Sinais e sintomas neurológicos são frequentes nos pacientes com covid-19 prolongada sem história de hospitalização

Kathleen Doheny

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5 de abril de 2021

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A disfunção cognitiva encabeça a lista de queixas neurológicas dos pacientes com covid-19 prolongada cuja doença não foi grave o suficiente para serem hospitalizados, mas este não é o único problema, revelam novas pesquisas.

Pesquisadores que acompanharam 100 pacientes com covid-19 prolongada, sem história de hospitalização, de maio a novembro de 2020, descobriram que 85% tinham queixa de quatro ou mais sinais e sintomas neurológicos.

"Este é o primeiro estudo sobre sinais e sintomas neurológicos em pacientes não hospitalizados", disse ao Medscape o médico e autor sênior do estudo, Dr. Igor Koralnik, professor de neurologia da Northwestern University, nos Estados Unidos.

"A maior parte do que sabemos hoje sobre os pacientes com covid-19 persistente é o que está acontecendo com os pacientes graves internados", acrescentou Dr. Igor, que também é chefe dos Setores de Doenças Neuroinfecciosas e Neurologia Geral.

O estudo foi publicado on-line em 23 de março no periódico Annals of Clinical and Translational Neurology.

Sintomas persistentes e debilitantes

Os pacientes acompanhados apresentaram sinais e sintomas clínicos compatíveis com a covid-19, disse Dr. Igor, mas foram apenas sintomas respiratórios leves e fugazes. Nenhum evoluiu com a pneumonia ou hipóxia que teriam indicado hospitalização.

Covid-19 prolongada foi definida como sinais e sintomas persistentes por mais de seis semanas, de acordo com o consenso de que a maioria dos pacientes se recupera inteiramente da covid-19 em quatro a seis semanas.

O que foi surpreendente, disse Dr. Igor, foi que os pacientes, apesar de não terem indicação de hospitalização, apresentaram sinais e sintomas debilitantes e persistentes durante meses após o início do quadro.

Os pesquisadores também identificaram que a recuperação dos sinais e sintomas parecia variar bastante entre cada paciente, por isso foi difícil prever se um determinado sinal ou sintoma teria probabilidade de resolução em dado período.

No intuito de acompanhar a evolução dos pacientes, os pesquisadores utilizaram as avaliações cognitivas do Patient-Reported Outcomes Measurement Information System (PROMIS) e dos National Institutes of Health (NIH), sobre qualidade de vida, entre outros parâmetros.

As 10 queixas mais comuns entre os participantes do estudo (70% mulheres, média de idade de 43 anos) foram:

  • Disfunção cognitiva: referida por 81%

  • Cefaleia: 68%

  • Parestesia: 60%

  • Ageusia: 59%

  • Anosmia: 55%

  • Mialgia: 55%

  • Tontura: 47%

  • Dor: 43%

  • Turvação visual: 30%

  • Zumbido: 29%

Além disso, muitos dos sinais sintomas não neurológicos descritos foram:

  • Fadiga: 85%

  • Depressão ou ansiedade: 47%

  • Dispneia: 47%

  • Precordialgia ou dor torácica: 35%

  • Insônia: 33%

  • Oscilação da frequência cardíaca e da pressão arterial: 30%

  • Queixas gastrointestinais: 29%

Os pesquisadores acompanharam 50 pacientes com covid-19 persistente com resultados positivos aos exames laboratoriais e 50 com resultados negativos aos exames laboratoriais, embora todos atendessem à definição de covid-19 pelos critérios da Infectious Diseases Society of America, segundo Dr. Igor.

Isso reflete as limitações da realização precoce dos exames, acrescentou. No início da pandemia, as pessoas muitas vezes não conseguiam fazer o teste, não conseguiam o teste no lapso de tempo que detectasse a infecção com precisão, ou faziam um teste que não tinha sensibilidade suficiente para detectar a infecção com precisão, observou o pesquisador.

Os pacientes residiam em 21 estados norte-americanos; 52 foram atendidos presencialmente e 48 por teleatendimento no ambulatório de neurocovid-19. Os participantes tinham exames cognitivos limitados ou abrangentes; os problemas de memória e o déficit de atenção eram comuns.

Muitos pacientes (42%) se queixaram de depressão ou ansiedade antes do diagnóstico da covid-19, disse Dr. Igor, sugerindo uma "vulnerabilidade neuropsiquiátrica" à apresentação de covid-19 prolongada.

Cerca de 70% dos pacientes com covid-19 persistente eram mulheres e 16% tinham história de doença autoimune. Este perfil, disse Dr. Igor, assemelha-se à proporção entre o sexo feminino e masculino nas doenças autoimunes, como esclerose múltipla ou artrite reumatoide.

Embora o estudo não tenha como objetivo explicar por que alguns pacientes evoluem com covid-19 persistente, mecanismos autoimunes pós-infecciosos podem desempenhar algum papel, observaram os autores.

A diversidade dos sintomas variou amplamente, com alguns pacientes tendo comprometimento cognitivo e tontura, sem problemas de olfato ou paladar, ou vice-versa, disse Dr. Igor.

Ainda não é possível prever a recuperação de sinais e sintomas específicos disse o pesquisador. "As pessoas tendem a melhorar com o passar do tempo, mas isso ocorre no seu próprio ritmo".

"Nós estávamos esperando que, quanto mais distante do início da doença, mais o paciente estaria recuperado. Mas na verdade, não foi assim", ponderou.

Alguns referiram uma recuperação de 95% após dois meses, enquanto para 10% levou nove meses. O que significa que é impossível dizer para um paciente com sinais e sintomas específicos qual é a expectativa de tempo de recuperação, observou.

Reflexão precisa da prática clínica

Convidada pelo Medscape para comentar os resultados, a médica Dra. Allison Navis, professora assistente de doenças neuroinfecciosas na Icahn School of Medicine at Mount Sinai, nos EUA, e chefe da neurologia clínica no Post-COVID Center no Mount Sinai, disse que os dados refletem a prática clínica e registraram algo que ela constatou em pelo menos 200 pacientes com covid-19 persistente.

A comentarista recebeu bem o fato de o estudo ter se concentrado nos sinais e sintomas neurológicos, e observou que ''não compreendemos inteiramente o que está acontecendo" com os pacientes com covid-19 persistente.

"Estamos vendo muita gente melhorar, mas está levando algum tempo. Para alguns dos sintomas mais debilitantes nós temos tratamentos "como medicamentos eficazes para cefaleia".

Uma pista promissora do estudo, disse Dra. Allison, que não participou da pesquisa, é a ideia de que os sinais e sintomas da covid-19 prolongada possam ser uma resposta autoimune, talvez semelhante a algumas outras síndromes pós-infecciosas.

O estudo mostra que é importante não ser condescendente com os pacientes que apresentam sinais e sintomas persistentes. "Supere" não é a abordagem correta, disse a especialista.

Não foi informada nenhuma fonte de financiamento. Os autores do estudo informaram não ter conflitos de interesses financeiros relevantes.

Ann Clin Transl Neurol. Publicado on-line em 23 de março de 2021. Texto completo

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