Especialistas publicam recomendações para uso de cetamina e escetamina na depressão refratária

Megan Brooks

Notificação

8 de abril de 2021

Um grupo internacional de especialistas em transtornos do humor publicou orientações sobre como usar cetamina e escetamina com segurança e eficácia para tratar adultos com depressão refratária.

"Cetamina e escetamina são os primeiros tratamentos de efeito rápido para adultos com depressão refratária, e existia uma necessidade internacional de orientação em relação às melhores práticas para a implementação segura e hábil destes medicamentos no local de atendimento, visto que antes não havia nenhuma", disse ao Medscape o primeiro autor do estudo, Dr. Roger McIntyre, professor de psiquiatria e farmacologia da University of Toronto, no Canadá.

"Essa necessidade só cresceu por conta do aumento significativo no número de clínicas e centros oferecendo esse tratamento", acrescentou o Dr. Roger, chefe da Unidade de Psicofarmacologia de Transtornos do Humor.

O artigo foi publicado on-line em 17 de março no periódico American Journal of Psychiatry.

Evidências insuficientes de eficácia prolongada

Conforme noticiado pelo Medscape, a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos aprovou o uso do spray nasal de escetamina em pacientes com depressão refratária em março de 2019.

Em agosto de 2020, a FDA publicou uma atualização, na qual a indicação de uso deste medicamento foi estendida para adultos com depressão grave e ideação ou comportamento suicidas.

Para fornecer orientação clínica, Dr. Roger e colaboradores fizeram um resumo da literatura disponível sobre eficácia, segurança e tolerabilidade da cetamina e escetamina para depressão refratária.

As evidências, eles observaram, apoia a eficácia de efeito rápido (em até dois dias) da escetamina e cetamina na depressão refratária.

As evidências de eficácia mais fortes são da escetamina intranasal e da cetamina intravenosa. Não há evidências suficientes apoiando o uso de cetamina oral, subcutânea ou intramuscular para depressão refratária, relataram.

A escetamina intranasal demonstra eficácia, segurança e tolerabilidade por até um ano em adultos com depressão refratária. As evidências de eficácia, segurança e tolerância prolongadas da cetamina intravenosa para pacientes com depressão refratária são insuficientes, observou o grupo.

Eles também pontuaram que a escetamina é aprovada nos Estados Unidos para pacientes que apresentam depressão maior e ideação ou comportamento suicida, e que está comprovado que o medicamento reduz a conclusão do suicídio.

As preocupações com a segurança da cetamina e da escetamina identificadas na literatura incluem, mas não se restringem a: efeitos psiquiátricos, neurológicos, cognitivos, geniturinários e hemodinâmicos.

Checklist de implementação

O grupo criou um "checklist de implementação" para o uso de cetamina/escetamina na prática clínica.

Começando com a escolha do paciente, os autores observaram que os pacientes elegíveis são aqueles com diagnóstico confirmado de depressão refratária e que psicose e outras doenças que afetariam significativamente a relação risco-benefício foram descartadas.

Eles sugerem que exame físico e monitoramento dos sinais vitais sejam realizados durante o tratamento e no acompanhamento após o tratamento. Caso se aplique, deve-se considerar rastreamento para uso de drogas por meio de exame de urina.

O grupo recomenda que a escetamina e a cetamina sejam administradas apenas em ambientes com equipe multidisciplinar, incluindo (mas não se limitando a) aqueles com experiência na avaliação de transtornos do humor.

As clínicas devem ser equipadas com monitoramento cardiorrespiratório apropriado e devem ser capazes de realizar a avaliação psiquiátrica de dissociação e efeitos psicotomiméticos.

Os sintomas depressivos devem ser aferidos e os autores sugerem uma avaliação da ansiedade, função cognitiva, bem-estar e função psicossocial.

Os pacientes devem ser monitorados imediatamente após o tratamento para garantir a estabilidade cardiorrespiratória, desobstrução do sensório e atenuação dos efeitos dissociativos e psicotomiméticos.

Os Estados Unidos e alguns outros países exigem uma avaliação de risco e estratégia de mitigação ao administrar a escetamina. Nesse aspecto, é aconselhável que todos os pacientes sejam monitorados por, no mínimo, duas horas antes da alta.

Os pacientes devem providenciar um meio de transporte seguro para voltar de cada consulta, devendo ser orientados a não operar veículos motorizados ou máquinas perigosas antes de pelo menos uma noite de sono.

"A taxa de depressão refratária, bem como de suicídio, é extraordinariamente alta e está aumentando em muitas partes do mundo, sendo agravada pela covid-19", disse o Dr. Roger.

"Médicos de diferentes vertentes profissionais têm se interessado pela cetamina/escetamina e estamos extremamente satisfeitos em ver nossas diretrizes internacionais sendo publicadas", acrescentou.

"Extremamente útil"

Procurado para comentar, o Dr. Alan Schatzberg, médico e professor de psiquiatria e ciências comportamentais da Stanford Medicine, nos EUA, disse que este documento "coloca muitas informações em um só lugar, tanto quanto sabemos e o que não sabemos atualmente, e isso é útil. Acho que é uma tentativa de fazer uma espécie de revisão um tanto objetiva da literatura, e foi publicada em um bom periódico".

O artigo, acrescentou o Dr. Alan, "pode ser extremamente útil para quem estiver avaliando se a cetamina serve para um paciente ou o que dizer a um paciente sobre a cetamina, ou seja, quanto tempo ele pode usar, se vai funcionar, se continua a funcionar e o nível de dados que temos sobre os benefícios ou os efeitos colaterais".

A pesquisa não teve financiamento específico. O artigo original contém a lista completa das declarações de conflitos de interesses dos autores. O Dr. Alan recebeu fundos de pesquisa da Janssen; prestou consultoria para Alkermes, Avanir, Brain Resource, Bracket, Compass, Delpor, Epiodyne, GLG, Jazz, Janssen Pharmaceuticals, Lundbeck/Takeda, McKinsey and Company, Merck, Myriad Genetics, Neuronetics, Owl Analytics, Pfizer, Sage, Sunovion, e Xhale; possui ações na Corcept (co-fundador), Delpor, Dermira, Epiodyne, Gilead, Incyte Genetics, Intersect ENT, Madrigal, Merck, Owl Analytics, Seattle Genetics, Titan e Xhale; e está consta como inventor em patentes para uso farmacogenético e de antiglicorticoides na previsão da resposta antidepressiva.

Am J Psychiatry. Publicado on-line em 17 de março de 2021. Abstract

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....