Cinco destaques da reunião anual AACR 2021

Nick Mulcahy

Notificação

6 de maio de 2021

A reunião anual da American Association for Cancer Research (AACR) é, em sua maioria, uma grande cadeia de apresentações de ensaios clínicos com pesquisas primárias e preliminares, mas algumas dessas apresentações contêm dados clínicos que podem mudar a prática oncológica.

Isso tem sido particularmente verdade nos últimos anos, quando o número de estudos de fase 3 sobre imunoterapias contra o câncer começou a aumentar rapidamente e os pesquisadores e seus patrocinadores passaram a competir por sessões de destaque nos principais encontros de oncologia clínica.

O Medscape destacou cinco estudos significativos para a prática clínica – ou potencialmente importantes – apresentados durante a primeira parte da AACR 2021, que foi realizada virtualmente este ano.

A segunda parte do evento será realizada de 17 a 21 de maio e terá sessões sobre educação, oficinas de métodos e sessões de outros tipos, sem relação com resultados de pesquisas.

Melanoma uveal metastático: mudança na prática clínica

Os resultados do primeiro ensaio clínico randomizado positivo para sobrevida global no melanoma uveal metastático foram descritos como "profícuos e capazes de mudar a prática clínica" pela debatedora Dra. Caroline Robert , Ph.D, médica do Institut Gustave Roussy e da Université Paris-Saclay, na França.

O estudo de fase 3 avaliou o uso em primeira linha da terapia experimental tebentafusp e como este medicamento se compara à imunoterapia ou à quimioterapia para pacientes com doença metastática.

No estudo com 378 pacientes, os indivíduos foram alocados em uma proporção de 2:1 para receber tebentafusp (N = 252) ou pembrolizumabe (N = 103), ipilimumabe (N = 16) ou dacarbazina (N = 7), a critério do pesquisador.

Em um acompanhamento que durou em média 14,1 meses, a sobrevida global foi significativamente maior entre os pacientes que receberam tebentafusp do que entre aqueles alocados em algum dos outros braços do estudo, escolhido pelo pesquisador – 21,7 meses versus 16,0 meses, respectivamente. A taxa de sobrevida global estimada em um ano foi de 73,2% no braço tebentafusp e 58,5% no braço da terapia padrão (razão de risco ou hazard ratio, HR, de 0,51; P < 0,0001).

Os eventos adversos mediados por alvo ou por citocinas foram os mais comuns no grupo tebentafusp. Estes incluíram pirexia (76%), prurido (69%) e erupção cutânea (83%), que diminuíram em frequência e gravidade após as primeiras três a quatro doses.

Embora a síndrome de liberação de citocinas seja comum (89%), a taxa de síndrome de liberação de citocinas de grau 3-4 foi muito baixa (1%), segundo a apresentação.

Tebentafusp é uma proteína que redireciona as células T para matar as células tumorais que expressam a gp100. Como o domínio de ligação do receptor das células T reconhece apenas um peptídeo derivado de gp100 específico apresentado no HLA-A*02:01, o tebentafusp só pode ser usado para tratar pacientes com este tipo de HLA, explicou a primeira autora do estudo, Dra. Jessica Hassel , médica do Universitätsklinikum Heidelberg, na Alemanha.

O fabricante anunciou recentemente que o tebentafusp (IMCgp100), usado para o tratamento de pacientes adultos positivos para HLA-A*02:01 com melanoma uveal metastático ou irressecável, recebeu a designação de terapia inovadora pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA.

Câncer de pulmão desaparece antes da cirurgia

A imunoterapia com nivolumabe garantiu diversas aprovações em muitos tipos diferentes de câncer avançado e agora está sendo testada na doença em estágio inicial, como muitos outros agentes anti-proteína programada 1 da morte celular (PD-1, sigla do inglês Programmed Cell Death Protein 1) e anti-ligante 1 da morte celular programada (PD-L1, sigla do inglês Programmed Death-Ligand 1)

Novos dados do ensaio clínico de fase 3 sugerem que a administração de nivolumabe antes da cirurgia para pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) ressecável, poderia ser um uso adequado para o inibidor de checkpoint.

Os resultados do estudo CheckMate 816 mostram que a taxa de resposta patológica completa foi de 2,2% com a quimioterapia padrão isolada para 24% quando o nivolumabe foi adicionado à quimioterapia.

Essa diferença se traduziu em uma HR de 13,94 (P < 0,0001) para alcançar uma resposta patológica completa, relatou Patrick Forde, do Johns Hopkins Kimmel Cancer Center, nos Estados Unidos. A resposta patológica completa foi o desfecho primário e foi definida como regressão completa tanto do tumor primário quanto dos linfonodos.

A debatedora do estudo Dra. Jhanelle Gray, médica do Moffitt Cancer Center, nos EUA, indicou que uma metanálise de 32 estudos sobre quimioterapia neoadjuvante no câncer de pulmão de não pequenas células mostrou associações claras entre a resposta patológica completa e a resposta patológica maior tanto em relação a sobrevida global como a sobrevida livre de eventos.

No entanto, a Dra. Jhanelle disse que os achados precisam ser confirmados no contexto de imunoterapia, porque às vezes os achados radiográficos não se correlacionam com os histológicos com esses agentes.

Maior sobrevida em crianças com tumor "horrendo"

O glioma de alto grau recorrente ou em progressão é "uma doença horrenda, que realmente não responde a nada", de acordo com o Dr. Howard Kaufman, médico e diretor do Oncolytic Virus Research Laboratory no Massachusetts General Hospital, nos EUA.

