Covid-19: Resumo da semana (10 a 16 de abril)

Equipe Medscape Professional Network

16 de abril de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 .

Na manhã da sexta-feira (16), o Brasil registrou 13.758.093 casos de infecção por SARS-CoV-2 e 365.954 óbitos por covid-19, de acordo com dados obtidos diariamente pelo consórcio de veículos de imprensa a partir dos dados obtidos das secretarias estaduais de saúde – o consórcio é formado por EstadãoG1, O GloboExtraFolha e UOL. Nas últimas 24 horas, o país registrou 3.744 mortes pela doença. A média móvel de mortes por dia nos últimos sete dias está em 2.952.

As medidas restritivas adotadas por diversos estados para conter a aceleração da pandemia começam a mostrar algum impacto. No Paraná, houve redução na fila de espera por um leito hospitalar na primeira quinzena de abril. Segundo dados da secretaria estadual, a fila por leitos persiste, mas o número de pessoas à espera caiu de 740 para 250. Já a taxa de ocupação dos leitos em unidade de terapia intensiva (UTI) se mantém em torno de 94% desde o começo do mês.

Na rede particular, segundo levantamento da Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anaph), a taxa de ocupação de leitos de UTI por pacientes de covid-19, diminuiu, em média, 13 pontos percentuais, de 98% para 85% nas últimas duas semanas. Os dados são de 56 hospitais de excelência de todo o país. Entre as regiões, as instituições do Sul aparecem com a menor taxa de ocupação das UTIs, com 80,4%, e o Sudeste com a maior (87,3%). Nordeste, Norte e Centro Oeste estão com 84%.

Apesar dos apelos de especialistas e alertas da Fiocruz sobre o aumento de casos e mortes até o final de abril, cerca de 18 estados adotaram algum tipo de flexibilização. No Rio de Janeiro, o governador autorizou a reabertura de bares, lanchonetes, restaurantes e shoppings a partir desta sexta-feira (16) e permitiu esportes coletivos em praças, parques e praias. Na manhã do dia 15, o prefeito carioca, Eduardo Paes, foi diagnosticado com covid-19 pela segunda vez.

E mais: seria cômico se não fosse absolutamente trágico. Uma das peças publicitárias da primeira fase de campanha para incentivar o uso de máscaras no Rio de Janeiro exibiu a imagem de um médico com a máscara de proteção facial N95 colocada ao contrário. O governo do Rio recolheu o cartaz. Há suspeitas de favorecimento na concorrência para a campanha, que custou 13 milhões de reais aos cofres estaduais.

Cenário de escassez persiste

Levantamento do Conselho de Secretários Municipais de Saúde de São Paulo (Cosems/SP) divulgado dia 15 apontou que “os estoques de um ou mais medicamentos da classe terapêutica de bloqueadores neuromusculares têm autonomia hoje para o período de zero até sete dias em 78,6% dos serviços de saúde sob gestão municipal, sendo que em 5 de abril o abastecimento estava crítico em 59% dos serviços”. Na mesma data, a Anaph afirmou que 30% dos hospitais privados do país têm estoques de kit de entubação para cinco dias ou menos. De acordo com a secretaria estadual de Saúde, estão sendo usados protocolos alternativos com medicamentos disponíveis que foram elaborados emergencialmente com a ajuda de associações médicas.

Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo obteve nota técnica do Ministério da Saúde constatando que a pasta não está conseguindo refazer a reserva de medicamentos do kit entubação. O governo conseguiu comprar apenas 17% dos medicamentos necessários à entubação da quantidade pretendida para seis meses. Em geral, as compras são feitas pelos estados e municípios, mas em situação de risco de desabastecimento, é função do MS promover as compras e garantir o suprimento. Em reunião no final de março, ficou acertado que o MS compraria 186 milhões de doses para 180 dias. Alertas de escassez vêm sendo feitos há mais de um mês.

Diante da perspectiva de desabastecimento iminente, Associação Médica Brasileira (AMB) divulgou um documento com orientações e um protocolo para dar suporte aos médicos na tomada de decisão sobre qual paciente deve receber tratamento em caso de escassez de leitos, insumos e medicamentos.

Mudança de perfil

Informações de um levantamento feito pela Associação Brasileira de Medicina Intensiva (Amib) apontam uma mudança no perfil dos pacientes em terapia intensiva. Em março, pessoas com menos de 40 anos de idade ocupavam 52% dos leitos de UTI. Em fevereiro, o dado era de 44,5%. Vários fatores podem estar promovendo essa mudança, como a agressividade das novas variantes, a vacinação dos mais velhos e também a maior exposição desse grupo ao vírus por condições de trabalho e também por falha na adoção das medidas de prevenção como uso de máscara e distanciamento físico.

