Tratamento prolongado com semaglutida pode evitar recuperação do peso corporal após perda importante

Mitchel L. Zoler

Notificação

13 de abril de 2021

Injeções semanais de semaglutida, um agonista do receptor do peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1, sigla do inglês Glucagon-Like Peptide-1), contribuíram para o controle e até para o aumento da perda ponderal inicial quando o tratamento foi mantido por mais de 20 semanas, de acordo com os resultados de um ensaio clínico randomizado, multicêntrico e internacional que analisou 803 indivíduos.

O estudo "reflete o que sempre vemos na prática; que quando as pessoas perdem peso, o corpo luta para recuperá-lo. Os resultados reforçam isso" ao mostrar o que acontece quando as pessoas param de tomar o medicamento, disse a médica Dra. Domenica M. Rubino, no encontro anual de 2021 da Endocrine Society.

O estudo STEP 4 foi iniciado com 902 participantes com obesidade ou de alto risco: índice de massa corporal (IMC) médio de aproximadamente 38 kg/m2. Os pacientes ingressaram em uma fase inicial de 20 semanas, aberta, na qual receberam injeções subcutâneas de semaglutida uma vez por semana. Ao longo desta fase, todos os indivíduos gradualmente aumentaram para a dose de manutenção do estudo de 2,4 mg/semana, o que permitiu que os pesquisadores excluíssem os participantes intolerantes, que não aderiram ao tratamento ou que não apresentaram resposta. Após a exclusão de 99 indivíduos e da documentação de que os 803 pacientes restantes já haviam perdido uma média de 11% de seu peso inicial nesta fase da pesquisa, os participantes foram então randomizados em uma proporção de 2:1 para (1) continuar recebendo as injeções semanais de semaglutida por mais 48 semanas ou (2) passar a receber injeções de placebo.

Passadas as 48 semanas seguintes, as 535 pessoas que continuaram o tratamento com semaglutida perderam em média mais 8% do peso corporal. Por outro lado, os 268 participantes que passaram a receber placebo ganharam 7% do peso que haviam alcançado na 20ª semana do estudo, levando a uma diferença significativa de perda ponderal entre os grupos de cerca de 15% para o desfecho primário do estudo. Aqueles que permaneceram recebendo semaglutida pelas 68 semanas tiveram uma perda ponderal média cumulativa de aproximadamente 17%, em comparação com o início do tratamento, disse a Dra. Domenica. Simultaneamente à apresentação, os resultados também foram publicados on-line no periódico JAMA .

"É reconfortante que as pessoas que seguem este tratamento podem obter perda ponderal de 15% e, em alguns casos, de 20% ou mais. Isso é incrível", disse a Dra. Domenica em uma entrevista. Após 68 semanas, 40% das pessoas que permaneceram no tratamento com semaglutida perderam pelo menos 20% de seu peso corporal inicial.

"Prevenir a recuperação do peso após a perda inicial é um grande desafio bem conhecido para as pessoas que emagrecem", comentou o Dr. John Clark III , Ph.D., especialista em controle ponderal do University of Texas Southwestern Medical Center, nos EUA, que não participou do estudo. Os achados do STEP 4 serão "úteis para discutir com pacientes que perderam peso sobre os riscos e benefícios de continuar a tomar este medicamento por mais tempo do que apenas alguns meses, e se eles querem continuar a tomar o medicamento depois de atingirem o peso desejado", observou o Dr. John em uma entrevista. "Esta nova informação reforça que o tratamento continua a ser eficaz após o curto prazo."

"Essa é a primeira lição sobre obesidade. Se é fornecido um tratamento que visa os mecanismos da obesidade e então esse tratamento é interrompido, não devemos nos surpreender se ocorrer recuperação ponderal", comentou a Dra. Ania M. Jastreboff , Ph.D., médica e codiretora do Yale Center for Weight Management, nos EUA. "É trágico ver pacientes que, após uma perda ponderal bem-sucedida, recuperam o peso porque o tratamento que utilizaram foi interrompido", disse ela em uma entrevista.

O estudo STEP 4 foi realizado em 73 centros em 10 países de 2018 a 2020. Os autores inscreveram adultos sem diabetes e com IMC ≥ 30 kg/m2 ou ≥ 27 kg/m2 caso o paciente apresentasse pelo menos uma comorbidade relacionada com o peso, como hipertensão, dislipidemia ou apneia obstrutiva do sono. Os participantes tinham em média 47 anos de idade, quase 80% eram mulheres e cerca de 84% eram brancos, incluindo 8% de origem hispânica ou latina.

O perfil de eventos adversos foi consistente com os achados de estudos nos quais a semaglutida foi usada para tratar hiperglicemia em pacientes com diabetes tipo 2 — o uso de até 1 mg de semaglutida por semana é aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA para controlar a hiperglicemia em pacientes com diabetes tipo 2 —, bem como os resultados de outros estudos feitos com semaglutida e outros agonistas do receptor do GLP-1.

No STEP 4, 9% dos pacientes que permaneceram recebendo semaglutida após a randomização e 7% dos que passaram a receber placebo tiveram alguma reação adversa grave; e cerca de 2% dos pacientes alocados em ambos os braços do estudo interromperam o tratamento devido à ocorrência de algum evento adverso. Os eventos adversos mais comuns no grupo semaglutida foram gastrointestinais: diarreia (14%), náuseas (14%), constipação (12%) e vômitos (10%).

Esses efeitos gastrointestinais costumam ser atenuados por um aumento mais lento da dose, pelo hábito de pequenas quantidades de comida por vez e não comer além do ponto de se sentir satisfeito, observou a Dra. Ania.

Os resultados do STEP 4 seguem relatórios anteriores de três outros grandes estudos (STEP 1 , STEP 2 e STEP 3 ) que avaliaram os efeitos da perda ponderal do tratamento semanal com semaglutida em adultos usando vários critérios de inscrição e projetos de tratamento. "Vimos resultados muito consistentes em todos os quatro estudos para eficácia e segurança", disse a Dra. Domenica, que é diretora do Washington Center for Weight Management & Research, nos EUA.

A NovoNordisk, empresa que comercializa a semaglutida, apresentou dados de todos os quatro estudos à FDA no final de 2020 em um pedido de um novo rótulo para uma indicação de perda ponderal na dosagem de 2,4 mg/semana. A empresa disse que espera uma decisão da agência até junho de 2021.

A Dra. Domenica atuou como advisor, prestou consultoria e atuou como porta-voz para a Novo Nordisk. Ela também foi pesquisadora de estudos patrocinados pela AstraZeneca, Boehringer Ingelheim e Novo Nordisk. O Dr. John informou não ter conflitos de interesses. A Dra. Ania prestou consultoria e recebeu verba para pesquisa da NovoNordisk, bem como da Eli Lilly e Boehringer Ingelheim.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com – Medscape Professional Network.

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