Covid19: Resumo da semana (20 a 26 de fevereiro)

Equipe Medscape Professional Network

26 de fevereiro de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Na manhã do dia 26 o Brasil registrou 10.393.886 diagnósticos e 251.661 óbitos por covid-19, de acordo com levantamento produzido diariamente pelo consórcio de veículos de imprensa a partir dos dados obtidos das secretarias estaduais de saúde. O consórcio é formado por Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e UOL. Um total de 6.338.137 pessoas tomaram a primeira dose de vacina e 1.75.781 receberam a segunda dose.

Há um ano, no dia 26 de fevereiro de 2020, as autoridades sanitárias anunciaram a confirmação do primeiro caso de covid-19 diagnosticado no Brasil: um homem de 61 anos, de classe alta, internado em hospital de excelência na capital paulista. Um ano e três ministros da Saúde depois, o país apresenta recordes de mortes e de novos casos, e um sistema de saúde à beira do colapso em vários estados. Na véspera da data, em 25 de fevereiro, foram 1.582 vítimas fatais da doença, a marca mais elevada desde o início da pandemia. É um alerta para a urgência de medidas de contenção que realmente funcionem e uma consequência dos descaminhos trilhados até aqui: são 34 dias consecutivos com média móvel de mortes acima de 1.000. É o período mais prolongado em patamares tão elevados. Considerando a subnotificação, os números totais de casos e vítimas podem ser maiores.

A falta de políticas nacionais coordenadas para combater a pandemia e equívocos capitais como a negligência na reserva e na compra de lotes de vacinas estão entre os fatores que mantêm o Brasil em segundo lugar há muitos meses e no terceiro lugar com maior número de casos. Não se pode ignorar também as sucessivas investidas de autoridades públicas com grande poder de influência sobre a população no sentido contrário às recomendações da ciência. Infelizmente, mesmo com este cenário tão avassalador, ainda há profissionais da saúde que se negam a aceitar as evidências oferecidas por estudos consistentes e indicam medicamentos sem base em evidências científicas sólidas, o que pode produzir graves reações adversas, como documentou estudo transversal que foi tema de reportagem do Medscape.

Agora, um dos estados onde o sistema de saúde caminha para o colapso é Santa Catarina, no Sul. No dia 24, os leitos de terapia intensiva registravam ocupação de 96% e 84 pacientes aguardavam vagas ou transferência. O secretário de Saúde do estado, André Mota Ribeiro, pediu providências para reduzir a circulação da população. Em reação à situação, um grupo de mais de cem professores e pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina decidiu divulgar na tarde da quinta-feira (25), uma Carta Aberta apontando 10 pontos para acabar com a pandemia. Entre eles está a necessidade de fiscalização rígida do cumprimento de normas de prevenção, o que não ocorre, e alertas sobre o impacto dessa negligência. O documento critica as condutas individualistas, reforça a necessidade de controle da pandemia e pede mais transparência e campanhas de amplo alcance para esclarecer sobre os limites e o impacto positivo da vacinação, uma vez que muita informação negativa foi bombardeada por meses.

"Em conclusão, estamos entre os países que ostentam as maiores taxas de mortalidade e entre os que pior enfrentaram a pandemia. Este fato reforça a necessidade de mudança da postura nacional de enfrentamento da pandemia, para não sermos todos cúmplices históricos por naturalizar no século 21 um novo holocausto", escreveram os pesquisadores.

O estado do Rio Grande do Sul também se aproxima do colapso do sistema de saúde. Em menos de um mês, houve alta de 206% nas internações em terapia intensiva, maior do que em qualquer outro período da pandemia. O governo estadual informa internações três vezes superiores às ondas anteriores. Nesta sexta-feira (26), o estado adota uma "bandeira preta", que corresponde à restrição da maior parte das atividades para reduzir a circulação de pessoas até o domingo 7 de março, conforme entrevista do governador Eduardo Paes ao canal Globonews. Desde a terça-feira (22) o estado decretou toque de recolher às 20 horas.

Em São Paulo, o toque de recolher, batizado pelo governador de "toque de restrição", entra em vigor nesta sexta das 23 às 5 horas. Na Paraíba, a capital João Pessoa chegou durante a semana a 84% de ocupação dos leitos, o que levou à adoção de novas restrições à circulação de pessoas, como toque de recolher das 22h às 5h. A tendência é a situação se agravar em todo o país.

