Brasil: vacinas protegem de variantes, mas cenário pode mudar rapidamente

Roxana Tabakman

Notificação

2 de abril de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Autoridades do estado de São Paulo alertaram esta semana da presença de uma variante com alterações semelhantes às da variante B.1.351 (identificada inicialmente na África do Sul) detectada em uma pessoa de Sorocaba, no interior do estado.

"É mais um exemplo de evolução convergente que está aparecendo em diferentes linhagens em circulação no mundo", explica a Dra. Paola Cristina Resende Ph.D., bióloga e pesquisadora do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (FIOCRUZ-RJ) – ela é a primeira autora do trabalho que alertou sobre a presença de novas variantes semelhantes, já em circulação no Brasil entre novembro de 2020 e fevereiro de 2021.

As grandes perguntas que seguem o surgimento de cada variante são como ela afeta a transmissão, a possibilidade de reinfecção e principalmente, se as vacinas criadas a partir do vírus original de Wuhan (China) ainda vão servir para proteger a população da covid-19. A preocupação no país ganhou impulso com o surgimento da variante de atenção (VOC, do inglês variant of concern) P.1, identificada inicialmente no Japão, em turistas vindos de Manaus e hoje predominante no estado do Amazonas e em diversas partes do Brasil.

Esta semana, a Dra. Paola assina no periódico científico Cell[1] um trabalho colaborativo com evidências um pouco mais tranquilizadoras: as vacinas ainda podem proteger em caso de infecção pela variante P.1 do SARS-CoV-2 que está em circulação. O estudo é resultado de uma parceria com pesquisadores da Fiocruz Amazônia, da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas e da University of Oxford (Reino Unido).

"Mostramos a importância do monitoramento constante e do compartilhamento das cepas para esse tipo de verificação, e para termos uma resposta mais rápida do que a que temos hoje", ressalta a Dra. Paola.

Vacinas atuais ainda protegem

O artigo descreve os resultados obtidos em um isolado de P.1 cultivado a partir de um swab da garganta de um paciente infectado em Manaus em dezembro de 2020, e compara esta amostra com um isolado do início da pandemia e com as outras duas variantes de atenção, como a B.1.1.7 (Reino Unido) e a B.1.351 (África do Sul). Os pesquisadores testaram a capacidade do soro induzido por infecção com cepas precoces de SARS-CoV-2, ou por vacinação (vacinas de Oxford/AstraZeneca, Janssen, Pfizer/BioNTech; Moderna e Novavax). A CoronaVac não foi testada.

"A boa notícia é que, em comparação com a B.1.351 (África do Sul), a P.1 se mostrou menos resistente tanto aos anticorpos gerados a partir de infecção natural prévia, quanto aos induzidos a partir de resposta vacinal", diz outro autor do estudo, o virologista e pesquisador em Saúde Pública Dr. Felipe Naveca, vice-diretor de Pesquisa e Inovação do Instituto Leônidas e Maria Deane, da Fiocruz Amazônia.

Com base nos resultados obtidos a partir dos testes de laboratório espera-se que a imunização com vacinas projetadas contra as cepas parentais do SARS-CoV-2 ainda forneça proteção de anticorpos contra a variante P.1. Isso porque, mesmo que a variante consiga escapar da neutralização por uma série de anticorpos monoclonais, outros anticorpos mantêm ampla neutralização. Um outro estudo dos National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos complementa esta mesa semana com outra notícia tranquilizadora. A resposta produzida pelas vacinas que geram resposta celular também não seria a afetada pelas mutações nas três variantes de atenção – B.1.1.7 (Reino Unido), B.1.351 (África do Sul), e P.1 (Brasil).

Outro achado relevante da pesquisa da University of Oxford com os cientistas brasileiros foi a demonstração de que a afinidade da P.1 pelo receptor ACE2 nas células foi equivalente à observada na B.1.351 e um pouco superior à vista na B.1.1.7.

"A ligação da P.1 é muito forte, até 19 vezes maior do que a da cepa original de Wuhan", explica o Dr. Felipe Naveca. Para os autores, esse aumento na afinidade com receptores poderia impulsionar a transmissibilidade do vírus, permitindo que as três variantes se tornem cepas dominantes nas regiões onde surgiram.

Por quanto tempo?

Se os dados publicados esta semana com base nos resultados das variantes de atenção (VOC) de um mês atrás reasseguram a capacidade das vacinas atuais contra as variantes em circulação majoritária no país, isso não significa que a preocupação com a utilidade delas no futuro tenha diminuído. No artigo da Cell, os autores concluem que a B.1.351 (África do Sul) é a VOC mais preocupante, e por isso deveria ser prioridade no desenvolvimento de novas vacinas. [1] É preciso lembrar também, que desde o final de 2020, o Brasil já detectou novas variantes.

"É tudo muito rápido. Submetemos o trabalho na Cell no início do mês e seguimos sequenciando. Então apareceram as deleções e inserções na P.1, e outras linhagens que divulgamos no pre-print", disse o Dr. Felipe, em referência ao trabalho noticiado pelo Medscape no final de março.

O próximo passo, segundo o pesquisador, será avaliar a P.1. e outras linhagens com inserções e deleções em um ensaio semelhante. O temor é que as novas variantes contêm mutações mais amplas. Conhecidas como indels (do inglês, in sertion or deletion), estas inserções ou deleções de bases no genoma do vírus podem tornar as variantes mais parecidas com a B.1.351 (sul-africana).

"Estamos pesquisando estas linhagens em soros-padrão e em soros de pacientes que já foram pesquisados. Também fizemos uma análise computacional e, em algumas linhagens, essas inserções e deleções podem fazer com que elas consigam escapar de anticorpos neutralizantes. Mas não podemos saber ao certo, pois cada linhagem tem seu conjunto de mutações, que podem alterar ou não essa conformação da proteína spike", afirma a Dra. Paola.

O Dr. Felipe complementa: "A P.1 com deleção ainda é algo raro, não é a variante predominante e as vacinas continuam protegendo da P.1. Quanto à P.1 com inserções e deleções, seria preciso testar. O trabalho não pode parar, vamos ter de seguir fazendo a vigilância porque o vírus continua evoluindo."

No Brasil, a entrega de vacinas está demorada e mesmo as provisões mais otimistas oferecem um cronograma ainda lento, conforme o noticiado recentemente pelo Medscape. Em uma pesquisa realizada com 77 epidemiologistas de 28 países, dois terços deles disseram acreditar que as mutações podem tornar as vacinas anticovídicas atuais ineficazes em um ano ou menos. [2]

"Eu não colocaria um prazo, vai depender muito da dinâmica viral", opina a Dra. Paola. A pesquisadora diz que não descarta a possibilidade de um cenário mais positivo, no qual novas variantes com possibilidade de escapar dos anticorpos não tenham uma capacidade de disseminação tão grande. Mas o contrário, infelizmente, também pode acontecer. Segundo ela, tendo em vista a velocidade com que o SARS-CoV-2 está se disseminando e evoluindo, até que a vacinação seja aplicada na maioria da população brasileira, a redução da circulação do vírus nas mãos de cada indivíduo, com as medidas não farmacológicas.

"Só assim vamos controlar a possível emergência de variantes."

Os Drs. Paola Resende e o Felipe Naveca declaram não ter conflitos de interesses relevantes ao tema.

Siga @roxanatabakman no Twitter

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....