Como a pele de tilápia é usada para vaginoplastia e redesignação sexual

Roxana Tabakman

Notificação

29 de janeiro de 2021

O uso da pele de tilápia na vaginoplastia é fruto de uma extensa pesquisa sobre a utilidade deste material biológico para finalidades médicas, especialmente para a cicatrização em caso de queimaduras.

"Nós utilizamos pela primeira vez no mundo uma prótese de animal aquático em ginecologia. Surge com a perspectiva de ter altíssima biocompatibilidade e risco quase zero de contaminação", disse ao Medscape o líder do projeto, Dr. Leonardo Bezerra, cirurgião ginecologista e professor-adjunto da Universidade Federal do Ceará (UFC).

O Dr. Leonardo informou que a técnica aplicada ao procedimento com pele de tilápia é a mesma de quando se usa pele humana. De acordo com o médico, os cirurgiões constroem um novo canal vaginal, mas, em vez de cobrirem com a pele da paciente, eles utilizam duas camadas de pele de tilápia liofilizada, quimio-esterilizada e radio esterilizada.

A equipe já operou com sucesso 18 pacientes, a maioria com agenesia vaginal devido a uma rara doença congênita, a síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hauser (MRKH). "Ter esse grupo de pacientes operadas no Ceará com bons resultados levou a se pensar em outras possibilidades", relatou o Dr. Edmar Maciel, cirurgião plástico idealizador e pioneiro da pesquisa com pele de tilápia para fins medicinais na UFC.

Além da reconstrução do canal vaginal em casos de síndrome de MRKH, [1] a pele de tilápia foi utilizada em uma paciente com sequelas de tratamento de câncer (estenose produzida por radiação), [2]  e na reconstrução do canal vaginal de uma paciente cujo procedimento de redesignação sexual realizado alguns anos antes havia sido malsucedido. [3] Foi então que o Dr. Edmar foi convocado por um cirurgião plástico de Cali, na Colômbia, que teve a ideia de utilizar o material para a cirurgia de redesignação sexual genital de homem para mulher.

"Fui para Cali, levei as peles e participei das primeiras cirurgias, que tiveram ótimos resultados", contou o Dr. Edmar.

O Dr. Álvaro H. Rodriguez publicou a experiência [4] e, um ano e meio mais tarde, já tem mais de 40 pacientes operadas na Colômbia, 90% cirurgias primárias. Ressaltando o fato de o tempo de acompanhamento da coorte não ser homogêneo, o Dr. Álvaro afirmou que o procedimento resulta em uma vagina com profundidade, sensibilidade e estética adequadas. "Hoje, faço 95% das cirurgias de redesignação sexual de homem para mulher com pele de tilápia", disse ao Medscape o diretor do Centro Especializado en Cirugía Mamaria y Cirugía Transgénero (CECM), na Colômbia.

Na UFC, "todas as neovaginoplastias em pacientes com síndrome de MRKH são realizadas com pele de tilápia liofilizadas", disse o Dr. Leonardo, acrescentando que o serviço ainda não faz a cirurgia de redesignação sexual. De acordo com o médico, a UFC conta com uma equipe multidisciplinar que oferece acolhimento e hormonioterapia para pacientes da rede pública que desejam fazer a cirurgia de redesignação de sexo, mas o serviço ainda não recebeu autorização do governo do estado para realizar o procedimento cirúrgico.

"A cirurgia com pele de tilápia é mais simples, prática, rápida e com recuperação muito melhor do que a realizada hoje. É muito promissora para mulheres que precisam fazer uma neovagina, reconstruir a vagina ou em caso de redesignação sexual. É uma perspectiva boa, sendo feita de maneira experimental, mas já com vários casos e resultados muitos bons", disse ao Medscape o Dr. Jorge M. Haddad, médico, professor livre docente de ginecologia, chefe do Departamento de Ginecologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e presidente da Associação Internacional de Uroginecologia.

A respeito da segurança, o Dr. Jorge comentou que não houve nenhuma rejeição, nem necessidade de usar imunossupressores, mas alertou que ainda são necessários mais casos e mais tempo de avaliação. Estudos multicêntricos randomizados já estão sendo projetados, inclusive com a participação do Hospital das Clínicas da USP.

A cirurgia

Hoje o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a readequação de sexo e gênero por meio da cirurgia de redesignação genital em mulheres transexuais e travestis. A técnica mais realizada é a inversão peniana, na qual a pele da haste peniana e do saco escrotal passa a revestir a neovagina e pode-se somar um segmento da uretra para criar lubrificação vaginal. Quando não há pele peniana suficiente para inversão – ou quando é necessária reabordagem cirúrgica – o método de escolha é a vaginoplastia intestinal, que utiliza um segmento de 15 cm a 20 cm do íleo ou do colo sigmoide para revestir o canal vaginal. A vaginoplastia com enxerto de pele dos dois lados da virilha pode ser realizada isoladamente, ao mesmo tempo que a inversão peniana ou em reabordagem cirúrgica com o objetivo de aumentar a largura e a profundidade da vagina. A mucosa oral e o peritônio dissecado da bexiga ou do reto também são utilizados, mas principalmente para reabordagem cirúrgica. [5]

Com a pele de tilápia, o processo cirúrgico leva no máximo 30 minutos e é definido pelos profissionais como simples e minimamente invasivo. Após ser colocada com o molde para proliferação e crescimento celular, em quatro a seis semanas a pele de tilápia é transformada em epitélio estratificado. Os estudos indicam que a histologia, assim como as avaliações imuno-histoquímicas (citoqueratina como marcador de superfície de epitélio vaginal), da pele de tilápia é semelhante à do epitélio vaginal.

