CDC e OMS estabelecem novos níveis de ameaça para as variantes da covid-19

Brenda Goodman

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26 de março de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2. .

Os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiram novos critérios para classificar as variantes do SARS-CoV-2, vírus que causa a covid-19.

Variantes genéticas conhecidas do SARS-CoV-2

Variante Identificada inicialmente em Mais contagiosa Capacidade de escapar à proteção vacinal Classificação CDC/OMS
B.1.1.7 Reino Unido Sim Mínima De atenção
B.1.351 África do Sul Sim Moderada De atenção
P.1 Brasil Sim Moderada De atenção
B.1.526 Nova York Desconhecido Potencialmente De interesse
B.1.525 Nova York Desconhecido Potencialmente De interesse
P.2 Brasil Desconhecido Potencialmente De interesse
B.1.427 Califórnia Sim Moderada De atenção
B.1.429 Califórnia Sim Moderada De atenção
P.3 Filipinas Desconhecido Desconhecida Sob investigação
A. 23.1. com E484K Inglaterra Desconhecido Desconhecida Sob investigação
B. 1.1.7 com E484K Inglaterra Desconhecido Desconhecida Sob investigação
B.1.525 Inglaterra Desconhecido Desconhecida Sob investigação
B1.1.318 Desconhecido Desconhecido Desconhecida Sob investigação
B1.324.1 com E383K Desconhecido Desconhecido Desconhecida Sob investigação
B. 1.111 com E383K e 429S Colômbia Desconhecido Desconhecida Desconhecido

Fontes: Rappler.com, CDC.gov, Health.com, WHO Weekly Epidemiological Update, Public Health England

Os critérios destinam-se a esclarecer o quanto se sabe acerca das alterações recentes dos vírus circulantes. Os níveis também ajudam a expressar o risco.

As novas designações são "variante de interesse"; "variante de atenção"; e "variante com grandes consequências".

  • Uma variante de interesse causa surtos espalhados de infecção nos países, ou parece estar causando aumento do número de casos. Também porta alterações genéticas que sugerem que possa ser mais contagiosa ou que possam ajudá-la a escapar da imunidade conferida pela infecção natural ou pela imunização. O tratamento e os testes podem não ter bom desempenho contra este tipo de variante. Os CDC estão monitorando três variantes deste tipo.

  • Uma variante de atenção é comprovadamente (por meio de pesquisas científicas) mais contagiosa e causa doença mais grave. Também pode comprometer a eficácia da terapêutica e das vacinas. As pessoas que já tiveram covid-19 podem ser reinfectadas pela nova variante. Os CDC estão monitorando cinco variantes deste tipo.

  • Uma variante com grandes consequênciascausa doença mais grave e maior número de hospitalizações. Foi demonstrado que não responde às intervenções médicas, como vacinas, antivirais e anticorpos monoclonais. Até agora, nenhuma das variantes do novo coronavírus corresponde a esta definição.

Ao adotar os novos critérios, os CDC disseram que estavam lançando uma grande rede ao designar variantes de interesse, mas serão necessárias provas mais concretas antes de considerar uma variante como sendo "de atenção".

"Os CDC estão alinhados com a abordagem da OMS na concepção de que o limiar para designar uma variante de interesse deve ser relativamente baixo, a fim de monitorar variantes potencialmente importantes; no entanto, o limiar para designar uma variante como de atenção deve ser alto para poder concentrar os recursos nas variantes de maior relevância em termos de saúde pública", segundo um porta-voz dos CDC.

As variantes vinham sendo classificadas pelos CDC, mas isso está prestes a mudar um pouco. No futuro, as decisões finais sobre quais são as variantes importantes para prestar atenção serão tomadas pelos CDC junto com o novo SARS Interagency Group sobre variantes, formado por especialistas do National Institutes of Health (NIH), da Food and Drug Administration (FDA), do Department of Defense, da Biomedical Advanced Research and Development Authority e do Department of Agriculture.

Precisa-se dessa força-tarefa para ontem, disse o médico Dr. Michael Diamond, Ph.D., diretor associado do Center for Human Immunology and Immunotherapy Programs da Washington University School of Medicine, nos EUA.

OS CDC têm sofrido cortes orçamentais e interferência política nos últimos anos e atualmente não tem a estrutura necessária para responder da forma rápida ou robusta necessária, segundo os cientistas familiarizados com a iniciativa.

"É necessário uma superestrutura para lidar com isso", disse Dr. Michael, que participa da iniciativa por meio de um grupo de trabalho no NIH. O Dr. Michael disse que 50 a 100 cientistas participaram de algumas palestras nas quais ele esteve presente.

"Precisamos fazer isso porque precisamos conseguir coordenar a vigilância com a testagem in vitro, com testes em modelos animais na indústria, a fim de ter acesso aos seus medicamentos, suas vacinas e poder dar informações, comentar e fazer novos testes com o passar do tempo. Isso não pode ser feito apenas por colaboração acadêmica ad hoc, nem mesmo por um só órgão", disse o médico.

"Digamos que os CDC digam que identificaram uma nova variante em Iowa (EUA) com alta prevalência. Bem, os CDC não têm onde fazer os testes com rapidez e agilidade a fim de determinar se essa variante é ou não realmente significativa", disse o Dr. Michael.

