequência "provavelmente representa um padrão de conexões mais eficiente e benéfico no que diz respeito ao controle motor e alerta".

Também comentando sobre o estudo para o Medscape, o Dr. JW Langer, médico e professor de farmacologia clínica da Københavns Universitet, na Dinamarca, que não participou estudo, observou que a pesquisa "também mostra uma possível ligação entre consumo habitual de café e níveis mais elevados de estresse e ansiedade".

Embora seja "apenas uma associação e não um achado causal, isso nos lembra que o café pode ser uma faca de dois gumes e que algumas pessoas podem ter uma reação negativa ao consumo habitual de café".

O estudo foi financiado pelo Institute for the Scientific Information on Coffee, mas o instituto não teve influência no desenho experimental ou na análise e/ou interpretação dos dados. Autores individuais receberam financiamento de diversas fontes, como descrito no artigo original. A Dra. Astrid e o Dr. JW informaram não ter conflitos de interesses.

Mol Psychiatry. Publicado on-line em 20 de abril de 2021. Texto completo

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....