Covid-19 e STEMI confere mau prognóstico; 1 em cada 3 morre no hospital

Megan Brooks

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3 de maio de 2021

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Pacientes com covid-19 e infarto agudo do miocárdio (IAM) com supradesnível do segmento ST (STEMI, sigla do inglês ST segment Elevation Myocardial Infarction) representam uma população de alto risco, com características demográficas e clínicas peculiares, que resultam em alto risco de morte, de acordo com os achados preliminares do registro North American Cardiovascular COVID-19 Myocardial Infarction (NACMI).

"Este é o maior registro de pacientes com covid-19 que apresentam STEMI, e os resultados ilustram claramente os desafios e a singularidade dessa população, a qual merece atenção imediata e especial", disse em comunicado à imprensa um dos líderes do estudo, Dr. Timothy Henry, médico e presidente da Society for Cardiovascular Angiography & Interventions (SCAI).

O NACMI é um registro criado em colaboração entre a SCAI, o American College of Cardiology (ACC) Interventional Council e a Canadian Association of Interventional Cardiology.

"O rápido desenvolvimento deste importantíssimo registro prospectivo, que está em evolução, reflete a forte e excepcional colaboração entre essas três sociedades. Foi gratificante fazer parte deste processo e esperamos que os resultados melhorem o atendimento aos nossos pacientes e fomentem pesquisas futuras", disse à imprensa o Dr. Timothy.

O registro inscreveu 1.185 pacientes com STEMI em 64 locais nos Estados Unidos e no Canadá. A população de participantes é composta de 230 pacientes com covid-19 + STEMI; 495 pacientes com suspeita de STEMI sem covid-19; e 460 controles pareados por idade e sexo que haviam sido diagnosticados com STEMI e tratados antes da pandemia provenientes do Midwest STEMI Consortium.

Os resultados preliminares foram publicados on-line em 19 de abril no periódico Journal of the American College of Cardiology.

Sintomas atípicos podem explicar a alta taxa de mortalidade

Trinta e seis por cento dos pacientes com covid-19 apresentaram o desfecho primário composto – morte intra-hospitalar, acidente vascular cerebral (AVC), IAM recorrente ou nova revascularização não planejada –, em comparação com 13% dos pacientes sem covid-19 e 5% dos controles (P < 0,001 em relação aos controles).

Essa diferença foi impulsionada, em grande parte, por uma taxa de mortalidade hospitalar "muito alta" entre pacientes com covid-19, disse ao Medscape o primeiro autor do estudo, Dr. Santiago Garcia, médico, Minneapolis Heart Institute Foundation, nos EUA.

A taxa de mortalidade hospitalar foi de 33% entre pacientes com covid-19, em comparação com 11% entre aqueles sem covid-19 e 4% entre os controles. A ocorrência de AVC também foi mais frequente entre pacientes com covid-19, em comparação com aqueles sem covid-19 (3% versus 2%). Nenhum controle teve AVC.

Esses achados preliminares sugerem que a combinação de STEMI e covid-19 "confere um mau prognóstico, com um a cada três pacientes sucumbindo à doença, mesmo entre os selecionados para angiografia invasiva (mortalidade de 28%)", escreveram os pesquisadores.

Os dados também revelam que o impacto do STEMI em pacientes com covid-19 é desproporcionalmente maior entre minorias étnicas com diabetes (23% hispânicos e 24% negros). Dentre os pacientes incluídos no registro, 46% dos que tiveram covid-19 tinham diabetes.

Pacientes com covid-19 + STEMI têm maior probabilidade de manifestar sintomas atípicos, como dispneia (54%), infiltrados pulmonares na radiografia de tórax (46%) e quadros de alto risco, como choque cardiogênico (18%), "o que pode explicar o alto índice de mortalidade", disse o Dr. Santiago.

Apesar dessas características de alto risco, os pacientes com covid-19 tiveram menos probabilidade de realizar angiografia invasiva em comparação com os pacientes sem covid-19 e os controles com STEMI (78% vs. 96% vs. 100%).

A maioria dos pacientes (71%) submetidos a angiografia recebeu intervenção coronariana percutânea primária (ICPP) com atrasos de tratamento muito pequenos (de 15 minutos) durante a pandemia.

Outro achado notável foi o fato de "muitos pacientes (23%) não terem nenhum vaso identificado como a origem do problema e poderem representar diferentes etiologias de elevação do segmento ST, incluindo microembolia, miocardite e miocardiopatia de Takotsubo ", explicou o Dr. Santiago em uma entrevista.

"De acordo com as diretrizes atuais, os pacientes com suspeita de STEMI devem receber ICPP prontamente, desde que a segurança dos profissionais de saúde esteja garantida", escreveram os médicos Dr. Ran Kornowski e a Dra. Katia Orvin, com o Rabin Medical Center e Tel Aviv University, em Israel, em um editorial que acompanha o estudo.

"Nesse caso, a ICPP deve ser realizada de rotina, mesmo em pacientes com possível quadro de covid-19, visto que a ICPP não deve ser adiada. A confirmação da infecção pelo SARS-CoV-2 não deve atrasar a decisão urgente de tratamento em relação à estratégia de reperfusão", aconselham os editorialistas.

Pensando adiante, o Dr. Santiago disse que os planos para o registro incluem a determinação de preditores de mortalidade hospitalar e o estudo das tendências demográficas e terapêuticas à medida que a pandemia continua com cepas mais virulentas do vírus.

Várias análises de subgrupo também estão planejadas, bem como uma análise de laboratório central de angiografia e eletrocardiografia independente. Uma avaliação comparativa de dados dos EUA e Canadá também está planejada.

O trabalho recebeu apoio do American College of Cardiology Accreditation Grant, Saskatchewan Health Research Foundation (SHRF) e fundos da Medtronic and Abbott Vascular para a SCAI. O Dr. Santiago recebeu fundos de pesquisa institucionais da Edwards Lifesciences, BSCI, Medtronic e Abbott Vascular; prestou consultoria para Medtronic e BSCI; e atuou como conselheiro para a Edwards Lifesciences. O Dr. Ran e a Dra. Katia informaram não ter conflitos de interesses.

J Am Coll Cardiol. Publicado on-line em 19 de abril de 2021. Abstract , Editorial

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