Covid-19: Resumo da semana (27 de março a 1 de abril)

Equipe Medscape Professional Network

2 de abril de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

O Brasil é hoje o epicentro mundial da covid-19. Na noite da quinta-feira (1) o país registrou 12.842.717 diagnósticos de infecção por SARS-CoV-2 e 325.559 óbitos por covid-19, segundo consórcio de veículos de imprensa que monitora a pandemia a partir de levantamentos junto às secretarias de saúde. Nas últimas 24 horas, foram 3.673 mortes. Com isso, o país superou a média móvel de 3.000 mortos por dia. O consórcio é formado por G1, O Globo, Extra, Estadão, Folha e UOL. O mesmo levantamento informou ainda que até o primeiro dia de abril, 8,78% da população brasileira foram vacinados em primeira dose (18.584.301 pessoas) e 2,47% (5.223.544) receberam a segunda dose de uma vacina anticovídica. O ritmo de vacinação ainda está muito longe do necessário, mas a média subiu de cerca de 300.000 vacinados por dia na semana passada para 900.000, segundo o ministro da Saúde.  

Em 31 de março, 19 capitais tinham taxa de ocupação de leitos de terapia intensiva acima de 90%, de acordo com a Fiocruz. As cidades de Campo Grande, Curitiba, Porto Alegre, Rio Branco e Porto Velho não tinham mais vagas em UTI.

As perspectivas são sombrias. As reservas de oxigênio também estão em níveis críticos em todo o país e a falta de medicamentos do kit para entubação, como bloqueadores musculares e sedativos, está levando os médicos a recorrerem a drogas de terceira linha e ao aumento de sedativos, como mostrou reportagem do jornal Folha de S. Paulo.

Em nota técnica, as pesquisadoras Beatriz Rache, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e Márcia Castro, professora de demografia e coordenadora do Departamento de Saúde Global da Escola de Saúde Pública da Harvard University, nos Estados Unidos, analisaram a série de óbitos em capitais e estados brasileiros. O levantamento mostrou que em menos de três meses em 2021 houve uma aceleração importante.

"Manaus já supera em 46% o total de vidas perdidas, enquanto o estado do Amazonas supera em 23%, e Rondônia acaba de igualar seu total de óbitos de 2020. No ritmo atual, o Brasil caminha para ultrapassar em junho o total de vidas perdidas pela covid-19 em 2020, com uma aceleração de 84% na média diária de mortes no ano. A última semana epidemiológica analisada é a de maior aceleração frente à média de 2020, com 2.227 óbitos por dia, um avanço de 231% frente à média de 2020, de 673."

A nota alerta que se o Brasil mantiver a média diária de mortes das últimas semanas, chegará a 195 mil óbitos em 24 de maio.

"Se persistir a média de 1.240 óbitos por dia de 2021, 84% maior do que a de 673 do ano anterior, poderemos ver o número de vítimas fatais da covid-19 dobrar antes da metade do ano, em relação a 2020." Em conclusão, as pesquisadoras afirmam que "é mais do que nunca preciso coordenação para promover um lockdown imediato."

Os feriados da Semana Santa podem piorar bastante o contágio se medidas rígida de controle não forem adotadas. Em entrevista ao jornal Globonews em Pauta, da Globo, a pneumologista Dra. Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, fez um apelo em tom dramático na noite de quarta-feira (31): "Vacina sozinha não vai resolver. As pessoas têm de ficar em suas casas. Não pode ter Páscoa, não pode ter festas, não pode ter aglomerações, cerimônias de família, não pode ter festa de aniversário, não pode ter nada. Nós vamos ter outras Páscoas nas nossas vidas para celebrar."

O perfil da epidemia mudou e as novas variantes atingem fortemente os mais jovens. A médica alertou ainda que as novas cepas começarão a vitimar mais crianças: "Temos que vacinar mais, mas também manter um rígido distanciamento social".

O governo federal se mantém contrário ao lockdown e alguns governadores já declararam estar fazendo todo o possível para evitar a medida. No estado do Rio de Janeiro, os chefes de facções criminosas de várias cidades mandaram suspender bailes funk, aglomerações e a circulação sem máscara nas comunidades, como descreve a revista Fórum.

A disseminação das variantes

Na tarde de quarta-feira (31), o governo de São Paulo informou a identificação de um caso de covid-19 em Sorocaba, no interior do estado, causado por vírus com mutações semelhantes às da variante B.1.351 (inicialmente detectada na África do Sul).

Ainda sobre as variantes, uma reportagem do Medscape mostra achados recentes indicando que a transmissão descontrolada do SARS-CoV-2 está gerando novas linhagens virais potencialmente mais resistentes à neutralização por anticorpos.

