Mortalidade por leucemia infantil deve aumentar em países da América Latina até 2030, mostra estudo

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

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25 de março de 2021

Um estudo publicado no final do ano passado no periódico BMC Pediatric[1] estima um aumento da mortalidade por leucemia entre crianças de alguns países da América Latina até 2030. Esta previsão, que foi verificada para Argentina, Equador, Guatemala, Panamá, Peru e Uruguai, vai no sentido contrário à tendência de queda que vem sendo registrada em países de alta renda. [2,3]

O Dr. Junior Smith Torres-Roman, médico da Universidad Científica del Sur e pesquisador da Latin American Network for Cancer Research (LAN–CANCER) e da Universidad Peruana Cayetano Heredia, no Peru, falou ao Medscape sobre o trabalho.

No estudo em questão, os autores do Peru, Estados Unidos, Brasil, Itália e Espanha utilizaram a base de dados de mortalidade da Organização Mundial da Saúde (OMS) para avaliar tendências de óbitos associados a leucemia entre crianças de 0 a 14 anos de idade em 15 países da América Latina e do Caribe (Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Cuba, Equador, Guatemala, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Porto Rico, Uruguai e Venezuela) entre 2000 e 2017, bem como prever o cenário para 2030.

A análise dos registros revelou que, entre 2013 e 2017, Uruguai e Porto Rico apresentaram as menores taxas de mortalidade entre meninos (0,71 e 0,32 por 100.000 habitantes, respectivamente) e meninas (0,74 e 0,33 por 100.000 habitantes, respectivamente). Por outro lado, foram identificadas taxas de mortalidade acima de 2,0 por 100.000 habitantes entre meninos na Venezuela, Equador, Nicarágua, México e entre meninas no Peru e na Nicarágua, Equador e México.

Peru e Nicarágua apresentaram tendências crescentes de mortalidade por leucemia infantil em ambos os sexos, enquanto em Porto Rico revelou o maior declínio nos óbitos tanto em meninos quanto em meninas.

Quanto ao Brasil, o Dr. Torres-Roman afirmou que o país ficou entre os que apresentaram as menores taxas de mortalidade: 1,48 por 100.000 habitantes entre meninos e 1,19 por 100.000 habitantes entre meninas.

"O Brasil apresenta taxas baixas e a análise de tendências não mostrou mudanças significativas. O país conta com o Sistema Único de Saúde (SUS), que oferece acesso universal à saúde, e é possível que, ao longo dos anos, a melhor estruturação e organização desse sistema tenha permitido um diagnóstico precoce, resultando em menores taxas de mortalidade", disse.

Com relação às tendências no Brasil, segundo o pesquisador, a comparação entre o número de óbitos no último período observado e no último período projetado revelou uma redução de 9,93% no número de mortes de meninos e de 19% no de meninas.

"No caso dos meninos, houve um aumento do risco de morte por leucemia (5%) e entre as meninas houve uma redução (4%). No entanto, a análise das tendências mostrou que essas variações não foram significativas, o que podemos interpretar como um cenário de estabilidade das taxas", disse.

Por outro lado, países como Argentina, Equador, Guatemala, Panamá, Peru e Uruguai apresentaram tendência significativa de aumento da mortalidade por leucemia infantil até 2030. Vale lembrar que neste ano (2030) a OMS espera alcançar taxa de sobrevivência entre crianças com câncer de pelo menos 60%. [4]

Segundo o Dr. Torres-Roman, a equipe de pesquisa já esperava encontrar uma tendência de aumento da mortalidade em alguns países da América Latina. "Isso ocorre porque, na maioria dessas nações, as taxas de sobrevivência para leucemia infantil ainda são mais baixas do que na maioria dos países desenvolvidos", destacou.

Para o pesquisador, a implementação de algumas medidas pode contribuir para que esses países fiquem mais próximos da meta da OMS para 2030, por exemplo, melhorar a velocidade do diagnóstico; promover a estratificação do atendimento (descentralização dos serviços) de acordo com a distribuição dos casos, criando centros de oncologia nas áreas mais atingidas; padronizar o tratamento, baseando-o em protocolos internacionais e não na opinião individual de cada especialista; reduzir a taxa de abandono; melhorar ou implementar serviços especializados, como unidade de terapia intensiva (UTI) pediátrica e melhorar os serviços de bancos de sangue.

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