Gestantes que têm covid-19 transmitem seus anticorpos para os bebês: uma janela para a estratégia de vacinação

Tara Haelle

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8 de fevereiro de 2021

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Anticorpos contra o SARS-CoV-2 cruzam a placenta durante a gestação e são detectáveis na maioria dos recém-nascidos de mães que tiveram covid-19 durante a gestação, de acordo com achados de um estudo apresentado on-line em 28 de janeiro no Society for Maternal-Fetal Medicine (SMFM) 2021 Annual Pregnancy Meeting.

Dra. Naima Joseph

"Penso que o achado mais contundente foi o fato de termos observado um alto grau de resposta neutralizante à infecção natural, mesmo em caso de infecção assintomática, mas é claro que um grau maior foi observado naqueles recém-nascidos cujas mães tiveram infecção sintomática", disse ao Medscape a Dra. Naima Joseph, médica da Emory University School of Medicine, nos Estados Unidos.

"Nossos dados demonstram a capacidade de a mãe apresentar uma resposta imunológica apropriada e robusta", e a imunidade protetora materna durou pelo menos 28 dias após a infecção, disse a Dra. Naima.

"Além disso, observamos maiores títulos neonatais no cordão umbilical de mães com títulos mais elevados, o que sugere uma relação, mas precisamos entender melhor como ocorre a transferência transplacentária, assim como estabelecer correlações com a proteção neonatal para avaliar se e como a imunidade materna pode beneficiar os neonatos."

Os pesquisadores analisaram as quantidades de anticorpos do tipo imunoglobulina G (IgG) e imunoglobulina M (IgM) em amostras maternas e de cordão umbilical prospectivamente coletadas durante o parto de mulheres que testaram positivo para covid-19 em qualquer momento da gestação. Eles usaram um ensaio imunoabsorvente enzimático para avaliar a presença de anticorpos para o domínio ligante do receptor da proteína spike do SARS-CoV-2.

Os 32 pares de mães e filhos incluídos no estudo eram predominantemente negros não hispânicos (72%) e hispânicos (25%), e 84% utilizaram o Medicaid como pagador. A maioria das mães (72%) apresentava pelo menos uma comorbidade, sendo as mais comuns obesidade, hipertensão, asma ou doença pulmonar. Pouco mais da metade das mulheres (53%) apresentaram sintomas de covid-19 e 88% adoeceram no terceiro trimestre de gestação. O tempo médio entre a infecção e o parto foi de 28 dias.

Todas as mães tinham anticorpos IgG, 94% tinham anticorpos IgM e 94% tinham anticorpos neutralizantes contra o SARS-CoV-2. Nas amostras do cordão umbilical, 91% tinham anticorpos IgG, 9% tinham IgM e 25% apresentavam anticorpos neutralizantes.

"É reconfortante que, até agora, a resposta fisiológica seja exatamente o que esperávamos", disse ao Medscape a Dra. Judette Louis, professora associada de ginecologia e obstetrícia e chefe do mesmo Departamento na University of South Florida, nos EUA. "Era de se esperar, mas é sempre bom ter mais dados para embasar. Caso contrário, estaríamos extrapolando o que sabemos sobre outras doenças", disse a Dra. Judette, que moderou a sessão de apresentações orais.

A infecção sintomática foi associada a títulos significativamente maiores de IgG do que a infecção assintomática (P = 0,03), mas não foi observada correlação para IgM ou anticorpos neutralizantes. Além disso, embora as mães que pariram mais de 28 dias após a infecção tivessem títulos de IgG mais elevados (P = 0,05), não houve diferenças em relação à IgM nem à resposta neutralizante.

Os títulos presentes no cordão umbilical dos bebês eram significativamente menores do que os das amostras maternas correspondentes, independentemente de sintomas ou da latência entre a infecção e o parto (P < 0,001), relatou a Dra. Naima.

"Já foi demonstrado que a eficiência transplacentária em outros patógenos se correlaciona com a imunidade neonatal quando a razão entre o cordão e o sangue materno é > 1", disse a Dra. Naima em sua apresentação. Seus dados mostraram uma "eficiência exígua" com uma razão de 0,81.

O pequeno tamanho da amostra e a ausência de um grupo de controle foram limitações do estudo, mas um ponto forte foi o fato de os pesquisadores terem incluído uma população que apresenta um risco desproporcionalmente maior de infecção e morbidade grave em relação à população em geral.

Impacto na vacinação de gestantes contra a covid-19

Embora os dados ainda não estejam disponíveis, a Dra. Naima disse que sua equipe ampliou o protocolo para incluir gestantes vacinadas.

"A chave para desenvolver uma vacina efetiva para gestantes é realmente caracterizar a imunidade adaptativa da gestação", explicou a Dra. Naima aos participantes do SMFM. "Eu acredito que esses achados contribuam para o desenvolvimento de vacinas ao demonstrarem que a imunidade materna é robusta."

