Estudo analisa o paradoxo do obeso fisicamente ativo

Heidi Splete

Notificação

16 de fevereiro de 2021

A prática de atividades físicas mitigou o impacto do índice de massa corporal (IMC) elevado em relação aos fatores de risco cardiovascular, mas não em relação ao risco geral de doença cardiovascular, de acordo com um estudo observacional que analisou meio milhão de pessoas.

Apesar das taxas historicamente altas de sobrepeso e obesidade em todo mundo, algumas evidências sugerem que o condicionamento cardiorrespiratório pode reduzir os efeitos do excesso de peso em relação ao risco de doença cardiovascular (DCV), segundo Dr. Pedro L. Valenzuela, Ph.D., da Universidad de Alcalá, na Espanha, e colaboradores.

"Para esclarecer a existência do paradoxo 'obeso, mas em forma' (ou 'com IMC elevado, mas ativo'), nesse estudo observacional nós avaliamos a associação entre diferentes categorias de IMC e níveis de atividade física, respectivamente, e a presença de importantes fatores de risco de doença cardiovascular", disseram os autores.

Em um estudo de coorte populacional publicado no periódico European Journal of Preventive Cardiology , os pesquisadores identificaram 527.662 adultos entre 18 e 64 anos de idade assegurados por uma empresa de prevenção de risco ocupacional que realizaram seus exames anuais pelo plano. A média de idade dos participantes era de 42 anos, 32% eram mulheres, e o IMC médio era de 26,2 kg/m2.

Os participantes foram categorizados como tendo peso adequado (42%), sobrepeso (41%) e obesidade (18%), e, no que tange a prática de atividades físicas, eles foram categorizados como inativos (64%), insuficientemente ativos (12%) e regularmente ativos (24%).

Além disso, 30% dos participantes tinham hipercolesterolemia, 15% tinham hipertensão e 3% tinham diabetes.

De forma geral, em comparação com a inatividade, praticar um nível insuficiente ou regular de atividades físicas reduziu fatores de risco de doença cardiovascular em todas as categorias de IMC e subgrupos. "No entanto, a atividade física insuficiente/regular não compensou os efeitos negativos do sobrepeso/obesidade, pois os indivíduos com sobrepeso/obesidade tiveram maior risco de doença cardiovascular do que seus pares com peso adequado, independentemente dos níveis de atividade física praticados", disseram os pesquisadores. Ao comparar homens ativos de peso adequado com homens ativos com sobrepeso e obesidade, a razão de chances (OR, sigla do inglês Odds Ratio) de hipertensão foi de 1,98 e 4,93; de hipercolesterolemia foi de 1,61 e 2,03; e de diabetes foi de 1,33 e 3,62, respectivamente (P < 0,001 para todos). As tendências foram semelhantes para as mulheres.

Os resultados do estudo foram limitados pelo desenho transversal, pela inabilidade de controlar para a dieta dos participantes e por ter sido baseado no autorrelato do tempo de atividade física. No entanto, os achados são fortalecidos pelo grande tamanho da amostra e "refutam a ideia de que um estilo de vida fisicamente ativo pode anular completamente os efeitos deletérios do sobrepeso/obesidade", disseram os pesquisadores.

Embora o aumento da atividade física deva permanecer como uma prioridade das políticas em saúde, "a perda ponderal propriamente dita deve permanecer como o alvo primário das políticas em saúde com o objetivo de reduzir o risco de doença cardiovascular em pessoas com sobrepeso/obesidade", concluíram.

Interpretando os achados com cautela

"Diante da cada vez mais maior questão de saúde pública que o sobrepeso e a obesidade representam, é útil avaliar qualquer medida ou medidas que possam ter um efeito favorável ou adverso em fatores de risco cardiometabólico e no risco de doença cardiovascular", disse em uma entrevista o Dr. Prakash Deedwania, médico da University of California, San Francisco, nos Estados Unidos.

Dr. Prakash Deedwania

O Dr. Prakash disse que não ficou totalmente surpreso com os achados do estudo. "Os pesquisadores correlacionaram apenas níveis autorrelatados de atividade física (o que não é sempre confiável) com a presença de três fatores de risco cardíacos: hipertensão, hipercolesterolemia e diabetes."

O estudo "não é comparável com pesquisas anteriores que mostraram um impacto positivo do condicionamento cardiorrespiratório cuidadosamente avaliado com o risco de doença cardiovascular", observou o Dr. Prakash.

"No entanto, é um dos estudos de vigilância com a maior população, de mais de meio milhão de trabalhadores ativos na Espanha, e o trabalho mostra que, apesar de a atividade física ter sido autorrelatada, o sobrepeso e a obesidade foram associados a maior risco de hipertensão, diabetes e hipercolesterolemia", explicou ele.

"A mensagem principal desses achados é que, embora a atividade física tenha um impacto favorável no risco cardiovascular relacionado com a quantidade, a principal intervenção em saúde pública para reduzir o risco de doença cardiovascular deve focar na perda ponderal em indivíduos com sobrepeso e obesidade", enfatizou o Dr. Prakash.

"Os estudos futuros devem focar na comparação de vários níveis de atividades cotidianas e exercícios de rotina, como caminhar, andar de bicicleta, etc., com o impacto positivo nos fatores de risco cardiometabólicos em indivíduos com sobrepeso ou obesos", disse ele.

O Dr. Pedro informou receber apoio da Universidad de Alcalá. A pesquisa da autora correspondente Lucia foi financiada por fundos do Spanish Ministry of Science and Innovation e Fondos FEDER. O Dr. Prakash informou não ter conflitos de interesses.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge – Medscape Professional Network.

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