Coronasomnia: insônia incontrolável e automedicada preocupa os especialistas em medicina do sono

Neil Osterweil

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4 de fevereiro de 2021

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Entre as muitas perdas sofridas por milhões de pessoas no mundo todo durante a pandemia da covid-19, a perda do sono pode ser a mais difundida, com consequências potencialmente duradouras e prejudiciais para a saúde física, mental e emocional, apontaram pesquisadores em medicina do sono.

Os resultados de vários estudos e pesquisas realizados durante a pandemia mostram que a maioria dos participantes tem relato de alterações clinicamente significativas da qualidade do sono, dos padrões de sono e dos distúrbios do sono.

Por exemplo, um estudo transverso internacional feito entre o final de março e o final de abril de 2020 revelou que entre mais de 3.000 participantes de 49 países, 58% se queixaram de insatisfação com a qualidade do sono e 40% referiram piora da qualidade do sono durante a pandemia, em comparação com o sono antes da covid-19, segundo Uri Mandelkorn, psicólogo da Clínica do Sono Natural de Jerusalém, e colaboradores.

"Em particular, esta pesquisa indica a necessidade de rastreamento da piora dos padrões de sono e do uso de auxílios para dormir pelas populações mais suscetíveis identificadas neste estudo, a saber, as mulheres e as pessoas com meios de vida instáveis ou fazendo quarentena estrita. Os profissionais de saúde devem dar especial atenção aos problemas físicos e psicológicos que este aumento dos distúrbios do sono pode causar", escreveram os autores. O artigo foi publicado no periódico Journal of Clinical Sleep Medicine.

Dormir mais ou menos

Um coautor desse estudo, o Dr. David Gozal, médico pneumologista pediátrico e especialista em medicina do sono na Universidade de Missouri nos EUA, disse que a pandemia teve efeitos paradoxais nos padrões de sono de muitas pessoas.

"No começo, nas fases iniciais do confinamento por causa da covid-19, houve realmente um ganho para a maioria das pessoas cujo trabalho não foi comprometido e que não perdeu o emprego, nem estava ansiosa por causa do desemprego ou da perda de renda. As pessoas começaram a referir ter mais sono e, sobretudo, sonhos mais vívidos e coisas dessa natureza", disse Dr. David em uma entrevista.

"Mas à medida que o confinamento persistiu, vimos cada vez mais pessoas com dificuldade de conciliar e manter o sono, usando mais medicamentos para induzir o sono, como hipnóticos, e vimos um aumento de 20% do consumo geral de medicamentos para dormir", disse o especialista.

Resultados semelhantes foram observados em uma enquete transversa com 843 adultos no Reino Unido, revelando que cerca de 70% dos participantes referiram alguma modificação do padrão de sono, apenas 45% relataram ter sono reparador e 46% disseram ter mais sono durante o confinamento do que antes. Dois terços dos entrevistados disseram que a pandemia teve repercussões na sua saúde mental, e um quarto informou aumento do consumo de bebidas alcoólicas durante o confinamento. Os que tiveram suspeita de infecção pelo SARS-CoV-2 se queixaram mais de pesadelos e de alterações do sono.

É possível que os efeitos da infecção pelo SARS-CoV-2 sobre o sono possam persistir muito tempo depois da resolução da própria infecção, sugerem os resultados de um estudo de coorte da China. Como publicado no periódico Lancet, entre 1.655 pacientes que tiveram alta do hospital Jin Yin-tan em Wuhan, 26% informaram ter distúrbios do sono seis meses após a covid-19 aguda.

Automedicação

Entre os 5.525 canadenses entrevistados de 03 de abril a 24 de junho de 2020, grande parte informou usar medicamentos para dormir, disse a Dra. Tetyana Kendzerska, Ph.D., professora assistente de medicina no departamento de estudos da respiração na University of Ottawa.

"No momento da conclusão da pesquisa, 27% dos participantes informaram tomar medicamentos para dormir (controlados ou de venda livre); em toda a amostra, 8% dos que responderam disseram ter aumentado a frequência do uso dos medicamentos para dormir durante a epidemia em comparação a antes", disse a médica em uma entrevista.