A semana das vacinas

No dia 31, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso emergencial da vacina da Janssen (Johnson&Johnson), administrada em dose única. Apesar de ser uma boa notícia, essa é mais uma vacina que deve chegar ao Brasil apenas no segundo semestre deste ano. O Medscape fez um balanço das doses que temos, das remessas prometidas e do que precisamos efetivamente. Na mesma reportagem, especialistas entrevistados comentaram as mudanças nos critérios para grupos prioritários.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, declarou no dia 31 em audiência pública na Câmara dos Deputados que a previsão da pasta é distribuir em abril 25,5 milhões de vacinas, bem menos do que os 43,3 milhões previstos em cronograma divulgado em março. Atrasos na produção da vacina de Oxford/AstraZeneca e o veto da Anvisa à importação da Covaxin, fabricada pelo laboratório indiano Bharat Biotech, foram questões levantadas pelo ministro para justificar a nova redução da previsão de doses. A Anvisa informou que a companhia indiana não apresentou dados e documentos que comprovassem a eficácia e a segurança do fármaco. Testes com o produto estão em andamento no Brasil. 

Nesta semana a agência reguladora concedeu certificação de boas práticas às instalações para envase da vacina Sputnik V, em Guarulhos, que não obteve ainda registro ou liberação para uso emergencial no Brasil. Além disso, a agência analisa o pedido de autorização para testes clínicos da nova ButanVac e pediu mais informações sobre a Versamune, vacina desenvolvida pela USP Ribeirão Preto, que espera liberação para testes clínicos.

Jacaré a bordo? Em comemoração ao dia da mentira, 1 de abril, o jornal Folha de S. Paulo publicou uma compilação das peças de desinformação sobre a covid-19. Sempre bom refrescar a memória.

A boa notícia é que ensaios clínicos de fase 3 mostram que a vacina de Pfizer/BioNTech é 100% eficaz na proteção de adolescentes com idades entre 12 e 15 anos contra covid-19, informou a empresa em comunicado. O estudo envolveu 2.260 jovens. Não foram relatadas infecções no grupo da vacina em comparação com 18 casos no grupo do placebo. As crianças vacinadas mostraram uma forte resposta de anticorpos, sem efeitos secundários graves. A empresa disse esperar agora obter autorização de utilização emergencial das agências reguladoras FDA (EUA) e EMA (Europa).

No campo das perdas, cerca de 15 milhões de doses da vacina da Janssen foram arruinados, nos Estados Unidos, como resultado de um "erro humano" envolvendo a mistura de ingredientes de vacinas numa fábrica de Baltimore, da Emergent BioSolutions, parceira de fabricação da Johnson&Johnson. A FDA investiga o ocorrido.

E mais: o início da vacinação contra a gripe no Brasil está previsto para 12 de abril. A meta é imunizar 79,7 milhões, segundo o Ministério da Saúde. Na cidade de São Paulo, a prefeitura irá separar os locais de vacinação de gripe e covid-19 para evitar aglomerações. 

Mais sobre fatores de risco

Um estudo recente indicou baixa sobrevida em pacientes que têm covid-19 após o transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH). Aqueles que tiveram a infecção até um ano após o procedimento foram especialmente vulneráveis à doença.

Novos dados sobre os riscos da covid-19 em crianças com diabetes tipo 1 tranquilizam, mas também enfatizam a importância do controle eficaz da glicemia. Uma grande análise de banco de dados descobriu que crianças com diabetes tipo 1 têm maior chance de ficarem muito doentes e morrerem de covid-19, mas apenas se a HbA1c estiver acima de 7%.

E se o paciente exigir o "kit covid"?

A partir do caso de um médico que processou a paciente por danos morais, o advogado e procurador José Luiz Souza de Moraes orienta sobre como agir diante de situações semelhantes.

A covid-19 no mundo

Na manhã do dia 31, o mundo registrou 129.083.807 diagnósticos positivos para SARS-CoV-2 e 2.819.141 mortes por covid-19, de acordo com o monitor Coronavírus Resource Center , da Johns Hopkins University (EUA).

Na América do Sul, nações vizinhas temem as consequências do descontrole da pandemia no Brasil e adotam medidas de proteção contra a variante P.1, identificada em Manaus. Na Venezuela, assinala o jornal El País , os contágios diários duplicaram desde meados de março. No dia 18, com hospitais operando no limite, o governo venezuelano decretou o fechamento de alguns estados e começou a preparar novas estruturas para atender grande quantidade de pacientes. Colômbia e Peru suspenderam voos com o Brasil. O Peru confirmou a entrada da variante brasileira e só permite fretamento de voos humanitários para repatriar cidadãos. Também antecipou a vacinação em vários "departamentos" em área de floresta amazônica. O Chile mantém os voos com o Brasil, mas estabeleceu uma quarentena de 72 horas em hotel de trânsito, mesmo com PCR negativo. A Argentina limitou voos para o Exterior e começará a pedir PCR aos turistas. O Uruguai fechou serviços públicos e suspendeu aulas presenciais. O Paraguai estudava decretar quarentena por causa da Semana Santa.

O México comunicou uma discrepância de quase 60% nas mortes comunicadas no sábado (27) por covid-19 no país. Isto levaria o país ao segundo lugar no mundo no total de mortos, com mais de 320.000.

