Antipsicóticos podem proteger da covid-19?

Megan Brooks

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30 de abril de 2021

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Nova pesquisa sugere que o uso de antipsicóticos possa proteger contra a infecção pelo SARS-CoV-2 ou levar a uma evolução mais branda da doença.

De forma "contraintuitiva", observaram os pesquisadores, pessoas vulneráveis, com transtornos psiquiátricos graves "em tratamento com antipsicóticos mostraram um risco menor de infecção pelo SARS-CoV-2 e um prognóstico provavelmente melhor para a covid-19".

"Estes são achados muito interessantes, que refletem uma realidade clínica em que vemos poucos pacientes com covid-19 grave, apesar da presença de vários fatores de risco", disse o pesquisador do estudo, Dr. Manuel Canal-Rivero, Ph.D., psicólogo clínico, Virgen del Rocio University Hospital, na Espanha, em um comunicado à imprensa.

"O número de pacientes com covid-19 é menor do que o esperado para este grupo de pessoas e, nos casos de infecção comprovada, a evolução é benigna e não chega a uma situação clínica potencialmente fatal. Esses dados em conjunto parecem apontar para um efeito protetor do medicamento", acrescentou o Dr. Manuel.

O estudo foi publicado on-line como uma carta ao editor em 19 de fevereiro no periódico Schizophrenia Research.

Achado "impressionante"

Os pesquisadores avaliaram a prevalência e o prognóstico de covid-19 em 698 pacientes com transtornos psiquiátricos graves sendo tratados com antipsicóticos injetáveis de ação prolongada. A amostra sem transtorno psiquiátrico grave incluiu a população da área de abrangência, de 557.576 indivíduos.

De fevereiro a novembro de 2020, 4,1% da população sem transtorno psiquiátrico grave foi infectada com SARS-CoV-2 versus apenas 1,3% da população com transtorno psiquiátrico grave (9 de 698 pacientes). Todos, exceto um paciente com transtorno psiquiátrico grave, tiveram doença assintomática (8 de 9; 89%). Informações precisas sobre doenças assintomáticas na população sem transtorno psiquiátrico grave não estavam disponíveis.

Também foram registradas menos internações hospitalares na população com transtorno psiquiátrico grave (0,0% versus 8,5%), internações em unidade de terapia intensiva (UTI) (0% versus 0,9%) e mortes por covid-19 (0,0% versus 1,1%), embora as diferenças não tenham sido estatisticamente significativas.

Em uma pesquisa relacionada , os mesmos pesquisadores descobriram que muitos dos genes cuja expressão é alterada pela infecção por SARS-CoV-2 são significativamente infra regulados pelos antipsicóticos.

"De forma impressionante, mostramos como os antipsicóticos reduzem a ativação de genes envolvidos em muitas das vias inflamatórias e imunológicas associadas à gravidade da infecção pelo coronavírus", explicou o Dr. Benedicto Crespo-Facorro, Ph.D., médico da Universidad de Sevilla, que liderou o estudo, no comunicado à imprensa.

"Embora esse achado exija replicação, a descoberta pode ser muito significativa, porque o tratamento da covid-19 com medicamentos originalmente indicados para situações clínicas não relacionadas, ou seja, o reposicionamento de fármacos, tem se mostrado uma fonte interessante de tratamentos eficazes para esses pacientes", acrescentou.

Propriedades antivirais?

Procurado para comentar, o Dr. Samoon Ahmad, médico e professor do Departamento de Psiquiatria da NYU Grossman School of Medicine, nos EUA, disse que as descobertas são "fascinantes" e que devem ser mais exploradas.

Embora as descobertas sobre o tratamento com antipsicóticos injetáveis de ação prolongada "pareçam contraintuitivas a princípio, elas estão de acordo com outros estudos", ressaltou o Dr. Samoon, que dirige a unidade de internação de psiquiatria do Bellevue Hospital Center e é fundador do Integrative Center for Wellness, nos EUA.

"Sabemos que certos antipsicóticos podem suprimir a expressão de citocinas inflamatórias (evitando assim, teoricamente, a tempestade de citocinas) e antidepressivos parecem ativar proteínas celulares essenciais que o SARS-CoV-2 usa para replicação", explicou o Dr. Samoon, que não participou do estudo.

Por exemplo, conforme relatado pelo Medscape, um estudo preliminar publicado no ano passado mostrou que o tratamento precoce com o antidepressivo fluvoxamina evitou a deterioração clínica em pacientes ambulatoriais adultos com covid-19 confirmada.

O antipsicótico aripiprazol também demonstrou potencial para tratar infecção grave por covid-19.

"Consequentemente, parece haver uma explicação possível para o motivo pelo qual esses medicamentos proporcionam maior proteção contra o SARS-CoV-2 aos pacientes com transtornos psiquiátricos graves", disse o Dr. Samoon ao Medscape.

No entanto, ele advertiu, há vários fatores em jogo que podem influenciar os resultados, portanto, mais pesquisas são necessárias antes de qualquer conclusão.

"Ainda assim, a possibilidade de que medicamentos psiquiátricos possam ter propriedades antivirais é um avanço tremendo e eu realmente espero que estudos adicionais confirmem essas descobertas preliminares", disse o Dr. Samoon.

O estudo não recebeu financiamento específico. Os autores e o Dr. Samoon informaram não ter conflitos de interesse.

Schizophrenia Res. Publicado on-line em 19 de fevereiro de 2021. Carta ao editor

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