Miriam E. Tucker

Notificação

7 de abril de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Pacientes que apresentam inflamação da glândula tireoide durante a fase aguda da covid-19 podem continuar a ter tireoidite subaguda meses depois, mesmo que a função tireoidiana tenha normalizado, sugere uma nova pesquisa.

Além disso, a tireoidite parece ser diferente da inflamação da tireoide causada por outros vírus, disse a médica Dra. Ilaria Muller, Ph.D., durante a apresentação de seus achados em 21 de março no encontro virtual da Endocrine Society, ENDO 2021.

"O SARS-CoV-2 parece ter ação multifatorial na função da tireoide", disse a Dra. Ilaria, da Università degli Studi di Milano Statale, Fondazione IRCCS Ca 'Granda Ospedale Maggiore Policlinico, na Itália.

Em julho de 2020, Dra. Ilaria e colaboradores descreveram pacientes hospitalizados por covid-19 grave em sua instituição; 15% tinham tireotoxicose devido a tireoidite subaguda atípica, em comparação com apenas 1% de um grupo de comparação hospitalizado nas mesmas unidades de terapia semi-intensiva durante a primavera de 2019, conforme noticiado pelo Medscape.

A tireoidite "atípica" que ocorreu nos pacientes com covid-19 não foi associada a dor cervical e acometeu mais homens do que mulheres. Além disso, foi relacionada com níveis baixos de TSH, triiodotironina livre (T3) e níveis normais ou elevados de tiroxina livre (T4), que é uma apresentação muito diferente da síndrome da doença não tireoidiana clássica (NTIS, acrônimo do inglês Nonthyroidal Illness Syndrome) geralmente observada em pacientes com doença grave, explicou ela.

Embora elevações transitórias da T4 possam ocorrer na doença aguda, esse fenômeno não está associado a TSH baixo. No ano passado, Dra. Ilaria e colaboradores especularam que este cenário recém-descrito parece ser uma combinação de tireotoxicose e NTIS.

Acompanhe pacientes com covid-19 e disfunção tireoidiana por um ano

Agora, em uma avaliação de 51 pacientes, três meses após a hospitalização por covid-19 moderada a grave, relatada pela Dra. Ilaria no ENDO 2021, os marcadores inflamatórios e a função tireoidiana tinham normalizado, mas, nos exames de imagem, um terço dos pacientes ainda apresentava áreas hipoecoicas focais, sugestivas de tireoidite.

Destes, dois terços tiveram captação reduzida na cintilografia da tireoide, mas poucos tinham autoanticorpos antitireoidianos.

"A disfunção tireoidiana induzida pela covid-19 parece não ser mediada por autoimunidade. É importante continuar a acompanhar esses pacientes, pois eles podem desenvolver disfunção tireoidiana durante os meses seguintes", enfatizou a Dra. Ilaria.

Convidado a comentar, o moderador da sessão Dr. Robert W. Lash, médico e diretor de assuntos clínicos e profissionais da Endocrine Society, disse ao Medscape: "Quando você está doente na unidade de terapia intensiva (UTI), não é incomum ter exames de tireoide estranhos. Alguns vírus causam problemas de tireoide também. O que torna esse caso diferente é que, embora uma grande parte das inflamações da tireoide seja causada por anticorpos, essa não era."

"Parece que o SARS-CoV-2 causou danos à glândula tireoide, o que é interessante", observou, acrescentando que a tireoide expressa altos níveis de enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2) e protease transmembrana serina 2 (TMPRSS2), que permitem que o SARS-CoV-2 infecte células humanas.

"Provavelmente faz parte da mesma história", disse o Dr. Robert.

Para pacientes que tiveram alterações na tireoide durante a covid-19 aguda ou mais tarde evoluíram com sintomas que podem estar relacionados com a tireoide, ele aconselha: "Você deve ficar de olho nos exames da tireoide. Isso só aumenta sua atenção... Você pode avaliar os exames de tireoide a cada seis meses durante um ano".

Sinais de tireoidite focal apesar da função tireoidiana normalizada

Os 51 pacientes (33 homens e 18 mulheres) hospitalizados com covid-19 moderada a grave não tinham história de doença da tireoide e não estavam tomando medicamentos para a tireoide, amiodarona ou corticoides antes de o TSH basal ser medido.

Desde o basal até três meses, o TSH aumentou de 1,2 mIU/L para 1,6 mIU/L, enquanto as concentrações séricas de T4, T3, proteína C reativa e contagens de sangue completas normalizaram (todos P < 0,01 versus o basal).

A ultrassonografia da tireoide no terceiro mês, realizada em 49 participantes, mostrou sinais de tireoidite focal em 16 pacientes (33%).

Entre os 14 pacientes que foram submetidos a exames de captação com 99mTc ou I123, quatro (29%) eram normais, oito (57%) tiveram captação focalmente reduzida e dois (14%) tiveram captação difusamente reduzida.

Dos 16 pacientes com tireoidite focal, apenas três foram positivos para autoanticorpos para tiroglobulina (TgAb) ou peroxidase tireoidiana (TPOAb). Todos foram negativos para autoanticorpos contra o receptor de TSH.

"É importante ressaltar que dos dois pacientes com captação difusamente reduzida, apenas um foi positivo para TPOAb ou TgAb", observou a Dra. Ilaria, acrescentando: "A doença causada pelo SARS-CoV-2 parece desencadear alguma disfunção que muito provavelmente tem mecanismos complexos e multifatoriais."

Em resposta a uma pergunta sobre um possível papel das biópsias e da citologia da tireoide, a Dra. Ilaria explicou: "Essa é definitivamente a chave. Até agora, estamos apenas fazendo suposições, então a chave será estudos citológicos ou histológicos para ver o que realmente está acontecendo na tireoide."

"O que sabemos é que, ao contrário da tireoidite clássica que foi descrita após doenças virais, incluindo SARS-CoV-2, esses pacientes têm um cenário diferente. Provavelmente algo está acontecendo na tireoide com um mecanismo diferente, então certamente citologia e estudos histológicos é o que precisamos", concluiu.

O estudo foi financiado pela Fondazione IRCCS Ca' Granda Ospedale Maggiore Policlinico, na Itália, e por um fundo de pesquisa sobre covid-19 da European Society of Endocrinology. A Dra. Ilaria Muller e o Dr. Robert W. Lash informaram não ter conflitos de interesses.

ENDO 2021. Abstract OR23-2. Apresentado em 21 de março de 2021.

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