Situação caótica em relação à covid-19 no Brasil provoca reação dos países vizinhos

Fabian Werner, Agustin Geist e Daniela Desantis

Notificação

8 de abril de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Uruguai/Argentina/Paraguai (Reuters) — Quando a Copa América de 2021 (basquete masculino), que agora se chama AmeriCup, começou no mês passado – em meio à pandemia de covid-19 –, a Colômbia, anfitriã da rodada final das eliminatórias, não se arriscou.

Os jogadores e as equipes de apoio dos times participantes ficaram em uma "bolha" no local, sem contato com pessoas de fora, e todos foram regularmente testados para infecção por SARS-CoV-2.

O Brasil ficou de fora dessa fase do torneio. O país está sendo tão devastado pelo coronavírus, inclusive por uma nova variante local altamente contagiosa, denominada de P.1, que a Colômbia não permitiu que os brasileiros entrassem em solo colombiano.

Um jogo das eliminatórias da Copa do Mundo de 2022 de futebol masculino também foi cancelado depois de o ministro da Saúde da Colômbia, Fernando Ruiz, afirmar que não permitiria que um voo fretado com a seleção brasileira de futebol entrasse na Colômbia para o jogo.

Os esportes são apenas o começo. Os vizinhos e parceiros comerciais do Brasil também estão tomando medidas para restringir contato com o maior país da América do Sul – e cogitando outras, mais draconianas. O temor é que o progresso contra a covid-19, alcançado por muitas nações da região, seja revertido por novas ondas de infecção do Brasil, cujo descontrole da pandemia está servindo para incubar novas cepas virulentas, que preocupam especialistas em todo o mundo.

"É uma situação muito alarmante e uma ameaça regional", disse a Dra. Leda Guzzi, especialista em doenças infecciosas e membro da Sociedad Argentina de Infectología (SADI).

Mesmo a Venezuela, devastada pela crise, tem muito a dizer. No domingo, o presidente do país, Nicolás Maduro, disse que o Brasil é "a pior ameaça do mundo em no que tange o coronavírus" e repreendeu Jair Bolsonaro por sua "atitude irresponsável".

Bolsonaro, que contraiu covid-19 no ano passado e usa máscara apenas esporadicamente, minimizou a crise diversas vezes, mesmo com o Brasil tendo mais de 12 milhões de infecções confirmadas pelo coronavírus e quase 300 mil mortes, atrás apenas dos Estados Unidos. Ele se opõe aos bloqueios e, em várias ocasiões, exaltou medicamentos comprovadamente ineficazes contra a doença, como o antimalárico hidroxicloroquina.

O gabinete de Bolsonaro não respondeu à solicitação de comentário feita pela Reuters. O presidente da República já defendeu a condução da pandemia por parte do governo diversas vezes.

Em 16 de março, o governo do Paraguai, onde os casos de covid-19 estão atingindo recordes, citou o "alto número de infecções e mortes por covid-19" no Brasil para desencorajar seus cidadãos a fazerem viagens não essenciais para o país.

No início de março, o governo do Chile determinou que todos os visitantes do Brasil sejam encaminhados para hotéis públicos de quarentena para serem testados para infecção pelo SARS-CoV-2 por meio de exames por reação em cadeia da polimerase (PCR, sigla do inglês Polymerase Chain Reaction) e, caso o resultado seja positivo, as pessoas permaneçam neste hotel. Essas regras foram endurecidas em meados de março, determinando estadia obrigatória por 72 horas em um desses hotéis, mesmo que o teste dê negativo.

Em Beni, na Bolívia, que compartilha uma longa fronteira terrestre com o Brasil, os casos de covid-19 estão explodindo nas cidades de Riberalta e Guayaramerín, segundo Ernesto Moisés, secretário de Desenvolvimento Humano de Beni.

Muitos bolivianos dessa região vivem do comércio e da interação com o Brasil. Moisés vem solicitando o fechamento da fronteira com o país para ajudar a salvar vidas.

"Acho que agora é um momento no qual as autoridades devem esquecer as questões políticas e tudo mais, precisamos ser duros, porque não dá para fazer política se todos estiverem mortos", disse ele.

Restrições drásticas

Jogando gasolina no surto mortal que está ocorrendo no Brasil, há a variante mais contagiosa do novo coronavírus, conhecida como P.1, que surgiu na região norte da Amazônia, no final de 2020, e agora predomina em grande parte do país. Estudos preliminares sugerem que essa variante pode superar alguns anticorpos e aumentar as chances de reinfecção.