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recentemente recomendou evitar a imunização de gestantes contra a covid-19, mas em seguida o SMFM e o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) publicaram uma declaração conjunta reafirmando que as vacinas contra a covid-19 que foram autorizadas pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA "não devem ser negadas a gestantes que escolherem ser vacinadas".

"Um dos questionamentos das pessoas é se na gestação será produzida uma boa resposta à vacina da mesma forma que fora do período gestacional", disse a Dra. Judette. "Se você puder demonstrar que sim, isso pode fornecer a informação que algumas mães precisam para tomar sua decisão." Dados como os do estudo de Dra. Naima também podem ajudar em recomendações sobre o momento da vacinação materna.

"Por exemplo, a Dra. Naima demonstrou que 28 dias após a infecção há mais anticorpos, então pode haver um cenário no qual a gente diga que a vacina seria mais benéfica se administrada no meio da gestação, com o objetivo de formar esses anticorpos", explicou a Dra. Judette.

Consenso emerge a partir de dados sobre anticorpos maternos

Os achados do estudo da Dra. Naima refletem os relatados em uma pesquisa publicada on-line em 29 de janeiro no periódico JAMA Pediatrics, que, sob a liderança do Dr. Dustin D. Flannery, do Children's Hospital of Philadelphia, nos EUA, também avaliou níveis maternos e neonatais de anticorpos IgM e IgG contra o domínio ligante do receptor da proteína spike do SARS-CoV-2. Dr. Dustin e colaboradores também encontraram uma correlação positiva entre as concentrações de IgG no cordão umbilical e maternas (P < 0,001), mas a razão entre os títulos no cordão e maternos foi > 1, diferentemente do estudo da Dra. Naima.

Dr. Dustin e colaboradores obtiveram plasma sanguíneo sem fibrinogênio da mãe e do cordão umbilical no momento do parto de 1.471 pares de mães e bebês, independentemente do diagnóstico de infecção por SARS-CoV-2 durante a gestação. A média de idade das mães foi de 32 anos, e apenas um quarto da população do estudo era composta de mulheres negras não hispânicas (26%). Cerca de metade era branca (51%), 12% eram hispânicas e 7% eram asiáticas.

Seis por cento das mulheres tinham anticorpos IgG e IgM no momento do parto, e 87% dos recém-nascidos apresentavam IgG detectável no cordão umbilical. Nenhum apresentou anticorpos IgM. Assim como no estudo apresentado no SMFM, foram incluídos casos de infecção por SARS-CoV-2 assintomáticos, leves, moderados e graves, e a gravidade não teve efeito aparente na concentração de anticorpos da prole. A maioria das mulheres que testou positivo para SARS-CoV-2 era assintomática (60%).

Dentre as 11 mães que apresentavam anticorpos, mas seus filhos não, cinco apresentaram apenas anticorpos IgM e seis apresentaram concentrações de IgG significativamente menores do que as observadas em outras mães.

Em um comentário sobre o estudo publicado no periódico JAMA Pediatrics, a Dra. Flor Munoz, médica do Baylor College of Medicine, nos EUA, sugeriu que os achados dão lugar para otimismo em relação a uma estratégia de vacinação de gestantes para proteger os bebês da covid-19.

"No entanto, o momento da vacinação materna para proteger a prole, em oposição a uma proteção exclusivamente materna, necessitaria de um intervalo adequado entre a vacinação e o parto (de pelo menos quatro semanas), enquanto a vacinação precoce na gestação ou mesmo tardia no terceiro trimestre ainda seria protetiva para a mãe", escreveu a Dra. Flor.

Dado o intervalo entre as duas dose da vacina, e o fato de a transferência transplacentária começar a partir de 17 semanas de gestação, "a vacinação materna iniciada no começo do segundo trimestre de gestação pode ser o ideal para alcançar os maiores níveis de anticorpos no recém-nascido", escreveu a Dra. Flor. Mas permanecem questões, como o quão efetivos os anticorpos neonatais seriam na proteção contra o SARS-CoV-2 e quanto tempo a imunidade dura após o nascimento.

O estudo da Dra. Naima não teve financiamento externo. As Dras. Naima e Judette informaram não ter conflitos de interesses. O estudo publicado no periódico JAMA Pediatrics foi financiado pelo Children's Hospital of Philadelphia. Um coautor recebeu remuneração por consultoria da Sanofi Pasteur, Lumen, Novavax e Merck não relacionadas como estudo. A Dra. Flor participa de comitês de monitoramento de dados e segurança da Moderna, Pfizer, Virometix e Meissa Vaccines, e recebeu fundos da Novavax Research e Gilead Research.

Society for Maternal-Fetal Medicine (SMFM) 2021 Annual Pregnancy Meeting: Abstract LB01. Apresentado em 28 de janeiro de 2021.

JAMA Pediatrics. Publicado on-line em 29 de janeiro de 2021.

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