Estudo aponta os sintomas mais comuns da covid-19 persistente após quadro leve

Damian McNamara

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20 de abril de 2021

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Anosmia, ageusia, dispneia e fadiga são os quatro sintomas mais referidos por profissionais de saúde suecos oito meses após um quadro de covid-19 moderada, revelam novas evidências.

Aproximadamente 1 a cada 10 profissionais de saúde apresentaram pelo menos um sintoma moderado a grave com repercussão negativa na qualidade de vida, segundo o estudo realizado pelo Karolinska Institutet, da Suécia.

Dra. Charlotte Thålin

"Vemos que uma quantidade importante de profissionais da saúde sofre com sintomas prolongados após ter covid-19 branda", disse para o Medscape a autora sênior do estudo, a médica Dra. Charlotte Thålin, Ph.D. A pesquisadora acrescentou que a anosmia e a ageusia "podem parecer triviais, mas em longo prazo têm um impacto negativo no trabalho, na vida social e na vida pessoal".

O estudo é particularmente interessante não somente por ter acompanhado as experiências dos profissionais de saúde relacionadas com a covid-19 ao longo do tempo, mas também pelo que não encontrou. Não houve maior prevalência de problemas cognitivos – como memória ou concentração – que outros relacionaram ao que costuma ser chamado de covid-19 persistente.

A carta de pesquisa foi publicada em 07 de abril de 2021 no periódico JAMA.

"Mesmo que você seja jovem e previamente hígido, uma infecção leve por covid-19 pode causar consequências em longo prazo", disse a Dra. Charlotte, do Departamento de Ciências Clínicas do Danderyds sjukhus no Karolinska Institutet.

Os pesquisadores não observaram aumento do risco de sintomas tardios após o quadro de covid-19 assintomática.

Agregando às evidências existentes

Esta carta de pesquisa "vem agregar ao crescente corpo da literatura, mostrando que as pessoas que se recuperam da covid-19 referem um leque diversificado de sinais e sintomas que persistem durante meses após a infecção inicial", disse a médica Dra. Lekshmi Santosh ao Medscape quando convidada a comentar. A Dra. Lekshmi é professora e chefe dos docentes na University of California, San Francisco (UCSF) Post-COVID OPTIMAL Clinic.

Dra. Lekshmi Santosh

Pesquisas anteriores revelaram sinais e sintomas graves prolongados, como palpitação e comprometimento neurológico, entre os pacientes internados por covid-19. Contudo, "os dados sobre os efeitos tardios após a apresentação branda da doença são limitados, e muitas vezes esses estudos são dificultados pelo viés de seleção e não têm grupos de controle adequados", disse a Dra. Charlotte.

A ausência destes sintomas mais graves após um quadro leve de covid-19 é "tranquilizadora", acrescentou.

Os achados atuais fazem parte do estudo em andamento COMMUNITY (COVID-19 Biomarker and Immunity, ou biomarcadores da covid-19 e imunidade, em português), que avalia a imunidade em longo prazo. Os profissionais de saúde se inscreveram na pesquisa entre 15 de abril e 08 de maio de 2020; eles fizeram exames de sangue ao início do estudo e, a seguir, a cada quatro meses.

A Dra. Charlotte, o Dr. Sebastian Havervall, médico e primeiro autor do estudo, e seus colaboradores compararam o relato dos sinais e sintomas de 323 funcionários do hospital que tiveram covid-19 branda há pelo menos oito meses antes da avaliação aos de 1.072 funcionários que não tiveram covid-19 durante todo o estudo.

Os resultados revelaram que 26% dos pacientes que tiveram covid-19 apresentaram pelo menos um sinal ou sintoma moderado a grave que persistiu por mais de dois meses, em comparação a 9% no grupo de controle.

O grupo com história de covid-19 branda teve uma mediana de 43 anos e 83% eram mulheres. Os controles tiveram uma mediana de 47 anos e 86% eram mulheres.

Dra. Sarah Jolley

"Esses dados espelham o que vimos nas coortes de acompanhamento prolongado dos pacientes com quadro de covid-19. Particularmente, a doença leve entre os pacientes previamente hígidos pode estar associada à persistência prolongada dos sinais e sintomas," disse ao Medscape a médica pneumologista Dra. Sarah Jolley, especializada em medicina intensiva do UCSHealth University of Colorado Hospital, nos EUA, e diretora da Post-covid-19 Clinic .

