COMENTÁRIO

Equipamentos de proteção para os olhos: o que funciona contra a covid-19?

Se manter seguro exige mais que uma máscara

Brianne N. Hobbs

Notificação

19 de janeiro de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

O Dr. Anthony Fauci sugeriu que equipamentos de proteção para os olhos, como os óculos de proteção ou os escudos faciais, podem oferecer uma proteção mais completa contra o vírus que causa a covid-19 do que cobrir apenas o nariz e a boca. Embora não seja uma recomendação universal, o Dr. Fauci defende o uso de equipamentos de proteção para os olhos para aqueles que desejam uma "proteção perfeita das superfícies mucosas", incluindo os olhos. Para o público em geral, a proteção dos olhos é opcional, mas pode ser um meio efetivo de reduzir o risco de covid-19, dependendo do ambiente.

A história é diferente para profissionais de saúde em muitos contextos clínicos, nos quais as recomendações para uso dos equipamentos de proteção para os olhos dependem da probabilidade de exposição durante o atendimento direto aos pacientes. No guia atualizado Interim Infection Prevention and Control Recommendations for Healthcare Personnel During the Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) Pandemic , os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos recomendam o uso desses equipamentos para os seguintes profissionais de saúde:

  • Aqueles que atendem pacientes com infecção pelo SARS-CoV-2 suspeita ou confirmada; e

  • aqueles que trabalham em instituições localizadas em áreas com transmissão comunitária de moderada a substancial, que estão em maior risco de encontrar pacientes assintomáticos ou pré-sintomáticos com infecção por SARS-CoV-2.

Além de usar máscara ao atender de um paciente com covid-19 suspeita ou confirmada, os CDC recomenda m uso de óculos de proteção ou escudo facial que cubra a parte frontal e lateral do rosto, mais do que óculos de segurança ou óculos de grau tradicionais, que, por seu design, oferecem proteção limitada contra respingos, sprays e partículas no ar.

Os CDC não abordam o risco de infecção pelo SARS-CoV-2 por meio do contato com colegas de trabalho e com o público em geral, além desses dois cenários clínicos, deixando os profissionais de saúde decidirem sozinhos se devem ou não usar proteção para os olhos – e de que tipo – dentro e fora do ambiente de trabalho, bem como os benefícios potenciais de fazê-lo.

Por que se preocupar com os olhos?

Dado que os casos de covid-19 e de morte pela doença continuam a aumentar, está claro que não entendemos completamente todas as formas de transmissão, incluindo o papel dos olhos.

O olho, assim como o nariz e a boca, é uma membrana mucosa que pode servir como uma porta de entrada para o SARS-CoV-2 por fornecer uma grande área exposta a gotículas ou partículas no ar e à contaminação por meio das mãos. Acredita-se que a superfície do olho contenha receptores da enzima conversora de angiotensina (ECA) para o SARS-CoV-2, que se ligam ao vírus. O vírus já foi isolado em lágrimas e outras secreções conjuntivais, e, como outros vírus, pode ser carregado pelo ducto nasolacrimal até a nasofaringe e então para os pulmões. Além disso, conjuntivite pode ser um sinal de covid-19.

Dentre as diversas opções de acessórios para proteção dos olhos, qual reduz significativamente o risco de transmissão viral? Vamos revisar as evidências.

Óculos de grau

No início da pandemia, médicos na China fizeram uma observação curiosa sobre os pacientes com covid-19 admitidos em uma unidade de terapia intensiva: pouquíssimos utilizavam óculos de grau cotidianamente, sugerindo que os óculos poderiam desempenhar algum papel protetor contra o vírus que causa a covid-19. Suas observações foram confirmadas em um estudo de coorte de pacientes admitidos no hospital com diagnóstico de covid-19. Pacientes hospitalizados tiveram uma probabilidade significativamente menor do que a população em geral (5,8% versus 31,5%, respectivamente) de usar óculos diariamente durante pelo menos oito horas.

Essa disparidade significativa sugere um efeito protetor do uso de óculos de grau em tempo integral contra a aquisição do SARS-CoV-2, possivelmente ao servir como uma barreira contra gotículas e transmissão pela superfície ocular durante interações diretas com outras pessoas. Os achados desse pequeno estudo, embora certamente intrigantes, estão longe de serem conclusivos, e um estudo prospectivo seria necessário para provar que os óculos podem proteger contra a covid-19.

Os óculos de grau comuns protegem apenas a parte frontal dos olhos, então os vírus de dispersão aérea, gotículas ou respingos podem atingir os olhos por cima, por baixo e pelos lados. Óculos que se encaixam mal ou estão frouxos podem incentivar o manuseio do acessório, o que aumenta o potencial de contaminação pelas mãos do usuário.

Óculos de proteção

Assim como os óculos comuns, os óculos de proteção (também conhecidos como óculos de trauma) fornecem um nível relativamente baixo de proteção contra gotículas respiratórias. Os óculos de proteção são primariamente projetados para proteger o usuário do impacto de alta velocidade e da exposição a radiação e produtos químicos. O American National Standards Institute (ANSI) regula o padrão para esse tipo de equipamento, sendo o ANSI Z87.1 o padrão para proteção de olho e face. Note, entretanto, que essa classificação não inclui proteção contra patógenos do sangue ou outros tipos de controle de infecções.

