Cefaleia na covid-19 pode estar associada a hipertensão intracraniana

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

15 de abril de 2021

Um estudo publicado no final do ano passado no periódico Cephalalgia [1] que analisou pacientes com covid-19 submetidos a punção lombar devido a sintomas neurológicos mostrou que, na ausência de meningite ou encefalite, a cefaleia foi associada a hipertensão intracraniana em uma proporção relevante dos casos. Para os pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal Fluminense (UFF) e colaboradores, a coagulopatia associada à infecção por SARS-CoV-2 possivelmente está por trás desse achado.

O Dr. Abelardo de Queiroz Campos Araújo, médico neurologista, pesquisador da Fiocruz, professor da UFRJ e um dos autores do estudo, concedeu entrevista ao Medscape.

Na análise retrospectiva, os autores investigaram 56 pacientes com covid-19 internados em diferentes centros de saúde entre abril e maio de 2020. Todos tinham queixas neurológicas. Cefaleia persistente associada a infecção viral sistêmica foi o que motivou a realização da punção lombar em 13 (23,2%) participantes. Em geral, a dor foi descrita como latejante, holocraniana ou bilateral e a maioria das pessoas que apresentou cefaleia era do sexo feminino (N = 10).

Na ausência de meningite e encefalite, a análise do líquido cefalorraquidiano (liquor) revelou hipertensão intracraniana em 84,6% dos casos (11 dos 13 pacientes), de acordo com o parâmetro de pressão normal de abertura: < 200 mmH2O. A taxa de casos de hipertensão intracraniana permaneceu importante (46,1%) mesmo quando os autores consideraram 250 mmH2O como ponto de corte.

Além da punção lombar, todos os 13 pacientes foram submetidos a ressonância magnética (RM) do crânio, mas apenas um apresentou alterações tipicamente observadas na hipertensão intracraniana.

Segundo o Dr. Abelardo, o exame de imagem da maioria dos pacientes com hipertensão intracraniana idiopática, mesmo quando não há associação com a covid-19, é inocente. No caso da covid-19, a natureza deste processo parece ser microvascular e, portanto, pode não ser detectada por meio de exames de imagem.

Embora todos os pacientes avaliados pelo Dr. Abelardo e sua equipe tenham tido RNA viral de SARS-CoV-2 detectado por transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase (RT-PCR, sigla do inglês, Reverse Transcription Polymerase Chain Reaction) em amostra coletada por swab nasal e orofaríngeo, o grupo não encontrou PCR positivo nas amostras de liquor dos participantes.

"Esse resultado sugere que a cefaleia não se deve a um mecanismo de infecção direta do sistema nervoso, mas sim a um efeito secundário da infecção sistêmica, provavelmente por congestão venosa cerebral consequente ao distúrbio de coagulação provocado pelo SARS-CoV-2", explicou o especialista, lembrando que o aumento da coagulabilidade sanguínea induzido pelo SARS-CoV-2 é sistêmico e já conhecido, podendo, inclusive, levar a trombose e acidente vascular cerebral (AVC). Segundo o Dr. Abelardo, o aumento da coagulabilidade causa congestão venosa e diminuição da absorção de liquor, que então se acumula nos espaços subaracnoideos, o que produz um aumento da pressão intracraniana e consequente dor de cabeça.

O médico também explicou que a cefaleia observada nos casos de covid-19 costuma ser concomitante ao surgimento dos sintomas sistêmicos associados à doença como febre, tosse, astenia, dispneia, entre outros. Alguns indivíduos apresentam dor de cabeça como parte do curso do quadro infeccioso, e outros, com história de migrânea, referem piora do quadro ou surgimento de algum tipo de dor de cabeça distinto da cefaleia anterior à covid-19, esclareceu.

Após 66 dias de acompanhamento, cinco dos 13 pacientes que apresentaram queixa de cefaleia ao início do estudo ainda não tinham se recuperado totalmente. O Dr. Abelardo lembrou que, a despeito da resolução da infecção aguda pelo SARS-CoV-2, os distúrbios de coagulação podem permanecer por mais tempo. "Não se sabe ainda quais fatores determinam que alguns pacientes tenham ou mantenham uma cefaleia persistente após a cura da covid-19. Isso deverá ser motivo de estudos futuros", destacou.

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