Os dados do último boletim do Observatório Covid-19 da Fiocruz, publicado no sábado (10), mostram que o maior aumento de casos e óbitos pela doença entre janeiro e março deste ano se deu na faixa etária de 30 a 39 anos, em que o crescimento foi de impressionantes 1.218%. Para comparação, o aumento em todas as idades foi de 701%.

Reparação e cuidado

Entrou em vigor em 26 de março a lei 14.128, que garante uma compensação financeira de R$ 50 mil reais paga pela União aos profissionais da saúde que ficarem inválidos de forma permanente após serem infectados pelo SARS-CoV-2. A mesma indenização é prevista aos cônjuges, dependentes ou herdeiros dos profissionais que morrerem pela doença. A lei prevê ainda uma compensação a partir de R$ 10 mil aos dependentes menores de 21 anos, ou menores de 24 anos que estejam cursando o ensino superior. Esses direitos são garantidos a todos os profissionais de saúde reconhecidos pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), assim como fisioterapeutas, nutricionistas, assistentes sociais, profissionais que trabalham com testagem em laboratórios de análise, agentes comunitários de saúde e de combate a endemias e outros trabalhadores que estejam vinculados à área de saúde, ainda que não exerçam a atividade-fim em questão, como funcionários da limpeza em hospitais, motoristas de ambulâncias, responsáveis por necrotérios e coveiros.

No início da semana, o diretor da Organização Mundial de Saúde (OMS), Dr. Tedros Adhanom, PhD., ficou tocado pela iniciativa de uma enfermeira brasileira que usou luvas preenchidas com água quente para aquecer as mãos de uma paciente entubada com covid-19.

“Sem palavras para expressar minha admiração aos profissionais da saúde na linha de frente nesta pandemia e as formas incríveis com que eles estão buscando confortar seus pacientes. Vocês têm muito a nos ensinar e há muito que devemos fazer para apoiá-los e protegê-los", escreveu o Dr. Tedros no Twitter.

A semana das vacinas 

Até o momento, 12,02% da população brasileira (25.460.098) receberam a primeira dose de alguma vacina contra a covid-19 e 4,04% tomaram a segunda dose (8.558.567). No total, foram aplicadas 34.018.665 doses.

A falta de imunizantes em quantidade apropriada prejudica o andamento da vacinação. Na quarta-feira (14), as capitais João Pessoa (PB), Rio Branco (AC) e Salvador (BA) haviam paralisado a vacinação em primeira dose por falta de vacinas. No dia 16, Florianópolis (SC), Goiânia (GO) e Maceió (AL) também pararam de vacinar pelo mesmo motivo.

Não bastasse a escassez de vacinas, mais de 1,5 milhão de brasileiros que receberam a primeira dose não retornaram aos postos de saúde para tomar a segunda e completar a imunização, de acordo com o Ministério da Saúde. São doses já reservadas para essa finalidade. A pasta prometeu emitir lista com nomes dos atrasados para que as secretarias estaduais entrem em ação.

Estados e municípios de São Paulo têm denunciado o recebimento de ampolas de vacinas aparentemente com doses menores. O Instituto Butantan acredita que a manipulação incorreta dos imunizantes está levando a desperdícios de dose por frasco. Por isso, irá alterar a bula das ampolas da CoronaVac para explicar a forma correta de aplicar as vacinas. No domingo (11), a instituição publicou os dados completos dos ensaios clínicos feitos no país. Além dos dados conhecidos, o estudo sugere que a eficácia da CoronaVac pode ser maior se o intervalo entre as duas doses for superior a 21 dias.

O governo da China estuda a mistura de vacinas contra a covid-19 produzidas no país para aumentar a eficácia. A intenção foi revelada no sábado (10), pelo diretor do Centro de Controle de Doenças daChina, Gao Fu. Pesquisadores britânicos estão estudando combinações da vacina de Pfizer/BioNtech com a de Oxford/AstraZeneca.

De acordo com a direção da Pfizer, fabricante da vacina Cominarty, as pessoas que receberem o imunizante possivelmente precisarão de uma terceira dose em seis meses a um ano. Albert Bourla, presidente da farmacêutica norte-americana, disse ainda que provavelmente a revacinação anual será necessária.  Mas tudo precisa ainda ser confirmado, disse Bourla em entrevista na quinta-feira à rede CNBC, nos Estados Unidos.

