Sem sombra de dúvida: o comprometimento da saúde do cérebro pela covid-19 é real e grave

Sarah Edmonds

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14 de abril de 2021

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As pessoas que sobrevivem à covid-19 enfrentam um risco muito alto de abrir um quadro de distúrbios psiquiátricos ou neurológicos nos primeiros seis meses após contrair a doença – risco que aumenta de modo proporcional à gravidade dos sintomas da doença aguda, revelam novas pesquisas.

Os resultados do que parece ser o maior estudo de seu tipo realizado até hoje mostraram que, em um intervalo de seis meses, um terço de 236.379 pacientes com covid-19 foi diagnosticado com pelo menos um dentre os 14 transtornos psiquiátricos ou distúrbios neurológicos analisados no trabalho.

A incidência das doenças, que foram de depressão a acidente vascular cerebral (AVC), aumentou vertiginosamente entre os pacientes com história de sinais e sintomas de covid-19 suficientemente graves a ponto de indicar hospitalização.

"Se olharmos para os pacientes que foram hospitalizados, essa incidência aumentou para 39%, e a seguir aumentou para pouco menos de um a cada dois pacientes encaminhados para a unidade de tratamento intensivo (UTI) no momento do diagnóstico da covid-19", disse o médico Dr. Maxime Taquet, Ph.D., do University of Oxford Department of Psychiatry, no Reino Unido, em uma coletiva de imprensa.

A incidência passa para quase dois terços nos pacientes com encefalopatia no momento do diagnóstico da covid-19, acrescentou o pesquisador.

O estudo, que avaliou a saúde cerebral de 236.379 pessoas que sobreviveram à covid-19 por meio de um banco de dados norte-americano com 81 milhões de prontuários eletrônicos, foi publicado on-line em 06 de abril no periódico Lancet Psychiatry.

Alta prevalência de distúrbios neurológicos e transtornos psiquiátricos

A equipe da pesquisa analisou o diagnóstico inicial ou a recidiva de 14 desfechos neurológicos e psiquiátricos em pacientes com infecção confirmada pelo SARS-COV-2. Também comparou a saúde cerebral dessa coorte a um grupo de controle de pacientes com influenzaou outras infecções respiratórias – exceto a covid-19 – no mesmo período.

Todos os participantes do estudo tinham mais de 10 anos de idade, receberam diagnóstico de covid-19 a partir de 20 de janeiro de 2020 e permaneciam vivos em 13 de dezembro de 2020.

As 14 doenças psiquiátricas e neurológicas avaliadas foram hemorragia intracraniana; AVC isquêmico; parkinsonismo; síndrome de Guillain-Barré; distúrbios neurais, da raiz nervosa e do plexo nervoso; doença da junção mioneural e muscular; encefalite; demência; psicose; transtornos do humor e da ansiedade; dependência química; e insônia.

Os pesquisadores utilizaram internação hospitalar, admissão na unidade de tratamento intensivo e encefalopatia como sinais de gravidade do quadro de covid-19.

O estudo tomou como referência a coorte primária com quatro grupos de pacientes diagnosticados no mesmo período com doença não respiratória, como infecção cutânea, urolitíase, fraturas ósseas e embolia pulmonar.

Os resultados mostraram que um número significativamente maior de pacientes com covid-19 foi diagnosticado com distúrbio neurológico ou transtorno psiquiátrico do que de pacientes com outras doenças respiratórias.

"Em média, em termos de números relativos, houve um aumento de 44% do risco de ter algum diagnóstico neurológico ou psiquiátrico após a covid-19 do que após a gripe, e um aumento de 16% do risco em comparação a outras infecções respiratórias", disse Dr. Maxime aos repórteres.

Os serviços de saúde devem estar preparados para o aumento da demanda psiquiátrica e neurológica nos próximos meses, disse o pesquisador, acrescentando que há necessidade de novas pesquisas para determinar a etiologia e a fisiopatologia do comprometimento da saúde cerebral pelo coronavírus.

Maior estudo feito até hoje

Embora pesquisas anteriores sugiram haver relação entre as doenças, este é o maior e mais extenso estudo de seu tipo examinando a maior quantidade de desfechos neurológicos até hoje, disse o copesquisador do estudo, Dr. Paul Harrison, médico e chefe associado do University of Oxford Department of Psychiatry.

A incidência de transtornos do humor e da ansiedade foi menor em comparação aos distúrbios neurológicos nos pacientes com covid-19 grave, achado que, segundo o Dr. Paul, pode indicar que o estresse psicológico relacionado com a pandemia possa estar promovendo esses distúrbios vs. fatores biológicos.