"Todas as pacientes conseguiram ter atividade sexual com lubrificação e percepção da penetração semelhante ao epitélio vaginal normal", disse o Dr. Leonardo.

Vantagens

As técnicas convencionais que precisam obter tecido de outros órgãos aumentam o tempo de cirurgia e internação, a morbidade e geram cicatrizes que, com frequência, geram problemas. O resultado do procedimento é pior, porque a falta de material tem como consequência uma vagina encurtada. Nada disso acontece com a utilização de epitélio da pele de tilápia como arcabouço e suporte para o desenvolvimento do epitélio vaginal.

O Dr. Álvaro acrescentou outras vantagens: "As mulheres que começam a terapia hormonal desde muito jovens têm atrofia genital, pênis curto e pouco tecido escrotal. Nelas, é um desafio fazer uma vagina de boa profundidade. E também é necessário que a paciente tenha realizado depilação permanente na pele escrotal. O problema não é apenas o custo ou a ausência de eficácia caso o pelo seja claro, mas o fato de o pelo poder crescer na cavidade vaginal, causando infecção e mau cheiro." Isso não acontece com a pele de tilápia.

Além disso, reforçou o cirurgião, a pele de tilápia produz mucosa e lubrificação natural. Ele contou que, segundo as pacientes, inclusive profissionais do sexo, elas não necessitam de lubrificação adicional. Outra vantagem de não ter limitações na quantidade de pele consiste no fato de a profundidade máxima poder ser determinada de acordo com a anatomia de cada paciente.

Ele também pontuou: "E, isso ainda precisa ser comprovado, mas, na minha experiência, em comparação com a vagina das mulheres cis gênero, há menos infecção vaginal."

Segundo os pesquisadores, as análises microbiológicas revelam uma microbiota totalmente diferente da humana. "É uma vantagem sobre as próteses de mamífero que estão no mercado, por exemplo, de intestino suíno e pericárdio bovino. Na tilápia temos um alto grau de esterilização, e a estrutura é mantida íntegra, mas sem possibilidade de contaminação cruzada com a microbiota do ser humano", explicou o Dr. Leonardo.

A pele de tilápia é um material de baixo custo. Aliás, em geral, é descartado pela indústria pesqueira. O custo é do processamento posterior, em que o material passa por um rigoroso processo de limpeza, descontaminação, radioesterilização, liofilização e testes (microbiológicos, histológicos e de toxicidade celular).

Em relação às dúvidas mais frequentes dos médicos e das pacientes, os entrevistados responderam a mesma coisa; tanto os médicos como as pacientes "perguntam se tem cheiro de peixe e escamas". A resposta para ambas as perguntas é não.

As pacientes também demonstram preocupação com as dimensões e a sensibilidade do órgão. Os profissionais de saúde indagam sobre o tempo até a formação do epitélio. A resposta é entre três e seis meses, dependendo da quantidade de pele de tilápia utilizada.

Inovação

O uso da pele de tilápia para finalidades médicas levou seis anos sendo pesquisado no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da Faculdade de Medicina da UFC, em parceria com o Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ). As peles, provenientes de peixes criados em tanques de água doce, são doadas por uma psicultura, a Bomar, situada no litoral cearense. O material é processado e testado nos laboratórios da UFC e a radioesterilização é feita em São Paulo, no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN).

"Já temos 66 projetos e 242 colaboradores distribuídos no Brasil e em outros países (Estados Unidos, Alemanha, Holanda, Colômbia, Guatemala e México) coordenados desde Brasil", ressaltou o Dr. Edmar. As pesquisas na ginecologia começaram no final de 2017 na Maternidade Escola Assis Chateaubriand e até agora as cirurgias são feitas unicamente sob protocolo de pesquisa clínica.

"Hoje recebemos pacientes do país inteiro em Fortaleza. Nossa intenção é, após a pandemia, criar bancos de pele de tilápia em outros estados do Brasil para que o procedimento seja feito em outros centros. Precisamos de pelo menos cinco anos de acompanhamento dessas pacientes para ver os resultados, além de terminar os estudos de genética e epigenética."

Este último é bem importante, porque a expectativa é que a pele da tilápia se "transforme" em epitélio vaginal, mas ainda não se sabe exatamente o que acontece.

"Estamos prosseguindo com as avaliações genéticas e epigenéticas, nossa dúvida é se epitélio de tilápia se transformou ou se é epitélio de mesênquima da paciente. Minha hipótese é que a pele de tilápia com o tempo é degradada e some, mas só após estimular o recrutamento de células tronco", observou o Dr. Leonardo.

Além da vaginoplastia e do tratamento de queimados, o uso da pele de tilápia está sendo estudado em outros contextos, como procedimentos odontológicos e veterinários ou scaffolds (suportes estruturais) para a produção de válvulas cardíacas e telas para reparos de tendões e hérnias abdominais.

"Há três anos desenvolvemos a matriz dérmica ou scaffold, um arcabouço já sem as células de peixe, que está em estudo em 13 especialidades médicas na UFC. Algumas das pesquisas da prótese biológica da pele de tilápia são realizadas em modelos animais. Como a da busca de uma solução para o tratamento da hérnia abdominal. "Pretendemos fazer faixas para levantamento de útero e bexiga. Os produtos usados hoje em dia são importados e muito caros. Se tudo correr bem, vamos desenvolver produtos para a rede pública brasileira", revelou o Dr. Edmar.

Siga @roxanatabakman no Twitter

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....