O Reino Unido iniciou na segunda-feira (29) a flexibilização do lockdown iniciado em janeiro. O confinamento em casa das pessoas de alto risco terminou nesta quinta-feira (1). Serão permitidas, em local aberto, reuniões de até seis pessoas que moram em duas residências diferentes. Esportes ao ar livre também estão autorizados. O comércio não essencial permanecerá fechado até 12 de abril e viagens de turismo continuam proibidas. Apesar dos problemas de fornecimento previstos para este mês, funcionários do Reino Unido disseram que o NHS está no bom caminho para cumprir o objetivo de vacinar até 15 de abril todas as pessoas com mais de 50 anos e grupos de alto risco. Até terça-feira (30), tinham sido administradas 30,9 milhões de primeiras doses, e 4,1 milhões em segunda dose. A taxa de mortalidade continua a diminuir, mas ainda há tantas pessoas no hospital agora como havia no início da segunda onda. A média de sete dias para novos casos permanece acima das 5000.

Em Portugal, o processo de desconfinamento seguirá o plano apresentado em 11 de março pelo governo para todas as regiões. Na próxima segunda-feira (5), serão reabertas as escolas do 2º e 3º ciclos. No entanto, o primeiro-ministro António Costa alertou que há 19 municípios onde é preciso ter mais atenção. Ele disse que se em duas avaliações sucessivas os mesmos locais estiverem no limiar de risco, "não devem avançar as medidas de desconfinamento". 

Apesar das medidas de relaxamento em alguns países, o crescente número de casos na Europa, o avanço da variante britânica e o aumento da mobilidade na Páscoa preocupam a Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com a agência, na semana passada o continente registrou 1,6 milhão de novos casos e quase 24 mil mortes.

A Espanha pode estar enfrentando o início da quarta onda, com aumento de casos registrado antes dos feriados de Páscoa. Nesta semana, a incidência em 14 dias ultrapassou os150 casos, entrando numa situação de "alto risco". O ministro da Saúde espanhol anunciou que irá rever a recomendação da vacina de Oxford/AstraZeneca para pessoas com 65 anos ou mais. A campanha de vacinação acelerou esta semana com a chegada de novas doses; 10% da população receberam pelo menos uma dose.

Os Estados Unidos caminham em direção à "desgraça iminente" à medida que os números da covid-19 continuam a aumentar e mais estados afrouxam as restrições, disse a diretora dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) Dra. Rochelle Walensky, durante uma conferência de imprensa esta semana. A médica, cuja voz vacilou com emoção ao colocar de lado a sua declaração preparada, apelou ao público para que continuasse a praticar medidas de segurança para evitar outro surto. O recente aumento de casos pode ser resultado, em parte, das variantes de atenção, mas é provável que o levantamento prematuro de restrições em múltiplos estados também contribua, disseram as autoridades de saúde pública.

Na França, foram comunicados 59.038 casos de covid-19 em 24 horas e mais de 5.000 pacientes estão em cuidados intensivos. Na quarta-feira (31) à noite, o presidente Emmanuel Macron anunciou um lockdown nacional que entra em vigor no sábado. Para além do fechamento de serviços não essenciais, restrições de viagem e o toque de recolher obrigatório às 19 horas, estudantes ficarão sem aulas por períodos entre três semanas e um mês. O ministro da Saúde, Olivier Véran, prevê um pico da epidemia em 7 a 10 dias, principalmente por causa da variante britânica. Numa nota mais positiva, Macron anunciou que todos aqueles com mais de 60 anos poderão ser vacinados a partir de 16 de abril, mais de 50 anos a partir de 16 de maio e toda a França com mais de 18 anos a partir de meados de junho.

Na Alemanha a autoridade para a avaliação médica das vacinas (STIKO) anunciou a alteração das recomendações para a vacina de Oxford/AstraZeneca após a reavaliação dos relatórios sobre os eventos tromboembólicos. Apenas as pessoas com mais de 60 anos devem agora receber este imunizante. Os mais jovens são aconselhados a avaliar o risco com o seu clínico geral antes da vacinação. Vários hospitais alemães e instalações regionais deixaram completamente de administrar a vacina. Numa nota positiva, a Johnson&Johnson começará a entregar a sua vacina de dose única na Alemanha dentro de duas semanas. O país espera cerca de 10 milhões de doses até o final de junho.

Bem distante do seu objetivo de vacinar 4 milhões de pessoas contra a covid-19 até o final de março, a Austrália conseguiu apenas imunizar 670.000. A falha está sendo atribuída a problemas de fornecimento de vacinas da Europa e às inundações recentes na costa oriental do país. A cidade de Brisbane deve terminar nesta quinta-feira (1) seu breve lockdown iniciado na terça-feira (30) após a identificação de dois novos focos infecções pela covid-19.

As Filipinas impuseram um lockdown rigoroso em Manila e arredores, enquanto os hospitais da capital lutam para combater o surto de infecções pelo SARS-CoV-2. O país testemunhou mais de 10.000 novos casos diários pela primeira vez na segunda-feira (29).

A Índia continua em meio a um surto de infecções por SARS-CoV-2, com 72.330 casos diários e 459 mortes por covid-19 registradas na quinta-feira (25), o número mais elevado desde 11 de outubro de 2020. O país também estenderá a vacinação a partir de 1 de abril para incluir os indivíduos com 45 anos de idade ou mais.

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