Diagnóstico e tratamento de transtornos alimentares: Novas diretrizes da AAP

Jill Pivovarov

Notificação

27 de janeiro de 2021

Durante muito tempo os transtornos alimentares foram considerados uma doença que acometia principalmente as jovens adolescentes brancas e ricas, mas na verdade, não existe realmente nenhum perfil para a doença, disse a Dra. Laurie L. Hornberger, médica e primeira autora de um novo artigo sobre transtornos alimentares em crianças e adolescentes preparado pela American Academy of Pediatrics Committee on Adolescence.

Em uma entrevista para o periódico Pediatric News, a Dra. Laurie, que é professora associada de pediatria da University of Missouri–Kansas City, nos Estados Unidos, explicou que os transtornos alimentares ocorrem em todas as diferentes raças, etnias, sexos e camadas socioeconômicas, de modo que "cair nesse estereótipo pode fazer com que você não identifique problemas importantes nas crianças". Os pediatras estão na linha da frente da identificação e do encaminhamento dos transtornos alimentares para tratamento, o que é crucial para a detecção e a intervenção precoces que trazem melhores resultados, disse a autora.

"Quando você se familiariza com os sinais e sintomas dos transtornos alimentares e começa a rastreá-los ativamente, você percebe como são comuns", observou a médica, acrescentando que os pediatras devem indagar de rotina questões acerca da imagem corporal, das tentativas de controle do peso e do que é feito para esse controle.

Tentativas de restringir as calorias, limitar as escolhas ou categorias de alimentos, se exercitar compulsivamente, forçar o vômito, abusar de laxantes e etc., são, todos esse, sinais. Se a criança e/ou adolescente sentir culpa ao comer, sentir necessidade de compensar o que comeu com exercícios ou purgantes, estiver preocupado pensando na contagem dos alimentos ou das calorias, sentir que perdeu o controle da sua alimentação ou apresentar episódios incontroláveis de consumo compulsivo de alimentos durante os quais não consegue parar de comer apesar de estar satisfeito e de quererem parar, tudo isso constitui evidências adicionais de transtorno alimentar, acrescentou.

Existem também os indícios físicos para alertar os pediatras. Aumento ou diminuição súbito ou acentuado do peso na curva de crescimento devem ser monitorados e questionados, advertiu a Dra. Laurie. Os médicos devem ter prudência e não elogiar a perda ponderal até saber como foi alcançada.

"Sinais vitais, como bradicardia em repouso e taquicardia ortostática podem refletir desnutrição, bem como outros achados físicos. Embora os exames laboratoriais costumem estar normais, isso não deve, por si só, descartar o transtorno alimentar. O pediatra também deve estar ciente dos sinais e sintomas de instabilidade clínica em pacientes com transtorno alimentar com indicação de hospitalização para reequilibrar o quadro nutricional", explicou.

Número de transtornos alimentares aumentou em 2020

A atual pandemia tem revelado um aumento do número de encaminhamento e longas listas de espera para os centros de transtornos alimentares, observou a Dra. Laurie. Ter um programa formal de tratamento do transtorno alimentar nas proximidades é um luxo do qual nem todas as comunidades dispõem, de modo que poder contar com os pediatras do atendimento primário como parte ativa da equipe de tratamento, idealmente formada por um profissional da saúde mental e um nutricionista, ambos com experiência em transtorno alimentar, é muito importante. De modo coordenado com a equipe, o pediatra é responsável por monitorar a recuperação física e permanecer alerta para os sinais de empenho em se recuperar e da necessidade de um nível de atendimento mais complexo.

Em outra entrevista para a Pediatric News, a Dra. Margaret Thew, DNP, enfermeira e diretora médica da medicina do adolescente na Medical College of Wisconsin,nos EUA, observou que "a covid-19 gerou uma multidão de crianças e adolescentes lutando com os transtornos alimentares. Os números dos transtornos alimentares têm sido associados com as campanhas nas redes sociais contra o ganho ponderal relacionado com a covid-19 e a promoção pelos influenciadores digitais de uma imagem corporal magra".

O súbito fim do aprendizado presencial, da participação desportiva e a ansiedade generalizada influenciaram ainda mais a saúde mental e os comportamentos do transtorno alimentar. No início da pandemia, não sabíamos a verdadeira magnitude das consequências no bem-estar psicossocial das crianças e adolescentes. Só agora estamos vendo a repercussão dos meses de pandemia. A publicação oportuna das diretrizes da American Association of Pediatrics (AAP) para a identificação e o tratamento das crianças e adolescentes com transtorno alimentar é fundamental para o seu reconhecimento e tratamento", disse a professora.

"Felicito a AAP por apresentar diretrizes no momento oportuno sobre a avaliação e o tratamento dos transtornos alimentares para o pediatra, no entanto, me parece que os autores ficaram aquém no reconhecimento dos desafios de lidar com o transtorno alimentar", acrescentou a Dra. Margaret.

"O tratamento da alimentação desordenada exige que todos os envolvidos aceitem o diagnóstico e deixem de ser coniventes com padrões alimentares pouco saudáveis. A racionalização do ambiente nos casos da alimentação desordenada pode exigir mudanças para inibir os comportamentos prejudiciais e melhorar a nutrição", advertiu.

As novas diretrizes oferecem uma gama de recursos diagnósticos e terapêuticos

Na elaboração do artigo em tela, os autores incluíram as definições mais recentes dos transtornos alimentares descritas na 5a edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, sigla do inglês Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th Edition). Foi dada atenção especial a quatro classificações de transtornos alimentares em particular – anorexia nervosa (AN), transtorno alimentar restritivo evitativo (TARE); transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP); e bulimia nervosa (BN) – porque vários transtornos são subclassificações destes critérios.

Além de fornecer uma lista de definições abrangente, as orientações analisam os dados da prevalência dos transtornos alimentares e trazem diretrizes detalhadas de rastreamento, avaliação e avaliação laboratorial. As complicações clínicas, como efeitos psicológicos, neurológicos, dermatológicos, odontológicos e/ou orais, cardiovasculares, gastrointestinais, renais, eletrolíticos e endócrinos, são discutidas em detalhes, assim como os fundamentos do tratamento, as questões financeiras e o prognóstico.

Além dos importantes papéis de prevenção e ativismo que os autores identificam para os pediatras, as diretrizes destacam quatro áreas determinantes nas quais os pediatras desempenham um papel fundamental no rastreamento e tratamento dos transtornos alimentares, como descrito anteriormente pelos autores das orientações em tela.

Em um comunicado à imprensa da AAP, a Dra. Margo Lane, médica e coautora das diretrizes, destacou: "Como pediatras, há muito que podemos fazer fora do consultório para defender nossos pacientes, por meio da legislação e de políticas que subsidiem serviços, como assistência médica, intervenção nutricional, tratamento da saúde mental e coordenação do atendimento." Os médicos também podem desempenhar um papel importante na reprogramação das atitudes e comportamentos familiares e da sociedade, incentivando uma linguagem mais positiva que tire a ênfase do peso corporal e acolha e celebre as crianças de todas as formas e tamanhos, acrescentou Dra. Margo.

A Dra. Laurie L. Hornberger e colaboradores, bem como a Dra. Margaret Thew, informaram não ter conflitos de interesses financeiros relevantes.

FONTE: Pediatrics. 2021;147(1):e2020040279. doi: 10.1542/peds.2020-040279.

Este artigo foi publicado originalmente no MDedge.com , parte da Medscape Professional Network.

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