"Nesta coorte, assim como em outras, isso parece ser mais pronunciado entre as mulheres", acrescentou Dra. Sarah.

Principais conclusões funcionais

No oitavo mês, por meio de um aplicativo para smartphone, os participantes informaram a existência, duração e gravidade de 23 sintomas predefinidos. Os pesquisadores usaram a escala da deficiência de Sheehan para avaliar o comprometimento funcional.

No total, 11% dos participantes informaram pelo menos um sinal ou sintoma que teve repercussão negativa no trabalho, na vida social ou na vida pessoal no oitavo mês, versus apenas 2% do grupo de controle.

Os participantes soropositivos tiveram uma probabilidade quase duas vezes maior de se queixar de que seus sinais e sintomas prolongados os perturbaram de moderada a acentuadamente sua vida profissional, 8% versus 4% dos profissionais de saúde soronegativos (risco relativo, RR, de 1,8; intervalo de confiança, IC, de 95% de 1,2 a 2,9).

As interferências na vida social decorrentes dos sinais e sintomas prolongados foram 2,5 vezes mais prováveis no grupo soropositivo. No total, 15% dessa coorte referiram efeitos moderados a acentuados, em comparação a 6% no grupo soronegativo (RR de 2,5; IC de 95% de 1,8 a 3,6).

Os pesquisadores também indagaram sobre problemas pessoais, que foram descritos por 12% dos profissionais de saúde soropositivos e 5% dos participantes soronegativos (RR de 2,3; IC de 95% de 1,6 a 3,4).

As descobertas do estudo "estão bem alinhadas com o que temos observado", disse ao Medscape o fisioterapeuta Dr. David Putrino, Ph.D., diretor de inovação de reabilitação do Mount Sinai Health System, nos EUA. Dr. David e colaboradores são responsáveis pela reabilitação de pacientes com covid-19 prolongada.

Dr. David Putrino

Paradoxalmente, a proporção de pessoas com persistência dos sintomas pode ser subestimada nesta pesquisa, disse o Dr. David. "Os anticorpos não são biomarcadores inteiramente confiáveis. Assim, o que os pesquisadores estão usando aqui é o parâmetro mais conservador de quem pode ter tido o vírus."

O potencial viés de lembrança e a classificação subjetiva dos sinais e sintomas foram possíveis limitações do estudo.

Quando solicitado a especular por que os pesquisadores não encontraram níveis mais altos de disfunção cognitiva, o Dr. David disse que os relatos dos próprios pacientes costumam ser menos fidedignos do que medidas como a MoCA (Montreal Cognitive Assessment) para a detecção do comprometimento cognitivo.

Além disso, contrariamente a muitas pessoas com covid-19 prolongada das quais Dr. David trata – pacientes que "estão realmente lutando" – os profissionais de saúde estudados na Suécia têm um desempenho funcional bom o suficiente para exercer suas funções no hospital, de modo que a população estudada pode não representar a população geral.

É necessário haver mais pesquisas

"Mais pesquisas precisam ser feitas para investigar os mecanismos de persistência destes sinais e sintomas, e vários centros, como a USF, estão pesquisando quais podem ser estes mecanismos", disse a Dra. Leksmi.

Dra. Charlotte e colaboradores pretendem continuar a acompanhar os participantes. "O principal objetivo do estudo COMMUNITY é investigar a imunidade tardia após a covid-19, mas também analisar os possíveis mecanismos fisiopatológicos da persistência dos sinais e sintomas da doença", afirmou a autora.

"Espero ver o paladar e olfato retornarem", acrescentou Dra. Charlotte.

"Estamos somente começando compreender os efeitos em longo prazo da covid-19", disse o Dr. David. "Isto é algo que vamos ver muito daqui em diante".

As Dras. Charlotte Thålin, Lekshmi Santosh, Sarah Jolley e o Dr. David Putrino informaram não ter relações financeiras relevantes. Doações de Knut and Alice Wallenberg Foundation, Jonas and Christina af Jochnick Foundation, Leif Lundblad Family Foundation, Region Stockholm e Erling-Persson Family Foundation financiaram a pesquisa.

Damian McNamara é jornalista do Medscape e mora em Miami. Ele cobre uma grande diversidade de especialidades médicas, como doenças infecciosas, gastroenterologia e medicina intensiva. Siga Damian no Twitter: @MedReporter .

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