Para avaliar o impacto da hesitação vacinal no mundo, pesquisadores do Imperial College of London criaram um modelo que estima os possíveis cenários em sociedades com alta, média e baixa confiança nas vacinas contra a covid-19.

Corticosteroides: novo protocolo em estudo

Um hospital público em São Paulo está testando o uso de doses elevadas de metilprednisolona para bloquear forma grave da covid-19 e reduzir o número de entubações. Coordenadores do trabalho, que envolverá cerca de 90 pacientes, publicaram recentemente revisão da fisiopatologia da doença no periódico Journal of Infectious Diseases and Epidemiology.

Doença branda e imunidade

Estudo brasileiro já aceito para publicação pelo periódico Emerging Infectious Diseases indica que casos leves de covid-19 podem não levar, necessariamente, à proteção contra novas infecções pela mesma variante. O trabalho acompanhou um grupo de 30 pessoas de março de 2020 até o final do ano. O estudo foi coordenado pelo pesquisador Thiago Moreno, da Fiocruz, em colaboração com cientistas Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Instituto D’Or de Ensino e Pesquisa (IDOR) e da empresa chinesa MGI Tech Co.

Consequências para o cérebro

Não resta dúvida: o impacto cerebral da covid-19 é real e grave. O risco de distúrbios psiquiátricos ou neurológicos nos primeiros seis meses após infecção pelo coronavírus é muito alto, como mostram novas pesquisas.

Um estudo recente também revelou que distúrbio de coagulação provocado pelo SARS-CoV-2 pode ser causa da hipertensão intracraniana e consequente cefaleia.

A pandemia no mundo

O mundo somou 139.244.306 casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus e 2.989.173 óbitos na manhã de 16 de abril, segundo o monitor Coronavírus Resource Center , da Johns Hopkins University (EUA).

Nos Estados Unidos, a agência reguladora Food and Drug Administration (FDA) e os Centers of Diseases Control and Prevention (CDC), recomendaram na terça-feira (13) a interrupção do uso da vacina da Janssen/Johnson&Johnson após relatos de coágulos sanguíneos em pacientes que receberam o imunizante. As agências encontraram seis relatos de pessoas que apresentaram coágulos sanguíneos raros em combinação com plaquetas baixas e iniciaram a pausa "por excesso de cautela", observando que mais de 6,8 milhões de doses da vacina já foram administradas.

A medida inesperada ocorre no momento em que o país parecia finalmente fazer deslanchar seu programa de vacinação, administrando uma média de mais de 3 milhões de vacinas por dia. A ação regulatória também trouxe novamente o receio de aumento da hesitação vacinal, o que pode atrasar a meta do país de imunidade coletiva. Enquanto isso, com o número de casos aumentando novamente em partes dos Estados Unidos, alguns especialistas ponderam que o país pode estar entrando em uma quarta onda. No entanto, o aumento é desigual, com 44% dos novos casos ocorrendo em apenas cinco estados que representam 22% da população dos EUA.

A Austrália enfrenta agora um grande entrave ao seu plano de vacinar quase toda a sua população até o final de 2021 depois que as autoridades recomendaram que pessoas com menos de 50 anos recebam a vacina de Pfizer/BioNTech em vez da vacina de Oxford/AstraZeneca. O país estava apostando principalmente nesta última para atingir seu objetivo e não planeja redefinir metas.

No Japão, em meio a uma onda de infecções por SARS-CoV-2 – que se acredita serem causadas por novas variantes –, a prefeitura de Osaka relatou um recorde de 1.130 casos diários na quarta-feira (14). A contagem nacional de novos casos diários ultrapassou 4.000 pela primeira vez desde o final de janeiro.

Com um total de 13,9 milhões de casos, o governo da Índia anunciou na terça-feira (13) que acelerará as autorizações de uso de emergência para vacinas contra a covid-19 aprovadas por outras agências reguladoras de vários países ou listadas pela OMS. Esse movimento abre caminho para possíveis importações das vacinas de Pfizer/BioNTech, Janssen/Johnson&Johnson e Moderna. Na manhã de segunda-feira (12), o país aprovou a vacina russa Sputnik V para uso emergencial, tornando-a a terceira vacina aprovada depois da Covishield (Oxford/AstraZeneca) e da sua Covaxin, produzida pela indiana Baharat Biotech.

A Argentina atingiu um novo recorde no número de casos confirmados de covid-19 e as autoridades discutem a probabilidade de aumentar a severidade das medidas de bloqueio. A vacinação continua no país. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), afirmou que a região da América Latina não tem conseguido acessar as doses necessárias para vacinar toda sua população e enfatizou a importância da melhoria e da agilização desse processo.