"Este artigo acompanha nosso estudo anterior, onde encontramos muitas associações semelhantes e nós achamos que muitas das consequências da covid-19 na saúde mental têm (...) a ver com o estresse de ser diagnosticado com a doença e de todas as implicações envolvidas, em vez de ser um efeito direto, por exemplo, do vírus no cérebro ou da resposta imunitária ao vírus no cérebro", acrescentou.

Em contrapartida, os diagnósticos neurológicos tiveram maior probabilidade de serem "mediados por alguma consequência direta da infecção pelo SARS-CoV-2", acrescentou Dr. Paul.

Os quadros de psicose e demência, por exemplo, foram menos comuns na população geral com covid-19, contudo, tornaram-se muito mais frequentes entre pacientes com doença mais grave. A equipe da pesquisa disse que esses achados, junto com os achados relacionados com a incidência de acidente vascular cerebral isquêmico, foram "preocupantes".

"Descobrimos que 1 em cada 50 pacientes com covid-19 evolui com acidente vascular cerebral isquêmico nos primeiros seis meses após a doença", disse Dr. Maxime aos repórteres. "E esta incidência aumenta para 1 a cada 11 pacientes se olharmos para pacientes com encefalopatia no momento do diagnóstico da covid-19."

O número de casos de hemorragia intracraniana também aumentou significativamente entre os pacientes com doença grave. Pouco mais de 1 a cada 200 pacientes com covid-19 tiveram esse diagnóstico neurológico, mas que isso passou para 1 a cada 25 pacientes com quadro de encefalopatia no momento do diagnóstico da covid-19.

Necessidade de replicação

O coautor do estudo, Dr. Masud Husain, Ph.D., médico do University of Oxford Cognitive Neurology Department, disse aos repórteres que, embora existam evidências de outros estudos neurológicos de que o vírus pode chegar ao cérebro, há poucos sinais de comprometimento neuronal.

"Não existem muitos indícios de que o vírus atue contra os neurônios, mas decerto pode causar um processo inflamatório e assim ativar as células inflamatórias cerebrais", disse o médico.

"E provavelmente esses efeitos são muito importantes em alguns processos fisiológicos cerebrais. Além disso, é claro, sabemos que o vírus pode causar discrasias sanguíneas e trombose, e isso também pode ter repercussão no cérebro", acrescentou.

O Dr. Paul disse que seria útil replicar os resultados obtidos do banco de dados norte-americano em outras populações.

"É evidente que a replicação destes resultados com outros prontuários eletrônicos em outros países é prioritária", afirmou, acrescentando que as pesquisas são essenciais para saber como e por que o vírus compromete a saúde cerebral.

O Dr. Paul citou um estudo financiado pela UK Research and Innovation-funded chamado COVID CNS que irá acompanhar os pacientes com quadros neurológicos e/ou psiquiátricos durante a fase aguda da covid na esperança de explorar as possíveis causas.

Sem sombra de dúvida

Convidado a comentar os achados do estudo, Sir Simon Wessely, catedrático Regius de psiquiatria do King's College London no Reino Unido, disse em uma nota à imprensa: "Este é um artigo muito importante. Confirma sem sombra de dúvida que o SARS-CoV-2 compromete tanto o cérebro quanto a mente, em igual medida."

Alguns desses efeitos, como o acidente vascular cerebral e a ansiedade, já eram conhecidos, mas outros, como a demência e a psicose, nem tanto, acrescentou.

"O que é muito novo é a comparação com todos os vírus respiratórios ou com a influenza, o que sugere que esses aumentos estão especificamente relacionados com o SARS-CoV-2 e não com a resposta do organismo à infecção viral", disse Sir Simon. "Em geral, quanto pior a doença, mais graves os desfechos neurológicos ou psiquiátricos, o que talvez não seja surpreendente.

"Os piores desfechos ocorreram entre os pacientes com encefalopatia, o que, mais uma vez, não surpreende. A associação com a demência foi, entretanto, pequena e pode refletir questões relacionadas com o diagnóstico, enquanto até agora não parece haver indícios preliminares de ligação com o parkinsonismo, que foi um fator importante após a grande pandemia de gripe espanhola, embora os autores advirtam que ainda é cedo para descartar esta possibilidade."

Lancet Psychiatry. Publicado on-line em 06 de abril de 2021. Texto completo

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