Vacinação em Portugal enfrenta lentidão e denúncias de irregularidades

Giuliana Miranda

Notificação

23 de fevereiro de 2021

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Lisboa – Em meio a críticas de entidades médicas, denúncias de irregularidades e de desperdício de doses, a cobertura da vacinação contra a covid-19 em Portugal acaba de ultrapassar a marca de 3,4% da população com ao menos uma dose do imunizante.

Até 17 de fevereiro, neste país com cerca de 10 milhões de habitantes, 347.013 pessoas já haviam recebido a primeira dose e 209.318 já haviam recebido as duas. No total, foram aplicadas 556.331 doses de vacina em Portugal.

O destaque fica por conta da população com mais de 80 anos: 12% das pessoas nessa faixa etária já receberam ao menos uma dose.

Assim como outros países europeus, Portugal sofre com o atraso na entrega de vacinas por parte das farmacêuticas. Com isso, a primeira fase da vacinação, prevista para acabar em março, deve se estender até abril.

A vacinação em Portugal foi dividida em grupos, que somam cerca de 950 mil pessoas:

  • Profissionais de saúde diretamente envolvidos no atendimento a doentes;

  • pessoas com mais de 50 anos com doenças crônicas que aumentem o risco de covid-19 grave (insuficiência cardíaca, insuficiência renal grave, doença coronariana, doença pulmonar obstrutiva crônica);

  • idosos vivendo em casas de repouso e pacientes internados em serviços de cuidados continuados; e

  • profissionais das forças de segurança.

Os profissionais envolvidos no atendimento direto aos pacientes destes grupos também terão prioridade de acesso à imunização.

Antes mesmo de ser iniciado, o plano nacional de vacinação em Portugal recebeu duras críticas das principais entidades médicas do país, que se queixaram de ter havido pouca interlocução com o governo de Portugal durante a elaboração das diretrizes.

Em nota conjunta, o Fórum Médico, que reúne a Ordem dos Médicos de Portugal e as principais associações profissionais da categoria, afirmou que o plano apresenta "várias lacunas na identificação dos grupos de risco, operacionalização e fiscalização da vacinação".

Atualmente, as associações têm chamado a atenção para o facto de uma grande parcela dos profissionais de saúde que pertencem ao grupo prioritário ainda não terem sido vacinados.

"O processo de vacinação dos profissionais de saúde está significativamente atrasado em relação aos prazos anunciados. Ao mesmo tempo anuncia-se e avança-se para a vacinação de outros grupos, numa estratégia ditada pela manipulação da perceção pública", completa o documento.

Na última semana, o governo português começou a vacinar policiais, bombeiros e outros agentes de segurança.

As entidades médicas afirmam que a maior parte dos médicos do país ainda não foi imunizada. A situação seria ainda mais grave com os profissionais que atuam apenas em hospitais privados.

"A desproteção dos restantes médicos não vacinados cria evidentemente um risco acrescido de dificuldades no combate à pandemia, bem como no acesso a consultas, exames e cirurgias. Esta situação está a gerar uma forte indignação entre os médicos e as organizações que os representam."

Denúncias em série

Além das críticas das associações médicas, o plano de vacinação em Portugal tem estado frequentemente sob os holofotes devido a casos de irregularidades no acesso às doses.

A imunização de pessoas não prioritárias acabou provocando a saída do próprio coordenador da chamada task force (força-tarefa, em português) de vacinação, Francisco Ramos, que pediu demissão no começo de fevereiro. A chefia da força-tarefa agora está nas mãos do vice-almirante Henrique Gouveia e Melo.

Nesta semana, foi a vez de um vereador de Lisboa se demitir após a imprensa noticiar que ele foi vacinado aparentemente sem justificativa. Responsável pela área de Proteção Civil na capital portuguesa, Carlos Manuel Castro afirma ter recebido uma dose que "sobrou" após a imunização dos moradores de um asilo.

Em outros episódios, padres, funcionários públicos, parentes de políticos e até funcionários de uma pastelaria passaram à frente de profissionais de saúde e idosos, o que gerou uma onda de indignação nacional.

O principal partido da oposição ao governo socialista, o Partido Social-Democrata (PSD), de centro-direita, apresentou um projeto de lei que prevê multa e até três anos de prisão para casos de "vacinação indevida".

Como a "sobra" de doses tornou-se a principal justificativa para a vacinação de pessoas fora dos grupos prioritários, a Direção-Geral da Saúde (DGS) tornou mais claras as regras sobre o que fazer nesses casos. Em 09 de fevereiro, a DGS atualizou suas normas e tornou obrigatória a existência de uma lista de pessoas prioritárias para as sobras. Nestes casos, diz o documento, "a vacinação deve prosseguir por meio da vacinação de pessoas incluídas noutra fase do plano de vacinação, desde que pertencentes aos grupos prioritários e em respeito pelos subgrupos de prioridades".

Caso isto não seja possível, para evitar o descarte das vacinas, a doses que sobrarem devem ser aplicadas em profissionais de saúde ainda não vacinados.

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