As perspectivas não são boas e apontam na direção da piora de índices epidemiológicos. A taxa de transmissão no Brasil (Rt) apurada pelo Imperial College de Londres subiu e está em 1,04, ou seja, cada 100 infectados transmitem o vírus para outros 104 indivíduos. A grande circulação de novas linhagens do SARS-CoV-2 mais agressivas e com maior transmissibilidade preocupa. Dados do Ministério da Saúde indicavam 204 pacientes infectados por novas variantes até o dia 20. Eram 184 casos da variante P.1., identificada pela primeira vez em Manaus (AM) e 20 da variante B.1.1.7 (Reino Unido).

A semana das vacinas

O Ministério da Saúde afirmou ter assinado acordo para compra de 20 milhões de doses da Covaxin (Bharat Biotech, Índia). Os resultados de fase 3 da vacina ainda não foram publicados e não há dados sobre a eficácia contra a covid-19. Testes no Brasil estão em andamento. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda não recebeu o pedido de autorização para uso emergencial. A previsão da farmacêutica indiana Bharat Biotech é enviar o primeiro lote em março.

Nos Estados Unidos, a agência reguladora FDA está pronta para autorizar o uso emergencial de uma terceira vacina para adultos. Os cientistas da agência divulgaram na quarta-feira documentos com resultados de estudos com a vacina de dose única da Janssen/Johnson&Johnson, concluindo que ela não só reduz o risco de doença grave, mas também diminui o risco de infecções assintomáticas em 74%.

Enquanto isso, a Moderna concluiu a fabricação de uma versão de sua vacina para evitar infecção pela variante B.1.351, identificada pela primeira vez na África do Sul. A empresa está enviando doses desta vacina de reforço mRNA-1273.351 para os Institutos Nacionais de Saúde para avaliação em um ensaio clínico, disse a empresa.

Faltam vacinas e vários estados interromperam a vacinação. No dia 23, o governo de São Paulo anunciou o envio de 3,9 milhões de doses da vacina contra o novo coronavírus ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde. De 5 de fevereiro a 5 de março, o governo paulista estima entregar 5,6 milhões de doses ao PNI, 65% a mais que o volume previsto inicialmente. O instituto é o fabricante de 9 entre 10 vacinas aplicadas no país e montou uma força-tarefa para envasar, em ritmo acelerado, doses para a entrega ao PNI.

As reações adversas a medicamentos

Pesquisa avaliou reações adversas associadas ao uso off-label de medicamentos no tratamento da covid-19. Nos primeiros seis meses de pandemia, as principais substâncias suspeitas de causar reações graves foram hidroxicloroquina (59,5%) e cloroquina (5,2%), especialmente em homens e pessoas com 65 anos ou mais. A azitromincina também ocupa os primeiros lugares dessa lista.

Estratégias do vírus e medidas de proteção

Deleções genéticas recorrentes permitem que o SARS-CoV-2 sofra mutações, dando origem a novas variantes. Ainda é difícil prever quais variantes irão finalmente dominar ou alterar a transmissibilidade.

Especialistas alertam para a gravidade do atual momento e conclamam médicos a intensificarem a conscientização sobre a importância das medidas não farmacológicas com, sem ou apesar da vacinação. Lavar as mãos com água e sabão, fazer uso de álcool gel, usar máscaras e fazer distanciamento social são imprescindíveis para reduzir a circulação do vírus e evitar o surgimento de novas variantes.

A covid-19 pelo mundo

Após 49 dias de um bloqueio nacional extremamente rígido e de ter aplicado alguma dose de vacina a mais de um quarto da população, o Reino Unido anunciou ontem seu plano para sair do lockdown. O número de novos casos caiu 81% do meio de janeiro até aqui; a média diária de mortes atingiu um pico na última semana daquele mês, com 1,2 mil óbitos, e agora está em cerca de 480, o que dá uma queda de 60%. A transmissão não está zerada, mas a cautela do novo plano ganhou elogios de especialistas.

O primeiro ministro Boris Johnson anunciou um caminho "cauteloso, mas irreversível" para a saída do lockdown. Abordagem semelhante também está sendo adotada na Escócia. Pesquisa da Universidade de Edimburgo, ainda em pre-print, descobriu que 4 semanas após a primeira dose, a vacina Pfizer/BioNTech reduziu o risco de hospitalização em até 85%, e o número foi de até 94% para a vacina de Oxford/AstraZeneca. O número de casos está indo na direção certa, mas as mortes na COVID-19 do Reino Unido passaram de 135.000 esta semana.

No Uruguai, as primeiras doses das vacinas contra o novo coronavírus devem chegar ao país até o fim de semana. A imunização começa em 1º de março. São esperadas 192 mil doses da CoronaVac (Sinovac Biotench/Butantan).

