COMENTÁRIO

Transmissão vertical de câncer de colo do útero

Dra. Maria Gabriela Baumgarten Kuster Uyeda

Notificação

26 de janeiro de 2021

A semana começou com uma surpresa devido à publicação no periódico The New England Journal of Medicine (NEJM) de um relato de dois casos de câncer de pulmão pediátrico (em um menino de quase dois anos de idade e em outro de seis anos) resultantes da transmissão vertical de câncer de colo do útero.

Muito já foi discutido sobre a realização de partos cesáreos em pacientes com verrugas anogenitais para evitar a papilomatose respiratória juvenil. Após revisões de literatura demonstrarem que o DNA do papilomavírus humano (HPV, sigla do inglês Human Papilomavirus) já foi identificado mesmo em recém-nascidos de partos cesáreos eletivos, decidiu-se pelo parto por via obstétrica (indica-se cesariana em caso de distocia por obstrução do canal vaginal).

Portanto, visto que existe uma incidência de morbidade associada ao parto cesáreo e não há comprovação de que esta modalidade previna a transmissão do HPV, não é recomendado realizar parto cesáreo em mulheres com verrugas anogenitais apenas para prevenir JRP ou a transmissão vertical do HPV.

E, esta era a modalidade realizada em caso de câncer de colo do útero. Esta via obstétrica é escolhida caso o tumor não obstrua a passagem ou não indique que irá causar grandes hemorragias para a parturiente.

Porém, o artigo publicado no periódico NEJM traz informações e comprovações que não existiam na literatura.

Os dois casos relatados foram de câncer de pulmão em crianças causado por transmissão da neoplasia maligna do colo do útero das mães das crianças. A transmissão foi demonstrada pelo fato de os tumores nas duas crianças do sexo masculino não terem o cromossomo Y e compartilharem com tumores das mães várias mutações somáticas, um genoma de HPV e alelos SNP (que não foram herdados na linha germinativa das crianças).

Além disso, o padrão de crescimento peribrônquico do tumor em ambas as crianças sugere que os tumores sejam provenientes da transmissão vaginal de mãe para filho por meio da aspiração de fluidos vaginais contaminados por neoplasia durante o nascimento.

Nos dois pacientes descritos, os tumores foram observados apenas nos pulmões e foram localizados ao longo dos brônquios. É provável que as células tumorais maternas estivessem presentes no líquido amniótico, secreções ou sangue do colo do útero, e tenham sido aspiradas pelos bebês durante o parto vaginal. Diferentemente de outros casos raros de transmissão vertical de câncer, os pacientes destes casos apresentam múltiplas metástases disseminadas no cérebro, nos ossos, fígado, nos pulmões e nos tecidos moles; sendo consistente com a teoria de disseminação hematogênica presumidamente da placenta.

Esses casos indicam que a transmissão vertical do câncer de colo do útero é possível durante o parto vaginal, portanto, é necessário que se inicie a discussão entre especialistas sobre a mudança da via de parto em mulheres com esse diagnóstico.

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