O Dr. Howard foi convidado a comentar um pequeno estudo de fase 1 de uma imunoterapia experimental que contém uma versão geneticamente alterada do vírus herpes simplex tipo 1 (HSV-1).

O produto do vírus oncolítico, conhecido como G207, estimula uma resposta imunológica e destrói as células tumorais.

No ensaio clínico, o produto foi infundido diretamente no cérebro de 12 pacientes entre 7 e 18 anos de idade que tinham glioma. Ele levou a uma sobrevida global mediana de 12,2 meses , o que é mais do que o dobro da mediana de 5,3 meses observada nos pacientes do controle histórico.

O estudo do Dr. Gregory K. Friedman, médico da University of Alabama em Birmingham e colaboradores foi publicado on-line simultaneamente no periódico The New England Journal of Medicine.

Uma terapia viral oncolítica já está no mercado dos EUA. A talimogene laherparepvec (Imlygic) é uma terapia oncolítica com HSV-1 que foi aprovada em 2015 pela FDA para tratamento local (ou seja, injeção direta na lesão) de lesões cutâneas, subcutâneas e nodais irressecáveis em pacientes com melanoma recorrente após a cirurgia inicial.

Tratamento personalizado para melanoma metastático

Pacientes com melanoma metastático cuja doença continua a progredir após o tratamento com a extremamente elogiada imunoterapia e agentes direcionados têm poucas opções de tratamento restantes. Uma que pode funcionar é a terapia celular personalizada com base em células T extraídas diretamente do tecido tumoral.

Um desses produtos, lifileucel, é feito individualmente para cada paciente e utiliza linfócitos infiltrantes de tumor (TIL, sigla do inglês Tumor-Infiltrating Lymphocytes) extraídos das lesões neoplásicas do paciente.

Essa abordagem difere de outras terapias celulares, como a terapia com células T CAR, que utiliza células T coletadas do sangue do paciente.

Os resultados de um estudo de fase 2 do lifileucel conduzido em 66 pacientes com melanoma irressecável ou metastático com história de tratamento produziram uma taxa de resposta objetiva de 36,4% . Três das 24 respostas foram completas; 21 foram parciais.

Após um acompanhamento médio de 28,1 meses, a duração mediana da resposta não foi alcançada e variou de 2,2 a > 35,2 meses, disse o Dr. Jason Alan Chesney, Ph.D., médico do James Graham Brown Cancer Center, da University of Louisville, nos EUA.

O debatedor do encontro Dr. Philip Greenberg, médico do Fred Hutchinson Cancer Center, nos EUA, observou que a terapia celular personalizada com TIL não é nova – ela foi explorada para o tratamento do melanoma por mais de uma década. Alguns pesquisadores relataram resposta durável em 25% dos pacientes .

No entanto, ele comentou que "a generalização da terapia com TIL foi dificultada pelo processo complexo e não absolutamente definido para a produção de células".

O estudo em tela demonstra que a geração de células pode ser realizada em uma instalação centralizada que possui a experiência técnica necessária, observou o Dr. Philip. Este estudo também demonstra que os TIL podem ser gerados com sucesso a partir de tumores localizados em sítios diferentes da pele ou dos linfonodos, disse ele.

Estilo de vida saudável em homens com alto risco de câncer de próstata

Adotar um estilo de vida saudável pode compensar o aumento da chance de câncer de próstata letal para pacientes com altos escores de risco genético, de acordo com os resultados de um grande estudo de coorte nos EUA .

A primeira autora do estudo, Dra. Anna Plym , Ph.D., da Harvard School of Public Health, nos EUA, observou que cerca de 58% da variabilidade no risco de câncer de próstata é explicada por fatores genéticos. Polimorfismos comuns de nucleotídeo único (SNP) são responsáveis por uma proporção substancial da suscetibilidade ao câncer de próstata.

Um escore de risco poligênico derivado da combinação de informações de 269 SNP é "altamente preditivo" de câncer de próstata, acrescentou a Dra. Anna, citando pesquisas recentes.

Os pesquisadores usaram essa pontuação para quantificar o risco genético de câncer de próstata em 10.443 homens inscritos no Health Professionals Follow-up Study. Os homens foram divididos em quartis de acordo com o risco genético.

Além disso, os pesquisadores classificaram os homens usando uma pontuação de estilo de vida validada .

Usando dados de acompanhamento que se estenderam por até 22 anos, a equipe descobriu que a adoção de um estilo de vida saudável não diminuiu o risco de câncer de próstata em geral (HR de 1,01; intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,84 a 1,22), nem afetou os homens nos quartis de menor risco genético.

No entanto, o estilo de vida saudável parece afetar os homens no quartil de maior risco genético. Os homens com as pontuações mais altas para estilo de vida saudável tiveram quase metade do risco de câncer de próstata letal, em comparação com os homens com as pontuações mais baixas para estilo de vida (3% versus 6%).

A Dra. Anna observou que a taxa de doença letal em homens com as melhores pontuações de estilo de vida correspondia à taxa da população do estudo como um todo (3%), sugerindo que estilo de vida saudável pode contrabalançar o alto risco genético.

Nick Mulcahy é jornalista sênior premiado para o Medscape. Ele já atuou como freelance para o HealthDay e MedPageToday, e tem publicações no WashingtonPost.com, MSNBC, e Yahoo. E-mail: nmulcahy@medscape.net e Twitter: @MulcahyNick

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