Estudo nos EUA analisa como e onde crianças e adolescentes estão sendo expostos à covid-19

Jill Pivovarov

Notificação

19 de janeiro de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso  Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Crianças e adolescentes que testaram positivo para covid-19 não só apresentaram maior probabilidade de terem entrado em contato próximo com uma pessoa com infecção pelo vírus confirmada, como também tiveram menos chances de relatar uso consistente de máscaras na presença de estudantes e funcionários da escola que frequentam, informou Dra. Charlotte V. Hobbs e colaboradores da University of Mississippi, nos Estados Unidos.

Em parceria com a Equipe de Resposta à Covid-19 dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC), Dra. Charlotte e colaboradores conduziram um estudo caso controle com 397 crianças e adolescentes de até 18 anos de idade para avaliar exposição a contatos próximos, escolas e comunidade associada à covid-19 na população pediátrica. Pacientes que testaram positivo para covid-19 em unidades de saúde ambulatoriais ou serviços de emergência afiliados ao University of Mississippi Medical Center entre 1º de setembro e 05 de novembro de 2020 foram incluídos no estudo.

Quase dois terços relataram que a exposição ocorreu via familiares

Do total de participantes do estudo, 82 (21%) tinham menos de quatro anos de idade; 214 (54%) eram do sexo feminino; 217 (55%) eram negros não hispânicos; e 145 (37%) eram brancos não hispânicos. Mais da metade (53%) realizou o exame por conta de sintomas de covid-19. Dentre aqueles que testaram positivo, 66% relataram que entraram em contato próximo com um caso de covid-19 e 64% relataram que esses contatos eram membros de sua família, comparado a 15% dos contatos que eram colegas de escola, e 27% que eram colegas em creches.

Todos os participantes (62% positivos para covid-19 e 68% controles) compareceram presencialmente às respectivas creches ou escolas nos 14 dias anteriores ao resultado do teste. Os autores observaram que o fato de as crianças terem ido à escola, por si só, não foi associado ao resultado positivo. Na verdade, os pais de 64% dos casos positivos e de 76% dos casos negativos relataram uso de máscaras por parte das crianças e dos funcionários dentro das instituições de ensino.

Dentre os participantes do estudo que testaram positivo para o vírus e que tiveram contato próximo com alguém com covid-19, a probabilidade de que este contato tenha sido algum membro da família foi maior do que algum colega da escola ou creche. Mais especificamente, os pacientes infectados tiveram maior probabilidade de terem participado de reuniões com pessoas de fora do seu núcleo familiar (residentes da mesma casa) até duas semanas antes do exame, tais como eventos sociais e atividades com outras crianças. Pais de estudantes que testaram positivo também tiveram menor probabilidade de relatar uso consistente de máscara em ambientes fechados na presença de seus filhos maiores de dois anos de idade e de funcionários da escola.

Ir à escola não foi associado a aumento da chance de testar positivo

Ir à escola ou creche ao longo das duas semanas anteriores ao exame de SARS-CoV-2 não foi associado a maior probabilidade de testar positivo, observaram os autores do estudo, acrescentando que a maioria dos estudantes que participaram do estudo relatou uso constante de máscaras dentro das instalações da escola e creche, o que é consistente com as diretrizes do Mississippi State Department of Health.

Dra. Charlotte e colaboradores indicaram pelo menos quatro limitações do estudo. Eles observaram que os estudantes que participaram da pesquisa podem não representar os jovens de outras regiões dos EUA. Eles consideram a possibilidade de fatores de confusão relacionados ao comportamento dos participantes que não foram avaliados ou considerados no estudo. Não foram realizadas tentativas de verificar as alegações de uso de máscara em escolas e creches. Por fim, eles concordaram que "a classificação de caso e controle pode estar sujeita a erros por conta da sensibilidade e especificidade imperfeitas do exame por transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase (RT-PCR, sigla do inglês Reverse Transcription Time Polymerase Chain Reaction)".

Em 14 de dezembro de 2020, os CDC reportaram que 10,2% de todos os casos de covid-19 nos Estados Unidos ocorreram em crianças e adolescentes com menos de 18 anos.

"Esforços contínuos para prevenir a transmissão em escolas e creches são importantes, assim como avaliações dos vários tipos de atividades e exposições para identificar fatores de risco de covid-19 à medida que as crianças participam de interações sociais e em sala de aula." Promover atitudes para reduzir a exposição ao vírus entre jovens no ambiente doméstico, comunitário e acadêmico (escolas e creches) é importante para prevenir surtos em escolas, alertaram os autores.

Em uma entrevista em separado, a Dra. Karalyn Kinsella, pediatra em um pequeno grupo privado em Cheshire, nos EUA, disse: "O que essa publicação me mostra é que os casos de covid-19 são mais comuns quando o uso de máscara é inconsistente em escolas e em casa, e em escolas que não aderem adequadamente às diretrizes dos CDC. De forma geral, desde que as medidas de distanciamento social sejam seguidas, as escolas são locais muito seguros para as crianças durante essa pandemia."

Esse achado é importante, visto que muitas famílias estão mantendo suas crianças fora da escola por medo de contraírem o vírus, ela acrescentou. Algumas das consequências que essas crianças estão sofrendo são falta de conexão e estrutura social, em alguns casos levando à piora de ansiedade e depressão, e, para aquelas com incapacidades, como as que realizam fisioterapia, terapia ocupacional, fonoterapia ou estão inscritas em programas educacionais individuais, não estão recebendo o benefício completo dos serviços que de outra forma teriam presencialmente, ela observou.

"Eu não acho que as famílias realmente compreendem os riscos de se reunirem com familiares e amigos 'dentro de suas bolhas' ou o risco de continuarem a participar de atividades esportivas. É daí que a maioria dos casos de covid-19 está vindo", disse ela, acrescentando que é importante discutir este risco nas consultas.

"Então, quando as famílias nos perguntam o que achamos do aprendizado presencial, eu acho que a gente deveria se sentir bem confiante de dizer que os benefícios devem superar o risco".

Dra. Charlotte e colaboradores informaram não ter conflitos de interesses. A Dra. Karalyn também informou não ter conflitos de interesses.

FONTE: MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2020;69:1925-9. doi:10.15585/mmwr.mm6950e3.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge  ̶  Medscape Professional Network.

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