"Por isso, tivemos de encontrar um jeito de resolver. Isso precisa então deflagar uma carteira de produtos experimentais, que seria formada por instituições acadêmicas, órgãos governamentais e organizações não governamentais, por meio das quais poderíamos testar essas variantes, gerar pseudovírus recombinantes, vírus recombinantes e proteínas recombinantes da espícula viral", disse Dr. Michael.

As experiências com modelos animais ajudariam a avaliar se as variantes aumentam o contágio ou comprometem o efeito das vacinas ou dos medicamentos. Caso isso ocorra, seriam tomadas decisões sobre "como vamos responder em termos da modificação dos medicamentos, tratamento ou vacinas existentes?", disse o especialista.

O governo faria então a interface com a indústria farmacêutica.

Rastreamento das novas variantes

Além das novas classificações do CDC e da OMS, a Public Health England, o equivalente dos CDC no Reino Unido, está usando outra classificação: "variantes sob investigação". As variantes sob investigação são as recém-identificadas e objeto de estudos em andamento, mas os cientistas ainda não sabem nada sobre o seu significado em termos de saúde pública.

No dia 16 de março a Public Health England anunciou que estava investigando a nova variante P.3, detectada pela primeira vez nas Filipinas.

Em 15 de março pesquisadores da Colômbia publicaram on-line um estudo em pre-print descrevendo uma nova variante da B.1.111 com mutações L249S e E484K na proteína da espícula viral. Essas duas mutações ajudaram outros vírus a escapar dos anticorpos produzidos pelo organismo em resposta tanto às vacinas quanto à infecção natural.

A Santé publique France anunciou também no dia 16 de março um novo conglomerado de casos ligados a um hospital na região da Bretanha, causados por uma nova variante do subtipo 20C. A variante francesa tem nove mutações na proteína da espícula e não foi detectada por reação em cadeia da polimerase (PCR, sigla do inglês, Polymerase Chain Reaction), sugerindo que essas alterações a mantêm ao abrigo da detecção por esses testes.

Mantendo as variantes em perspectiva

Quando um vírus sofre alguma mutação ou adquire alguma alteração no seu código genético, isto cria uma variante. Trata-se apenas uma versão do vírus que é diferente do vírus original. As variantes surgem frequentemente e não costumam ser nocivas para os humanos. Ocasionalmente, uma alteração ou um grupo de alterações ajuda uma versão do vírus a superar outras variantes. Pode se reproduzir mais rapidamente, por exemplo, ou criar um mecanismo diferente ou mais eficaz de infectar as células. Às vezes uma mudança gira sua estrutura apenas o suficiente para que os anticorpos do nosso sistema imunitário não possam se conectar com ela.

Quando isso acontece, a consequência pode ser a ocorrência de mais doença e de doença mais grave. Os medicamentos e as vacinas podem precisar ser modificados pela indústria farmacêutica para manterem sua eficácia.

Variantes de atenção

Até agora, os CDC estão rastreando cinco variantes de atenção: a variante B.1.1.7 identificada pela primeira vez no Reino Unido; a variante P.1 detectada pela primeira vez no Japão e no Brasil; a variante B.1.351 descrita pela primeira vez na África do Sul; e as variantes B.1.427 e B.1.429 que vêm se espalhando na Califórnia.

Atualmente, a vigilância destas variantes é limitada. Os Estados Unidos estão fazendo relativamente pouca vigilância genômica do vírus em comparação com outros países ou regiões, como o Reino Unido.

A variante B.1.1.7 é pelo menos 50% mais contagiosa do que as versões mais antigas do vírus. Causou grandes surtos de covid-19 no Reino Unido, em Israel e na Europa. Até 16 de março, os CDC dizem que foram detectados 4.686 casos nos Estados Unidos, nos 50 estados.

Os laboratórios detectaram 142 casos da variante B.1.351 nos EUA. Estes casos foram provenientes de 25 estados. Houve pelo menos 27 casos da variante P.1 em pelo menos 12 estados. Estudos demonstraram que as vacinas atuais são menos eficazes contra estas duas variantes. Essas variantes também não são tão sensíveis a alguns tratamentos com anticorpos monoclonais. Como a B.1.1.7, a B.1.351 parece ser cerca de 50% mais contagiosa.

As variantes B.1.427 e B.1.429 parecem ser cerca de 20% mais contagiosas do que as versões anteriores do vírus. Também podem diminuir ligeiramente a eficácia das vacinas e do tratamento. A resposta imunitária às vacinas é tão forte, entretanto, que não é previsto que essa redução impeça a eficácia das vacinas para a prevenção da infecção ou a diminuição da transmissão do vírus.

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Fontes:

  • Michael Diamond, MD, PhD, associate director, Center for Human Immunology and Immunotherapy Programs, Washington University School of Medicine, St. Louis, Missouri

  • CDC, SARS-CoV2 Variants, updated March 16, 2021 WHO

  • Weekly Epidemiological Report, February 25, 2021 WHO

  • Weekly Epidemiological Report, March 16, 2021

  • Public Health England, Variants of Concern or Under Investigation, Updated March 15, 2021

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