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), da Organização Mundial da Saúde (OMS), disse na terça-feira que a variante P.1 foi detectada em 15 países nas Américas e que este é um grande motivo de preocupação.

Na Argentina, que tem relutado em fechar as fronteiras com o Brasil, seu principal parceiro comercial, os apelos de cientistas e líderes regionais por regras mais rígidas estão ficando mais eloquentes.

Em uma videoconferência realizada no dia 22 de março, na qual estiveram presentes o ministro do Interior da Argentina, as autoridades de saúde e os governadores regionais, foram discutidas possíveis medidas, incluindo o fortalecimento das forças de segurança de fronteira, com foco nas divisas com o Brasil, o Paraguai e a Bolívia, disse uma fonte governamental familiarizada com o processo.

Também está sendo debatida a possibilidade de agilizar a vacinação das equipes que trabalham na fronteira, endurecer as regras para os caminhoneiros que cruzam as fronteiras transportando cargas e reprimir os viajantes, inclusive cidadãos argentinos, vindos do Brasil.

"Estão sendo feitos trabalhos para restringir fortemente a entrada do Brasil com restrições drásticas na frequência de voos do país vizinho", disse uma fonte do governo na terça-feira, que informou que as medidas restritivas serão definidas em breve.

A Dra. Leda, infectologista argentina, está entre os especialistas em saúde que pedem o fechamento das fronteiras, a restrição de pessoas vindas do Brasil ou períodos de confinamento obrigatório.

"O que acontece com o Brasil tem um impacto muito importante sobre o que acontece em nosso território nacional", disse ela à Reuters. "Se esta variante (P.1) se estabelecer na Argentina, pode ser muito perigoso."

No Uruguai, um recorrente destino turístico para os brasileiros, hospitais em vilas e cidades próximas à fronteira com o Brasil estão atingindo o nível de saturação e ficando sem leitos.

O Uruguai, que chegou a ter o melhor desempenho da América Latina na contenção do vírus, agora está vendo os casos dispararem. A média diária de infecção per capita no país, de aproximadamente 50 casos por 100 mil habitantes, agora supera a brasileira, de 35 casos por 100 mil habitantes, segundo dados de casos confirmados.

Na capital do país, Montevidéu, as autoridades de saúde lançaram na semana passada um grupo de trabalho de especialistas para analisar amostras de teste para ajudar a rastrear a entrada de novas variantes, incluindo a P.1. As autoridades uruguaias confirmaram que detectaram as variantes brasileiras P.1 e P.2 pela primeira vez no dia 22 de março.

"As luzes de alerta estão acesas", disse Julio Pontet, presidente da Sociedad Uruguaya de Medicina Intensiva (SUMI). Ele disse que o aumento de casos de covid-19 na região nordeste do Uruguai, onde fica a fronteira com o Brasil, foi muito pior do que em outros lugares.

Março vermelho

O Brasil, por sua vez, está no caminho de seu pior mês na pandemia, com mais de 40.000 mortes no que alguns jornais locais chamaram de "março vermelho". As unidades de terapia intensiva em algumas cidades estão sobrecarregadas e com escassez de medicamentos.

Bolsonaro, que recusou a vacina contra o coronavírus, se opõe ao fechamento do comércio e às medidas de distanciamento físico. Vários governadores de estado, que aumentaram as restrições no ano passado, o fizeram novamente nas últimas semanas, apesar dos protestos do presidente. As empresas brasileiras também começaram a exigir ações mais firmes, e algumas, como a montadora Volkswagen, interromperam as operações no país.

Muitos países, no entanto, permanecem relutantes em se isolar completamente do Brasil, a principal economia da América Latina. E a OPAS, embora preocupada com o impacto do Brasil na região, sugeriu que o fechamento total das fronteiras não era a resposta.

Jarbas Barbosa, subdiretor da OPAS, disse à Reuters que medidas de saúde pública, como o uso de máscara, distanciamento físico, melhor vigilância e lockdown quando necessário, continuam sendo a melhor esperança frear a disseminação do vírus.

No Paraguai, porém, as autoridades locais dizem que o país está em risco enquanto o vizinho Brasil continuar sendo um vetor do coronavírus.

"Sempre dizemos que quando o Brasil espirra, o Paraguai desenvolve uma pneumonia", disse Guillermo Sequera, diretor de vigilância sanitária do Ministério da Saúde do Paraguai.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....