COMENTÁRIO

Contemplando a aposentaria durante a covid-19

Dr. Andrew N. Wilner

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20 de janeiro de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

A primeira pandemia

Lembro-me com detalhes de um jovem rapaz desnutrido cujos lábios e leitos ungueais azulados eram como uma descrição de livro de hipóxia. Sua tomografia computadorizada de tórax revelou uma opacidade em "vidro fosco", que reconhecemos como incompatível com a vida. Eu lhe expliquei, vacilante, que com base em minha experiência, ele iria morrer. Ele poderia prolongar sua vida com um ventilador ou simplesmente deixar acontecer. Seus olhos se arregalaram ao ouvir a chocante notícia de seu sufocamento iminente. Ofereci minhas condolências, mas relutantemente, tive que voltar correndo para um departamento de emergência lotado.

Era 1983 e eu era residente de medicina interna no Los Angeles County Hospital, Estados Unidos. Homens jovens e magros chegavam ao pronto-socorro tão doentes que não podiam mais cuidar de si mesmos. Alguns apresentavam diarreia há semanas e perda ponderal. Alguns tinham estranhas lesões roxas na pele. Outros com dificuldade de respirar devido a uma pneumonia inexplicada, frequentemente morriam em poucos dias.

Durante raros momentos de calma, meus colegas residentes e eu ousávamos falar sobre o que todos estavam pensando. Corremos risco? Muitas dessas almas desafortunadas trabalhavam como garçons e cozinheiros em restaurantes próximos. Será que algo contaminou a comida? Alguns pacientes confessaram ter tido centenas de parceiros sexuais. Seriam esses sintomas tão diversos decorrentes de uma nova e fatal doença sexualmente transmissível? Nós nos perguntávamos – sentindo culpa – se o contato diário com os pacientes nos levaria a uma morte coletiva.

Os fluidos corporais estavam por toda parte; as "precauções universais" como medida de segurança ainda não haviam sido propostas pelos Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Empurramos os questionamentos problemáticos para um canto de nossas mentes e seguimos com o nosso trabalho.

Os primeiros casos dessa pandemia apareceram na literatura médica em 1981. Em 1983, os pesquisadores identificaram o retrovírus responsável, HTLV-III/LAV (vírus linfotrópico de células T humanas tipo III/vírus associado à linfadenopatia). Dois anos depois, em 1985, um exame de sangue foi disponibilizado. Os CDC determinaram que o HTLV-III/LAV, agora rebatizado de vírus da imunodeficiência humana (HIV, sigla do inglês Human Immunodeficiency Virus), era responsável pela síndrome da imunodeficiência adquirida (aids, sigla do inglês Acquired Immune Deficiency Syndrome). Até a azidotimidina (zidovudina) ser disponibilizada, em março de 1987, a aids era uma sentença de morte.

Sem dormir e atrapalhado, espetei meu dedo com uma agulha enquanto coletava sangue, um acidente suficiente para me colocar em risco de aids, hepatite B e C e uma variedade de outras infecções desagradáveis. Felizmente, eu fui um dos 299 de 300 que não contraíram aids de uma agulha contaminada. Mas 1 em 300 foi. Hoje em dia, as vítimas de acidentes com agulha tomam medicação antirretroviral imediatamente, mas a profilaxia pós-exposição era ficção científica quando eu era residente. Foram meses de preocupação.

A pandemia de aids deixou de estar no centro das atenções, mas é claro que não desapareceu. Até o momento, a aids acometeu 75 milhões de pessoas em todo o mundo, com 32 milhões de mortes. Em 2019, houve 1,7 milhão de novas infecções por HIV. A terapia antirretroviral diária permite uma vida normal, mas a doença ainda diminui a expectativa de vida e acelera as comorbidades relacionadas à idade. A aids ainda é incurável e, depois de quase 40 anos, não há uma vacina. Como corretamente previsto pelos CDC quase 20 anos atrás, "a aids continuará sendo um grande desafio de saúde pública, em todo o mundo, no século XXI".

A segunda pandemia

Desta vez, foi diferente. A etiologia da doença respiratória que se originou em Wuhan, China, foi rapidamente identificada como síndrome respiratória aguda grave por coronavírus 2 (SARS-CoV-2, acrônimo do inglês Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2). Este mistério da medicina durou apenas meses, não anos. E a doença causada pelo novo coronavírus, a covid-19 (acrônimo do inglês, Coronavirus Disease 2019), pode acometer qualquer pessoa via contato casual: uma tosse no metrô, um espirro na rua. No ambiente certo, apenas respirar pode ser fatal.