No México, o governo relatou uma mudança de planos no programa de vacinação: o país continuará a vacinar pessoas com mais de 65 anos e começará a imunizar também professores, deixando de fora os trabalhadores de saúde do setor privado e outras populações em risco. O governo anunciou ainda o desenvolvimento de uma vacina mexicana, que deve estar pronta até o final de 2021. De acordo com a plataforma da Johns Hopkins University, o Brasil passou os Estados Unidos em mortes pela doença. São 1.731,6 mortes/milhão no país contra 1.722,2 nos Estados Unidos.

Na terça-feira (13), três dias antes do que estava previsto, o Reino Unido atingiu a meta de oferecer vacinação a todos acima de 50 anos, grupos vulneráveis ​​e profissionais de saúde e cuidados. O National Health System (NHS) considerou a vacinação de 19 entre 20 pessoas com mais de 50 anos "um marco". Além disso, o estudo PRINCIPLE, da University of Oxford, divulgou resultados interinos mostrando que o corticosteroide inalado budesonida reduziu em três dias, em média, o tempo de recuperação de covid-19 em pessoas com risco de resultados adversos. Dois novos estudos publicados em periódicos do Lancet sugeriram que a variante B.1.1.7 (Reino Unido) do SARS-CoV-2 é mais transmissível do que outras cepas, mas não encontraram evidências sugerindo que pode causar doença mais graves ou sintomas piores.

Na França, a campanha de vacinação está se acelerando. O Ministério da Saúde anunciou várias medidas para combater a pandemia, como o início da vacinação para maiores de 55 anos, mesmo sem comorbidades. Apesar dos preparativos para uso do imunizante de Janssen/Johnson&Johnson, a implantação dessa vacina foi adiada no país e em toda a Europa. A European Medicines Agency (EMA) investiga relatos de casos de eventos tromboembólicos. Diante do crescente temor ligado à variante brasileira, o primeiro-ministro Jean Castex anunciou na terça-feira (13) a suspensão de todos os voos entre a França e o Brasil.

Na Alemanha, o Gabinete Federal aprovou emendas à sua lei de proteção contra infecções (Bundesnotbremse) que temporariamente dão ao governo mais poder de intervenção federal. Nesta sexta (16), a chanceler Angela Merkel pediu ao parlamento que aprove a proposta. Segundo Merkel, a medida visa unificar as ações de combate à pandemia para conter o avanço de uma terceira onda e evitar que o sistema de saúde do país fique sobrecarregado. Se for aprovado, o lockdown de emergência será aplicado em regiões com mais de 100 casos novos semanais por 100.000 habitantes. A emenda prevê um conjunto uniforme de regras como fechamento do comércio, instalações culturais e esportivas e recolhimento noturno.

Na Espanha, a campanha de vacinação também ganha velocidade. Mesmo que o número de casos pareça estar diminuindo, algumas regiões ainda apresentam alta incidência. Em 9 de maio o “estado de alarme” irá expirar na Espanha e, de acordo com o governo central, as regiões precisarão de respaldo legal para introduzir novas restrições, como toque de recolher ou restrições de mobilidade.

Na segunda-feira (12), o Ministro da Saúde anunciou a apresentação de um conjunto de reformas e investimentos para expandir e melhorar o sistema nacional de saúde e, especialmente, a atenção primária e programas de saúde coletiva. O país esperava a chegada de cerca de 300 mil doses da vacina de Janssen/Johnson&Johnson, agora adiada.  

Na Itália, dados oficiais indicam queda na incidência média pela terceira semana consecutiva. A taxa de transmissão (Rt) caiu, em média, para 0,92 (intervalo 0,82 - 1,01). Oito regiões ainda têm Rt maior do que 1. Ainda assim, a carga sobre os serviços de saúde continua preocupante, mesmo que os números de pacientes hospitalizados com sintomas e de pessoas em quarentena em casa estejam diminuindo (27.251 e 502.169, respectivamente). Quase 13 milhões de doses da vacina já foram administradas, com pouco mais de 3,9 milhões de pessoas totalmente vacinadas com duas doses. A suspensão da vacina de Janssen/Johnson&Johnson preocupa o ministro da Saúde, Roberto Speranza. Na terça-feira, quando o FDA pediu a pausa no uso do produto, ele declarou que a Itália “investigará os efeitos colaterais, mas usará esta vacina” para completar seu plano de vacinação.

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