Muitas pessoas recorrem à automedicação com substâncias de venda livre, como a melatonina e medicamentos de uso noturno contendo difenidramina como o Benadryl®, anti-histamínico de primeira geração com propriedades sedativas, observou o Dr. Kannan Ramar, médico intensivista, pneumologista, especialista em medicina do sono na Mayo Clinic e atual presidente da American Academy of Sleep Medicine nos EUA.

"Quando as pessoas se automedicam para o que pensam ser dificuldade de dormir, a preocupação é que, mesmo que já tenham o diagnóstico de insônia, possa haver outra doença do sono que ainda não tenha sido diagnosticada, o que poderia causar o problema da insônia", disse o especialista em uma entrevista.

"Por exemplo, a apneia obstrutiva do sono pode fazer com que as pessoas despertem no meio da noite ou até mesmo contribuir para a dificuldade de conciliar o sono. Assim, medicar algo sem diagnóstico pode deixar uma doença do sono sem tratamento, o que não ajuda o paciente nem em curto nem em longo prazo", disse o Dr. Kannan.

Causas de preocupação

"Temos vistos vários problemas de sono ocorrerem em pacientes com covid-19. Esses problemas não foram descritos no estudo em tela, mas na prática clínica e em estudos subsequentes publicados em outros locais", disse Dr. David.

"Pessoas que tiveram covid-19, e até mesmo pessoas que supostamente ficaram muito bem e estavam praticamente assintomáticas, ou talvez tivessem apenas cefaleia ou febre, mas não precisaram ir para o hospital, muitas dessas pessoas se queixaram de sonolência excessiva durante muito tempo, e dormiam de duas a três horas mais por noite. O contrário também foi descrito: pacientes que depois de se recuperarem diziam que não conseguiam mais dormir – estavam dormindo quatro ou cinco horas por noite quando costumavam dormir sete ou oito horas", disse o médico.

Também não está claro pelas evidências atuais se o aumento descrito dos problemas de sono está relacionado com o que Dr. David disse sobre a insônia em tempos de covid-19, que poderia ser atribuída a uma série de fatores, como menor exposição diária à luz natural das pessoas que permanecem dentro de casa, o estresse relacionado com as preocupações de ordem financeira ou com a saúde, a depressão ou outros fatores psicológicos.

Também é possível, entretanto, que as alterações fisiológicas relacionadas com a covid-19 possam contribuir para os distúrbios do sono, disse o coautor, indicando um recente estudo publicado no periódico Journal of Experimental Medicine mostrando que o SARS-CoV-2, o vírus que causa a covid-19, pode se ligar aos neurônios e promover alterações metabólicas tanto nas células infectadas como nas células adjacentes.

"Minha suposição é que algumas dessas alterações estejam mais relacionadas com consequências comportamentais – as pessoas evoluem com depressão, alterações do humor, ansiedade, e assim por diante, e todas podem se traduzir como dificuldade de dormir", disse o autor.

"Pode ser que em alguns casos – não muito comumente – o vírus atinja as regiões cerebrais que controlam o sono e que, portanto, possamos observar muito ou muito pouco sono, e como diferenciar entre todos estes quadros é exatamente o ponto que precisa ser explorado, particularmente à luz da descoberta de que o vírus pode se ligar às células cerebrais e causar disfunção importante nessas células".

Comprometimento da imunidade

Tem sido bem documentado que, além de ser, como disse Shakespeare, "o bálsamo das mentes sofredoras", o sono tem um papel importante de suporte ao sistema imunitário.

"O sono e a imunidade andam lado a lado", disse o Dr. Kannan. "Quando as pessoas têm um sono adequado, o seu sistema imunitário é reforçado. Sabemos que existem bons dados sobre as vacinas contra a hepatite A e a hepatite B e, recentemente, a vacina contra a gripe, que se as pessoas tiverem uma quantidade suficiente de sono antes e depois de serem vacinadas, a probabilidade de montarem uma resposta imunitária a essa vacina em particular tende a aumentar".