Os profissionais de saúde correm mais risco de infecção apenas por comparecerem ao trabalho e exercerem suas funções. O distanciamento social é incompatível com a prática clínica – é difícil examinar um paciente estando a 1,8 m de distância. A telemedicina substituiu com sucesso as avaliações presenciais em algumas situações, mas a maioria dos pacientes hospitalizados necessita da medicina presencial. O estresse de cuidar das vítimas da pandemia levou ao suicídio de pelo menos um médico.

Diferente da pandemia de HIV, desta vez, o progresso em direção ao tratamento foi quase em "velocidade de dobra espacial". O antiviral rendesivir foi aprovado pela US Food and Drug Administration (FDA) em outubro de 2020, menos de um ano após os primeiros casos de covid-19. Em novembro, a FDA emitiu uma autorização de uso emergêncial da combinação do inibidor de Janus quinase baricitinibe + remdesivir em pacientes com covid-19 grave. A vacina covid-19 da Pfizer já foi aprovada para certas populações, e a da Moderna veio logo depois, com relatos de que ambas mostraram ser mais de 90% efetivas. Outras vacinas estão sendo criadas.

Autopreservação e... aposentadoria?

Embora eu seja um homem de 65 anos de idade, razoavelmente em forma, e com comorbidades mínimas, estou em um grupo de alto risco de doença grave e morte por covid-19. Isso é preocupante, porque meu ambiente de trabalho está repleto de um vírus infeccioso letal.

Como médico, não posso abandonar meus pacientes, mas sou obrigado a arriscar minha vida por eles? Pesquisei o juramento de Hipócrates, a consagrada declaração de ética profissional. Ele proíbe explorar pacientes e suas famílias e exige lealdade aos seus professores. Ao contrário da crença popular, o juramento de Hipócrates não exige que os médicos coloquem a vida dos pacientes acima da deles, nem mesmo aborda o tema.

A covid-19 fez com que alguns médicos pendurassem seus estetoscópios. Embora eu tenha atingido uma idade respeitável para me aposentar, esse não era o meu plano. Investi décadas em adquirir o conhecimento especializado de neurologia, habilidades clínicas e confiança para atuar como clínico e professor. Até alcancei um pouquinho de reputação nacional. Não seria uma pena desistir quando estou no melhor do meu jogo? Por outro lado, talvez isso seja apenas arrogância? Mais um médico realmente faz diferença? É difícil justificar meses na unidade de terapia intensiva com falência multissistêmica e uma morte lenta e dolorosa para ter o benefício de desfrutar alguns anos a mais de prática clínica. Em casa, tenho internet de alta velocidade e um aquário. Um retiro para o isolamento e a obscuridade seria o plano mais seguro. Isso seria covardia ou bom senso?

Engajamento

Seja por arrogância ou hábito, decidi continuar com o trabalho clínico. Para limitar minha exposição ao SARS-CoV-2, uso máscara e escudo facial. Uma garrafa de desinfetante mora no meu bolso. Meu relógio digital conta os 20 segundos recomendados quando eu lavo minhas mãos. Atendo cada paciente com compaixão, mas limitando o contato desnecessário – nada de apertos de mão ou tapinhas reconfortantes nas costas. Eu me esforço para dar exemplo aos estagiários que me acompanham nas visitas no hospital.

Dr. Andrew N. Wilner

Minha esposa e filho ficam em casa praticamente o tempo todo. Na tentativa de mantê-los livres do vírus, a máquina de lavar e o chuveiro são as minhas primeiras paradas após o trabalho. É horrível perceber que, para os meus familiares, a maior ameaça de covid-19 vem da pessoa que mais os ama.

Até agora, sobrevivi a duas pandemias. Nenhuma delas acabou. O treinamento como médico durante os primeiros anos da pandemia de aids me deu lições de compaixão, humildade e sobrevivência. Estou tentando aplicar o que aprendi todos os dias enquanto todos nós confrontamos a covid-19.

Assim que houver uma vacina efetiva e um número suficiente de pessoas recebê-la, a covid-19 seguirá o caminho da poliomielite, uma doença mais comum nos livros didáticos do que na clínica. Até então, milhares, senão milhões, morrerão devido ao timing ruim, pegando o vírus antes que uma vacina ou tratamento estejam disponíveis.

Eu aceito as defesas imperfeitas de lavar as mãos, distanciar-se socialmente e usar máscaras. Imploro para que outros façam o mesmo até que uma terapia efetiva e uma vacina estejam disponíveis. Precisamos retornar às nossas rotinas, esperanças e sonhos e nos preparar para a próxima pandemia.

O Dr. Andrew N. Wilner é professor de neurologia no University of Tennessee Health Science Center, nos EUA.

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