Modelo prevê impacto da hesitação em relação à vacina contra a covid-19 em diferentes países

Brenda Goodman

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14 de abril de 2021

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Embora milhões de pessoas venham se enfileirando para receber a vacina contra a covid-19, há uma questão premente do outro lado dessas filas: Quantas pessoas decidirão, em última instância, não tomar a vacina e o que isso vai nos custar?

Pesquisadores do COVID-19 Response Team do Imperial College London (ICL) recentemente tentaram criar um modelo de como o futuro pode se apresentar com a hesitação em relação à vacina no bolo – e o resultado não é bom.

Mesmo com vacinas altamente eficazes contra SARS-CoV-2, os níveis atuais de hesitação nos Estados Unidos podem exigir a continuação de intervenções não farmacológicas – como o fechamento de locais de trabalho e escolas e o uso de máscaras – pelo menos até o final de 2022 para manter a pandemia sob controle.

O modelo também calcula que milhares de outras pessoas – vacinadas ou não – podem ser hospitalizadas e/ou morrer nos próximos meses porque algumas pessoas permanecem desconfiadas em relação às vacinas.

No Reino Unido, onde a hesitação é baixa, mais de 80% dos participantes de pesquisadas recentes sobre o desejo de serem imunizados contra a covid-19 disseram que já haviam recebido a vacina ou que pretendiam fazê-lo. Na Alemanha, o percentual de pessoas que afirmou que provavelmente ou definitivamente seria vacinado chega a quase 70%. Na França, cerca de metade das pessoas disse que tomaria a vacina contra a covid-19. A equipe do ICL modelou esses países como tendo cenários de hesitação "baixa", "média" e "alta", respectivamente, e comparou os resultados com um cenário ideal, no qual 98% das pessoas acima de 15 receberiam o imunizante.

O cenário ideal presume que algumas pessoas não podem tomar as vacinas por conta de alergias ou problemas de saúde preexistentes, mas que todos desejam tomar a vacina.

Modelo prevê picos no inverno

O modelo prevê vários surtos de covid-19 no futuro – principalmente durante o inverno no hemisfério Norte – continuando até 2024, conforme as pessoas voltam a viajar e a frequentar ambientes de trabalho, ensino e recreativos.

Mesmo em um cenário como o do Reino Unido, que tem vacinas altamente eficazes e a hesitação é baixa – talvez entre 10% e 20% –, o modelo mostra que a quantidade de mortes diárias será quase nove vezes mais elevada no pico do primeiro surto por conta das pessoas que optaram por não tomar a vacina. Essas mortes estarão concentradas entre as pessoas que escolheram não tomar a vacina, mas também afetarão as que se imunizaram, porque mesmo as melhores vacinas não são 100% eficazes.

Nos próximos dois anos (até o final de 2022) o modelo prevê cerca de 30% mais mortes por covid-19 em um país de baixa hesitação, como o Reino Unido, cerca de 350% mais mortes em um país de média hesitação, como a Alemanha, e cerca de 770% mais mortes em um país com grande hesitação, como a França.

Modelamento difícil

No entanto, algumas precisam ser mantidas em mente sobre esse modelo, disse a Dra. Rupali Limaye, Ph.D., diretora de ciência comportamental e de implementação da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, nos EUA.

Ela diz que a hesitação é difícil de modelar porque se agrupa. A probabilidade de alguém tomar a vacina ou não depende de uma série de fatores, incluindo o que seus amigos postam no Facebook, sua raça, idade, sexo, afiliação política, religião e até mesmo seu nível de educação.

"Pessoas que tendem a não tomar vacinas tendem a sair umas com as outras", disse ela.

Para os fins do modelo, a equipe do ICL fatorou apenas a idade na equação de hesitação. Eles presumiram que, em todos os outros aspectos, as pessoas eram iguais.

A Dra. Rupali disse que os números no modelo do ICL parecem razoáveis, mas, na vida real, as mortes e hospitalizações como resultado da hesitação não serão distribuídas uniformemente. Algumas comunidades serão mais afetadas pela hesitação do que outras

Apenas saber os números não nos ajuda a intervir onde é mais necessário.

A Dra. Rupali, que não participou da modelagem do ICL, tem trabalhado com o colega da Johns Hopkins, Dr. Shaun Truelove, para tentar fazer estimativas semelhantes para os EUA.

O Dr. Shaun, modelador de dados, disse que o relatório do ICL pintou um cenário que talvez seja pessimista demais.

Primeiro, disse ele, a hesitação da vacina diminuiu nos Estados Unidos e em outros países.

"Mais e mais pessoas estão sendo vacinadas. Temos mais dados sobre segurança, mais dados sobre eficácia; e, ao mesmo tempo, também houve esse ressurgimento da pandemia com as variantes", disse o Dr. Shaun. "Por tudo isso, a disposição em tomar a vacina também aumenta."

Ele ressaltou que a disposição pode diminuir se as pessoas perderem a confiança em algumas das vacinas mais recentes, como a AstraZeneca.

O modelo projeta quase dois anos. O Dr. Shaun disse que é muito tempo quando se trata de uma situação tão fluida. Ao montar modelos, ele não gosta de ir além de cerca de seis meses.

Além disso, disse ele, os modelos não são previsões, mas podem ser úteis para ajudar a dimensionar os possíveis impactos e ajudar a orientar as decisões em relação às políticas públicas.

Os autores do estudo disseram estar totalmente de acordo sobre esse ponto.

"Ser vacinado é uma escolha individual, mas essa escolha tem consequências sociais", disse Daniela Olivera Mesa, uma doutoranda no ICL, em um comunicado de imprensa. "Nosso trabalho demonstrou que a hesitação em relação à vacina pode ter um impacto substancial na saúde, e que afeta as populações vacinadas e não vacinadas. Fomentar confiança nas vacinas é uma importante prioridade de saúde pública para controlar a covid-19."

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