É razoável supor que o mesmo se aplique à vacinação contra a covid-19, mas isso ainda não foi comprovado, acrescentou.

"Sabemos, pelos estudos anteriores, que problemas persistentes de sono podem tornar as pessoas mais suscetíveis à infecção ou prejudicar sua recuperação; ainda não, ao que eu saiba, em relação à covid-19", disse a Dra. Tetyana.

"Em nosso estudo, descobrimos que, entre outros fatores, ter algum tipo de doença crônica foi associado a novas dificuldades de sono durante a pandemia. Não examinamos separadamente se as dificuldades de sono foram associadas à infecção ou aos sinais e sintomas da covid-19, mas esta é uma excelente questão a ser abordada com os dados longitudinais que dispomos".

O que fazer?

Os três especialistas do sono contatados pelo autor deste artigo concordaram que para os pacientes com insônia, a diminuição do estresse por meio de técnicas de relaxamento ou da terapia cognitivo-comportamental é melhor do que tomar medicamentos.

"Todo medicamento tem efeitos colaterais, inclusive os medicamentos de venda livre e se alguém estiver tomando um medicamento que contém estimulantes, como a pseudoefedrina formulada em combinações com anti-histamínicos, isso pode contribuir para, ou exacerbar, qualquer distúrbio do sono existente", disse o Dr. Kannan.

A Dra. Tetyana recomendou reservar os medicamentos como a melatonina, tratamento cronobiótico, para os pacientes com distúrbios do sono relacionados com problemas do ritmo circadiano, inclusive retardo de uma fase do sono. O tratamento complementar em curto prazo com hipnóticos como zolpidem, eszopiclona ou zaleplona deve ser usado apenas como último recurso, disse a médica.

Os especialistas em medicina do sono recomendam uma boa higiene do sono como a melhor forma de obter um sono reparador, como horários regulares para dormir e acordar, diminuir a exposição a notícias estressantes (inclusive histórias sobre a covid-19), reduzir o consumo de bebidas alcoólicas e estimulantes, como café ou bebidas contendo cafeína, evitar o uso de dispositivos eletrônicos na cama ou perto da hora de dormir, e ter um estilo de vida saudável, inclusive em termos de alimentação e prática de exercícios.

Os especialistas também fazem cara feia para a automedicação com substâncias de venda livre, porque esses produtos podem não tratar o problema, como observado anteriormente.

"Também é previsível que possa haver um aumento do número de pessoas que precise de orientação profissional para fazer o desmame dos medicamentos para dormir iniciados ou cuja dose foi aumentada durante a pandemia. Embora alguns desses problemas de sono possam ser transitórios, deve ser alta prioridade assegurar que não evoluam para distúrbios crônicos do sono", escreveram Dra. Tetyana e colaboradores.

Caminhos para pesquisas

Se há alguma coisa que faça com que os especialistas percam o sono, é a ausência de dados ou de evidências para orientar o tratamento clínico e a pesquisa. O Dr. David enfatizou que pouco se sabe ainda sobre os potenciais efeitos da covid-19 no sistema nervoso central e disse que este deveria ser um foco importante de pesquisa sobre o ainda novo coronavírus.

"O que acontece depois da covid-19 e como isso pode impactar a recuperação é uma grande questão e não me parece que tenhamos bons dados a esse respeito", disse o Dr. Kannan.

"O que sabemos é que os pacientes apresentam fadiga, alterações do sono, até mesmo febre contínua e, infelizmente, isso pode durar muito tempo, mesmo entre os pacientes que de outra forma se recuperaram da covid-19. Sabemos que deixar isso sem tratamento do ponto de vista do transtorno do sono pode exacerbar os sinais e sintomas diurnos, e é aí que eu recomendaria fortemente que os pacientes procurem ajuda de um especialista em medicina do sono ou, se houver outros sinais e sintomas além da insônia, pelo menos de um médico do atendimento primário".

Este conteúdo foi originalmente publicado no Mdedge.com – Medscape Professional Network.

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