COMENTÁRIO

Covid-19 e sua relação bidirecional com o diabetes

Dr. Fabiano M. Serfaty

Notificação

19 de janeiro de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 .

A recente pandemia de covid-19, doença causada pelo SARS-CoV-2 (acrônimo do inglês Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2), representa uma crise de saúde mundial, causando doenças graves e morte, especialmente em pessoas com patologias cardiovasculares e metabólicas.

O SARS-CoV-2 entra nas células humanas por meio da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2), uma glicoproteína transmembrana com atividade proteolítica também encontrada em células β pancreáticas humanas, das quais o SARS-CoV-2 pode alterar a função, prejudicando a secreção de insulina. [1]

O SARS-CoV-2 liga-se aos receptores da ECA2, que são expressos nos principais órgãos e tecidos metabólicos, incluindo células β pancreáticas, tecido adiposo, intestino delgado e rins. [1] Deste modo, é possível que o SARS-CoV-2 possa causar alterações pleiotrópicas do metabolismo da glicose que podem complicar a fisiopatologia do diabetes preexistente ou levar a novos mecanismos de doença. [2]

As potenciais ligações entre covid-19 e diabetes incluem efeitos na homeostase da glicose, inflamação, alteração do estado imunológico e ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (RAAS).

Nos monócitos, os níveis elevados de glicose aumentam diretamente a replicação do SARS-CoV-2, e a glicólise sustenta esta replicação por meio da produção de espécies reativas de oxigênio (ERO) reativas mitocondriais e da ativação do fator 1α induzível por hipóxia. [3] Portanto, a hiperglicemia pode suportar a proliferação viral.

Alguns autores sugerem a hipótese de que a infecção por SARS-CoV-2 pode afetar negativamente a função pancreática, talvez por meio de efeitos citolíticos diretos do vírus nas células β. [1]

De fato, os pacientes com diabetes podem apresentar quadros mais graves de infecção por SARS-CoV-2. Além disso, a glicemia na admissão hospitalar do paciente com covid-19 é um fator preditor de mortalidade e complicações.

Existe, de fato, uma relação bidirecional entre covid-19 e diabetes, uma vez que o diabetes está associado a um aumento do risco de covid-19 grave.

Por outro lado, vários estudos publicados recentemente têm relatado quadros importantes de hiperglicemia de início recente em um grande número de pacientes recém-infectados pelo SARS-CoV-2, independentemente de história de diabetes. [1]

Além disso, um aumento acentuado de casos de cetoacidose diabética vem sendo observado em crianças e adolescentes durante a pandemia de covid-19, sugerindo uma relação entre covid-19 e diabetes tipo 1 de início recente. [1]

Ainda não se sabe ao certo o curso de tempo exato, a relação causal e se há presença ou ausência de autoanticorpos. [1]

Também têm sido relatados quadros de diabetes de início recente e complicações metabólicas graves em pacientes com diabetes preexistente, como cetoacidose diabética e em pacientes com covid-19. Todos os quadros clínicos citados sugerem uma fisiopatologia complexa da relação entre diabetes e covid-19.

Ainda não está claro se as alterações do metabolismo da glicose nos pacientes com covid-19 persistem ou remitem após a infecção.

Dada a história muito curta de infecção humana pelo SARS-CoV-2, mais estudos são necessários para compreender como se desenvolve o diabetes em relação à covid-19, a história natural dessa doença e o manejo adequado. O estudo do diabetes relacionado com a covid-19 também pode revelar novos mecanismos da doença.

Como médicos, devemos estar muito atentos ao controle rigoroso dos níveis de glicose do nosso paciente com covid-19, uma vez que o controle glicêmico adequado é fundamental para prevenir complicações graves da covid-19. Portanto, o monitoramento frequente da glicemia e o ajuste personalizado dos medicamentos são fundamentais.

Caso os pacientes tenham ou desenvolvam quadro de diabetes, eles devem monitorar com atenção seus níveis de glicose com mais frequência e devem se alimentar com uma dieta adequada, controlando e restringindo a ingesta excessiva de carboidratos, bem como praticar atividades físicas regulares e controlar outros fatores de risco tradicionais.

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