Estudo analisa associação entre taxas de homicídio e suicídio no Brasil

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

1 de março de 2021

Artigo publicado no final de 2020 no periódico BMJ Open [1] mostra que municípios brasileiros com altas taxas de homicídio apresentam também altas taxas de suicídio.

Os resultados, segundo os autores do Brasil, do Reino Unido e da Austrália, sugerem que existe uma associação entre esses dois tipos de morte, independentemente de vários fatores sociodemográficos e socioeconômicos.

O Dr. Luis Fernando Silva Castro de Araujo, psiquiatra do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (CIDACS) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na Bahia e da University of Melbourne, na Austrália, e a Dra. Daiane Borges Machado, psicóloga do CIDACS e pesquisadora da Harvard Medical School, nos Estados Unidos, falaram ao Medscape sobre os dados.

O estudo ecológico longitudinal analisou dados de 5.507 cidades brasileiras entre 2008 e 2014. Para estimar as taxas de suicídio e homicídio, os autores do CIDACS, da London School of Hygiene & Tropical Medicine e da University College London, ambos no Reino Unido, da University of Melbourne e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) coletaram dados no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde.

A análise identificou aumento tanto nas taxas de suicídio (7,6 mortes por suicídio a cada 100.000 habitantes para 8,2 mortes por suicídio a cada 100.000 habitantes) quanto nas taxas de homicídio no período analisado (15,2 mortes por homicídio a cada 100.000 habitantes para 19,6 mortes por homicídio a cada 100.000 habitantes).

Usando modelos de regressão multivariada com resposta binomial negativa, a equipe observou ainda que uma duplicação na taxa de homicídio foi associada a um aumento de 22% na taxa de suicídio. A análise por quintil também evidenciou essa associação positiva e progressiva, ou seja, conforme a taxa de homicídio aumentava, havia também aumento na taxa de suicídio: em comparação com o menor quintil de taxa de homicídio, houve um aumento de 1% na taxa de suicídio no segundo quintil, de 4% no terceiro quintil, de 9% no quarto e de 12% no quintil mais alto.

A análise estratificada por sexo e idade revelou associação positiva entre as taxas de homicídio e suicídio entre homens de 20 a 59 anos de idade. Essa relação positiva se manteve mesmo após ajustes para possíveis confundidores, entre eles, renda per capita, cobertura dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), urbanização, desemprego, morar sozinho, divórcio e afiliação religiosa.

Segundo o Dr. Luis Fernando, o estudo mostra que, em âmbito municipal, homicídios estão relacionados com suicídios, no entanto, a relação não é causal. "O tema também é controverso, havendo estudos que não encontraram esta relação. [2] A vantagem do nosso trabalho é que controlamos para diversos confundidores e aplicamos teste de sensibilidade", explicou.

A relação positiva revelada na pesquisa sugere, de acordo com o especialista, que homicídios e suicídios podem ter um determinante social comum. "Um exemplo que usamos é que homicídios podem gerar baixa coesão social e, por meio desta causa comum, gerar mais suicídios. A falta de coesão gera desespero e aumenta a chance de ocorrer um suicídio", afirmou. Vale lembrar que o suicídio é um desfecho trágico que ocorre com frequência ao longo do curso de um transtorno mental.

Para a Dra. Daiane, o efeito da violência sobre os suicídios se dá pelos danos psicológicos causados na vítima pelo trauma, pela exposição no contexto familiar ou ainda pelo estresse e alerta constantes no caso das violências comunitárias, ou seja, não é necessário ser vítima de violência física diretamente para ser impactado, pois o simples fato de viver em uma cidade muito violenta já exige adaptação comportamental.

"Essa adaptação requer esforço cognitivo e, portanto, maior gasto de energia. A pessoa fica exposta a uma situação de alerta e estresse constantes", afirmou.

Os autores notaram que a associação entre as taxas de homicídio e de suicido foi evidenciada entre indivíduos de 20 a 59 anos de idade. Segundo a Dra. Daiane, "possivelmente é nesse período da vida que a tentativa de adaptação comportamental ocorre de forma mais relevante, visto que na fase adulta se consegue perceber com mais clareza os riscos relacionados à exposição à violência". O Dr. Luis Fernando acrescentou que "o acesso a armas de fogo é mais comum também nos homens nessa faixa etária".

Por outro lado, na velhice, afirmou a Dra. Daiane, as pessoas podem já ter conseguido construir/morar em lares mais seguros ou por não saírem com a mesma frequência, se expondo às ruas, o estresse causado pela violência talvez impacte menos.

"Ainda não sabemos ao certo o quanto esse nível de estresse impacta na saúde mental, aumentando inclusive o risco de suicídio nos indivíduos, mas o que o nosso estudo e outros estudos internacionais têm indicado, é que a violência resulta em pior saúde física e mental", destacou.

Para o Dr. Luis Fernando, a existência de uma via comum entre homicídio e suicídio está clara, no entanto, ainda é preciso elucidar que via é esta. Embora existam diferentes teorias que possam explicar essa associação, o médico acredita que o acesso a armas de fogo é uma questão fundamental nesse contexto.

"Restringir o acesso deve ter algum efeito tanto em suicídios quanto em homicídios, maior efeito esperado no caso de homicídios e menor entre suicídios. Portanto, se há uma via de ação governamental para diminuir estes tipos de óbito é restringindo ou impedindo o acesso a armas, não o contrário", destacou.

Segundo a Dra. Daiane, os achados da pesquisa reforçam a ideia de que a prevenção de problemas de saúde mental e suicídio exige olhar para a sociedade como um todo, incluindo os problemas sociais.

"Não vivemos num vácuo e as estratégias preventivas, portanto, precisam ser pensadas considerando o contexto social que o indivíduo está inserido, elas precisam ser intersetoriais. Os profissionais de saúde mental, psicólogos, psiquiatras e demais precisam também considerar essas questões nos seus consultórios. E o governo, para além de ampliar a cobertura dos serviços de saúde mental no Brasil, precisa também intervir nas questões socioeconômicas do país. Não dá mais para seguir pensando que um problema de saúde mental é apenas referente ao indivíduo, a questão é muito mais ampla e envolve governos e sociedade", alertou a especialista.  

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