Os Estados Unidos superaram as 500.000 mortes por covid-19. O presidente Joe Biden disse que "mais americanos morreram nesta pandemia do que na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra Mundial e na Guerra do Vietnã juntas". A Pfizer anunciou que começará no país testes com uma terceira dose da sua vacina feita com mRNA para aumentar a proteção. A perspectiva é aplicar a terceira dose até o final do ano. Os estudos foram feitos com as variantes da África do Sul e do Reino Unido. Ainda não há dados sobre a nova linhagem identificada em Nova York.

Na França, quatro regiões tiveram uma alta taxa de incidência e altos indicadores hospitalares: Île-de-France, Provence-Alpes-Côte d'Azur, Grand Est e Hauts-de-France. Um novo bloqueio será adotado esta semana em Dunquerque e na comunidade de Hauts de Flandres, que estão sob o domínio de um surto de covid-19 alimentado pela variante britânica, de acordo com o ministro da Saúde, Olivier Véran. Segundo estimativas do Instituto Pasteur, na França, 17% das pessoas com mais de 20 anos já foram infectadas pelo SARS-CoV-2 em 21 de fevereiro. A proporção de pessoas já infectadas pode até chegar a 30% na região de Paris.

Portugal anunciou a prorrogação do lockdown iniciado em janeiro até 16 de março. Como outros países europeus, o país sofre atrasos na entrega de vacinas pelas empresas farmacêuticas. Portanto, a primeira fase da vacinação, programada para terminar em março, provavelmente se estenderá até abril. Pelo menos 3,4% da população já recebeu pelo menos uma dose. Até 17 de fevereiro, em um país com cerca de 10 milhões de habitantes, 347.013 pessoas já haviam recebido a primeira dose e 209.318 haviam tomado ambas as doses. No total, 556.331 doses de vacina já foram administradas em Portugal. O destaque é a população acima de 80 anos: 12% das pessoas desta faixa etária já receberam pelo menos uma dose. Além dos atrasos na vacinação, há relatos de irregularidades e de doses perdidas.

Na Espanha, o número de novos casos está diminuindo, com uma incidência de 218 casos por 100.000 pessoas em 14 dias. Em reação a alguns governos locais que estão afrouxando as medidas de proteção, o presidente Pedro Sánchez declarou que "o objetivo não é salvar a Semana Santa, mas diminuir a incidência abaixo de 50 casos por 100.000 habitantes".

A Espanha tem um total de 298 casos confirmados da variante britânica, seis da sul-africana e um da brasileira. Segundo o ministro da Saúde espanhol, "já há mais doses administradas do que pessoas com covid-19 na Espanha". Mais de dois milhões de pessoas (4,36% da população espanhola) receberam uma dose da vacina covid-19, e 1,2 milhões receberam as duas doses. O objetivo é que 70% da população sejam vacinados até o verão. A Galícia estuda a possibilidade de tornar a vacina obrigatória, com multas de até 600 mil euros para as pessoas que não forem vacinadas, uma medida altamente controvertida.

Na Itália, relatório emitido pela Sala Nacional de Controle COVID-19 confirmou, pela terceira semana, a retomada da epidemia, com um aumento médio Rt de quase 1 (0,99, CI 0,86-1,06). O grupo recomendou o reforço das medidas de bloqueio em todo o país, pois um novo aumento de casos poderia rapidamente levar a uma sobrecarga dos serviços de saúde. A campanha de vacinação está desacelerando principalmente devido à falta de organização e pessoal, mais do que à falta de vacinas. Foi lançada uma investigação para apurar a oferta de grande número a formuladores de políticas regionais e governadores por mediadores através de um mercado paralelo fora dos acordos feitos pela União Europeia. Pfizer e AstraZeneca disseram que não estão envolvidos em nenhum nível neste tipo de oferta.

A Nova Zelândia iniciou a imunização em 20 de fevereiro com a vacina de Pfizer/BioNTech. O país espera pelo menos um ano para vacinar toda sua população de 5 milhões de habitantes.

A Malásia deu início a sua campanha de vacinação em 24 de fevereiro, sendo o primeiro ministro Muhyiddin Yassin o primeiro a ser imunizado.

As autoridades sanitárias do Japão relataram vários casos de uma nova variante da SARS-CoV-2, que poderia tornar menos eficazes as vacinas atualmente disponíveis. A variante que abriga a mutação E484K foi detectada em 91 casos na região de Kanto e em dois casos em aeroportos. É provável que a variante tenha vindo do exterior, mas ela é diferente das variantes do Reino Unido e da África do Sul.

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