Estudo estima que vacinação preveniu quase 40 milhões de mortes em duas décadas

Sabrine Teixeira Grünewald

Notificação

8 de fevereiro de 2021

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As vacinas são uma das intervenções em saúde pública mais custo-efetivas, e os programas de vacinação vem sendo responsáveis por reduções importantes na mortalidade infantil, especialmente em países em desenvolvimento.

Uma pesquisa recente estimou que, em países de renda média e baixa, a mortalidade infantil de crianças de até cinco anos de idade poderia ser 45% maior do que a atual, caso não existissem os programas de vacinação atualmente implementados.

Além disso, estima-se que, de 2000 até 2030, a vacinação contra 10 importantes patógenos previna aproximadamente 69 milhões de mortes nesses países.

E o que isso significa para o Brasil?

Conforme noticiado pelo Medscape em português, dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI), disponíveis na plataforma do DataSUS , mostram que, em 2019, a cobertura vacinal no Brasil foi a menor desde o início do século, e as perspectivas para 2020 não são melhores. Espera-se que a pandemia de covid-19 tenha um impacto negativo nesses números, uma possibilidade antecipada pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), que publicou, em julho de 2020, uma cartilha com orientações e um apelo para um empenho na manutenção da vacinação apesar do cenário epidemiológico desfavorável.

Mais vacinas, menor mortalidade

O estudo, que usou dados obtidos por meio de modelagem matemática elaborados por diferentes grupos de pesquisa, avaliou o impacto da vacinação contra 10 patógenos: vírus da hepatite B, Haemophilus influenzae tipo B, papilomavírus humano (HPV do inglês, Human Papilomavirus), encefalite japonesa, sarampo, Neisseria meningitidis grupo A, Streptococcus pneumoniae, rotavírus, vírus da rubéola e vírus da febre amarela.

A estimativa é que a vacinação contra esses 10 patógenos evite 69.000.000 de mortes entre 2000 e 2030 (intervalo de confiança, IC, de 95% de 55.000.000 a 88.000.000), das quais, 37.000.000 teriam sido evitadas entre 2000 e 2019 (IC 95% de 30.000.000 a 48.000.000), o que representaria uma redução de 45% no número de óbitos em comparação com um cenário sem vacinação (IC 95% de 36% a 58%).

A maior parte desse impacto concentra-se na redução da mortalidade entre crianças de até cinco anos de idade (redução de 57%; IC 95% de 52% a 66%) – especialmente por sarampo.

Além disso, um aumento na cobertura vacinal e a introdução de vacinas adicionais resultaria em uma diminuição de 72% (59% a 81%) na mortalidade ao longo de toda a vida para a coorte de nascimento de 2019.

O estudo também mostrou que, entre 2000 e 2019, houve um aumento no número médio de vacinas recebidas por criança, tanto de vacinas já existentes, quanto das novas vacinas desenvolvidas neste período, como a de rotavírus.

Vacinas contra doenças como poliomielite, difteria, tétano e coqueluche não foram incluídas na pesquisa, por isso, o impacto da vacinação como um todo pode ser ainda maior do que o calculado.

Os resultados foram publicados em janeiro de 2021 no periódico The Lancet.

Em um comentário que acompanha o estudo, os Drs. Adam L Cohen, Minal K Patel e Thomas Cherian comentaram que o impacto da vacinação na mortalidade apresentado na pesquisa está, na verdade, subestimado, por dois motivos principais. O primeiro é que cerca de 31% da população mundial vive em países que não foram incluídos na pesquisa e o segundo motivo deve-se ao fato de apenas 10 vacinas terem sido incluídas na estimativa, deixando de fora, por exemplo, as vacinas contra coqueluche e influenza, doenças potencialmente graves, especialmente em crianças.

Eles também destacaram que "medidas diretas de óbitos e de doença através de registros de nascimento e vigilância são desafiadoras em muitos países", ressaltando a importância do uso dos modelos matemáticos pelos autores para a avaliação desses aspectos.

Perspectivas para o Brasil

Em uma entrevista recém-publicada pelo Medscape, a Dra. Carla Domingues, que coordenou o PNI de 2011 a 2019, reafirmou as preocupações sobre a redução da cobertura vacinal nos últimos anos, e trouxe mais uma questão à tona: a possível escassez de insumos para a vacinação ao longo de 2021.

A compra de seringas e agulhas pelo Ministério da Saúde para a aplicação da vacina contra o SARS-CoV-2 é um problema que vem sendo discutido nos últimos meses, mas ainda sem solução. Segundo a Dra. Carla, a preocupação é que insumos que seriam usados para a aplicação de demais vacinas do PNI sejam redirecionados para a vacinação contra a covid-19.

"Precisamos ter muito cuidado em utilizar as seringas adquiridas para a rotina do calendário nacional na vacinação contra covid-19", enfatizou. "Não podemos deixar de fazer as outras vacinações. Se isso acontecer, podemos ter surtos de outras doenças, a exemplo do que aconteceu com o sarampo", explicou a Dra. Carla.

A Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos (Abimo) vem alertando , desde agosto de 2020, sobre o problema. Segundo informações da associação, uma campanha de vacinação em massa para a covid-19 levaria a uma necessidade adicional de pelo menos 300.000.000 de seringas para um período de três a quatro meses.

Entretanto, a capacidade produtiva atualmente é de 50.000.000 em cinco meses.

A Frente Nacional de Prefeitos (FNP) também se manifestou sobre a questão no começo de janeiro de 2021, reafirmando que os estoques de seringas e agulhas mantidos pelos municípios destinam-se a diversos procedimentos, entre eles, a vacinação do PNI, e que é importante garantir uma logística de reposição para que este estoque seja usado na campanha contra o coronavírus.

No entanto, o Dr. Renato Kfouri, membro Comitê Técnico Assessor do PNI e presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), não acredita que os insumos serão um problema.

"Nós temos tempo suficiente para ir adequando as nossas compras às nossas demandas", explicou. "Os insumos serão consumidos aos poucos, há tempo para adequação, de busca no mercado, de produção".

Mas ele concordou que a manutenção das demais imunizações do PNI pode ser um desafio do ponto de vista de organização, principalmente em face da queda da adesão, especialmente em crianças.

Outra estratégia que ainda precisa ser definida é como organizar a campanha da vacina contra influenza. "Até o momento não há estudos de aplicação simultânea com as vacinas contra covid-19 e gripe, demonstrando que não há nenhuma interferência quando são aplicadas juntas", destacou o Dr. Renato.

"Esses estudos seriam muito desejáveis para nós do hemisfério sul, que vamos iniciar a campanha de vacinação contra a gripe a partir de abril", concluiu.

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