Prevenção do diabetes tipo 1: uma possibilidade cada vez mais real

Miriam E. Tucker

Notificação

29 de março de 2021

Dois estudos publicados recentemente destacaram o sucesso em protelar o início do quadro do diabetes tipo 1 em pessoas de alto risco e tornar mais lenta sua progressão entre pacientes com quadro de início recente.

Os dois estudos foram apresentados pela primeira vez em junho de 2020 em formato virtual na American Diabetes Association (ADA) 80th Scientific Sessions,  como noticiado pelo Medscape na ocasião.

Até o momento, nenhuma das duas estratégias – a preservação funcional da produção de insulina pelas células beta pancreáticas logo após o diagnóstico ou o adiamento da instalação do quadro de diabetes tipo 1 em pessoas de alto risco – representa cura ou prevenção da doença.

Entretanto, ambas têm o potencial de promover melhor controle glicêmico em longo prazo, com menos episódios de hipoglicemia e menor risco de complicações relacionadas com o diabetes.

O tratamento combinado prolonga a funcionalidade das células beta na doença de início recente

O primeiro estudo, intitulado "Anti-interleukin-21 antibody and liraglutide for the preservation of β-cell function in adults with recent-onset type 1 diabetes", foi publicado on-line em 1° de março no periódico Lancet Diabetes & Endocrinology pelo médico Dr. Matthias von Herrath da Novo Nordisk, na Dinamarca, e colaboradores.

O ensaio clínico randomizado de fase 2, duplo-cego e controlado com placebo sobre o tratamento combinado contou com 308 participantes entre 18 e 45 anos de idade que haviam sido diagnosticados com diabetes tipo 1 nas 20 semanas anteriores e que ainda apresentavam função residual das células beta.

Os pacientes foram randomizados em grupos de 77 participantes para receber anti-IL-21 monoclonal + liraglutida, anti-IL-21 em monoterapia, liraglutida em monoterapia ou placebo. O anticorpo foi administrado por via intravenosa a cada seis semanas e a liraglutida ou o placebo correspondente foram administrados em injeções diárias pelos próprios pacientes.

Em comparação com o placebo (coeficiente em relação ao início do estudo de 0,61, redução de 39%), a diminuição da avaliação da tolerância à refeição mista (MMTT, sigla do inglês Mixed Meal Tolerance Test) estimulou as concentrações do peptídeo C desde o início do estudo até a 54ª semana – desfecho primário – significativamente menos no tratamento combinado (0,90%, redução de 10%; razão de tratamento estimada de 1,48; P =0,0017), mas não na monoterapia com anti-IL-21 (1,23; P = 0,093) ou na monoterapia com a liraglutida (1,12; P = 0,38).

Apesar do maior uso de insulina no grupo do placebo, a redução dos níveis de hemoglobina glicada (HbA1c) (desfecho secundário essencial) na 54ª semana foi maior com todos os tratamentos ativos (- 0,50 pontos percentuais) do que com placebo (- 0,10 pontos percentuais), embora as diferenças em comparação com o placebo não tenham sido significativas.

"A combinação do anti-IL-21 com a liraglutida poderia promover a preservação funcional das células beta no diabetes tipo 1 recém-diagnosticado", disseram os pesquisadores.

"Esses resultados sugerem que essa combinação tem o potencial de oferecer um tratamento inovador e valioso, modificando a história natural da doença nos pacientes com diabetes tipo 1 recém-diagnosticado. No entanto, sua eficácia e sua segurança precisam ser mais pesquisadas em um ensaio clínico de fase 3", concluíram Dr. Matthias e colaboradores.

Teplizumabe: dados de três anos continuam mostrando benefícios

O outro estudo avaliou o adiamento do início do diabetes tipo 1. Intitulado "Teplizumab improves and stabilizes beta cell function in antibody- positive high-risk individuals", o artigo foi publicado on-line em 05 de março no periódico Science Translational Medicine pela médica Dra. Emily K. Sims do Departamento de Pediatria da Indiana University School of Medicine, nos Estados Unidos, e colaboradores.

Este ensaio clínico com o anticorpo monoclonal anti-CD3 agrega mais um ano de acompanhamento aos dados de dois anos que foram divulgados em 2019 e "viraram o jogo".

Dos 76 participantes entre 8 e 49 anos de idade com resultado positivo para dois ou mais autoanticorpos relacionados com o diabetes tipo 1, 50% dos que foram randomizados para uma série única de infusão do teplizumabe durante 14 dias permaneceram sem diabetes durante uma mediana de acompanhamento de 923 dias, em comparação com apenas 22% dos que receberam infusão de placebo (razão de risco ou hazard ratio, HR, de 0,457; P = 0,01).

O grupo do teplizumabe apresentou maior média de área sob a curva para o peptídeo C em comparação com o placebo, refletindo melhora da função das células beta (1,96 vs. 1,68 pmol/mL; P = 0,006).

Os níveis de peptídeo C diminuíram ao longo do tempo no grupo do placebo, contudo, estabilizaram entre os que receberam teplizumabe (P = 0,0015).

"É muito encorajador ver que uma única série de teplizumabe postergou a dependência de insulina nessa população de alto risco durante cerca de três anos em comparação com o placebo", disse o Dr.  Frank Martin, Ph.D., diretor de pesquisa da JDRF na Provention Bio, empresa que criou e estuda o teplizumabe.

"Estes resultados instigantes foram possibilitados pelos esforços incansáveis da TrialNet e da Provention Bio. Se o teplizumabe for aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, pode mudar para melhor a evolução e a história natural da doença para as pessoas em risco de ter diabetes tipo 1, bem como a conduta terapêutica, concluiu Dr. Frank.

O estudo do teplizumabe foi financiado pela empresa TrialNet. O Dr. Matthias von Herrath é funcionário da empresa Novo Nordisk, que financiou o estudo com seu medicamento liraglutida. A Dra.  Emily K. Sims informou não ter conflitos de interesse relevantes.

Sci Transl Med. 2021;13:eabc8980. Abstract

Lancet Diabetes Endocrinol. Publicado on-line em 1° de março de 2021. Abstract

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