Assim como os óculos de grau, muitos óculos de proteção são desenhados com lacunas entre a armação e o rosto, podendo falhar em bloquear a transmissão ou infecção através de sprays, respingos ou partículas circulantes no ar em ambientes mal ventilados. Esse ponto de exposição pode ser minimizado com escudos laterais ou alterações no design.

Óculos de proteção planos podem ser usados sobre os óculos de grau e provavelmente fornecerão alguma proteção. Alguns óculos de segurança podem ser customizados com lentes de grau para eliminar a necessidade de múltiplos acessórios no rosto.

Óculos de segurança (de ampla visão)

Ao vedar ao redor dos olhos, os óculos de segurança podem reduzir drasticamente o acesso dos vírus à superfície ocular, oferecendo proteção contra sprays ou respingos de gotículas respiratórias.

Essa eficácia pode depender do estilo dos óculos. Os óculos de segurança estão disponíveis com vários graus de ventilação, o que evita o embaçamento. Os óculos de ventilação direta permitem um fluxo livre de ar e também podem permitir a entrada de sprays e respingos. Já os óculos com ventilação indireta podem bloquear os respingos líquidos, mas ainda permitem a penetração de pequenas partículas aéreas. Óculos não ventilados oferecem o maior nível de proteção contra infecção ao bloquear partículas aéreas assim como sprays e respingos.

Alguns óculos de segurança podem sobrepor óculos de grau, mas é importante avaliar se existem fendas entre a beirada dos óculos e o rosto.

Os óculos de segurança são atualmente recomendados para profissionais de saúde que interagem com pacientes com covid-19 ou trabalham em áreas com transmissão moderada a substancial de SARS-CoV-2. Tipicamente um item não descartável, os óculos de segurança devem ser removidos após deixar o quarto de um paciente infectado, limpos e desinfetados antes do próximo uso. Em áreas com transmissão comunitária mínima ou ausente, o uso é considerado opcional, a não ser que seja indicado por algum outro motivo.

Os óculos de segurança sem ventilação (junto com máscara), provavelmente oferecem o maior nível de proteção para qualquer um que passe um longo período perto de outras pessoas em um ambiente mal ventilado.

Escudo facial

Os escudos faciais podem ser usados junto com ou como alternativa aos óculos de grau, óculos de proteção ou de segurança. Os escudos faciais utilizados junto com os óculos de segurança fornecem o nível máximo de proteção ocular. Por si só, o escudo facial pode bloquear os sprays de gotículas diretos.

Os escudos faciais reduzem a exposição das membranas mucosas, incluindo dos olhos, boca e nariz, ao vírus. Para fornecer a melhor proteção ocular contra a transmissão viral, os escudos faciais devem cobrir a testa e o queixo, e se estender até as orelhas.

Os escudos faciais são considerados uma forma apropriada de proteção ocular com transmissão moderada a substancial do SARS-CoV-2.

Lentes de contato

Foram levantadas questões sobre se as lentes de contato poderiam agir como um escudo contra a transmissão do SARS-CoV-2. Por outro lado, existem preocupações de que as lentes de contato possam servir como reservatório para o vírus. As lentes de contato poderiam promover a disseminação do SARS-CoV-2 ao aumentar a frequência e intensidade de contato das mãos com a superfície ocular.

É improvável que as lentes de contato ofereçam qualquer proteção significativa contra a infecção, porque elas estão cobertas pelo filme lacrimal, que é a primeira linha de defesa do olho. As lentes de contato flexíveis cobrem mais completamente a córnea do que as lentes rígidas e, portanto, podem servir como uma barreira mecânica aos receptores de ECA no olho contra o SARS-CoV-2. No entanto, a densidade de receptores é baixa em geral, e o filme lacrimal poderia disseminar as partículas virais para córnea e conjuntiva.

Também não é provável que as lentes de contato forneçam um papel significativo em promover a disseminação de vírus, ainda que as práticas de higiene padrão das lentes de contato sejam seguidas. Os usuários de lentes de contato tendem a esfregar seus olhos mais frequentemente do que a população em geral, o que pode servir como uma nova rota de infecção dos olhos.

Os pacientes com covid-19 devem evitar utilizar lentes de contato enquanto estiverem doentes. Qualquer lente de contato flexível usada quando o paciente estiver positivo para o vírus deve ser descartada, e as lentes de contato rígidas devem ser esterilizadas.

Não existem evidências específicas sobre os materiais de lente de contato e susceptibilidade ao vírus, mas, em geral, as lentes de uso único são mais efetivas para reduzir complicações inflamatórias.

Escolhendo a proteção ocular

As recomendações oficiais para proteção ocular têm sido elaboradas para os profissionais de saúde que estão lidando com pacientes com covid-19 em contextos clínicos, mas outros cenários caem em uma área cinzenta.

Se a circulação de ar da área for uma preocupação ou se o nível de ventilação no ambiente de trabalho de alguém for desconhecido, então os óculos de segurança fornecem o maior nível de proteção ocular, pois protegem de partículas no ar que podem circular por muito tempo em áreas mal ventiladas.

Ao interagir com outras pessoas em circunstâncias nas quais o nível de contato é casual e com respeito ao distanciamento social, os óculos de grau ou de proteção fornecem algum nível de proteção ocular contra um espirro ou tosse inesperado, que poderiam transmitir o SARS-CoV-2. O nível de proteção oferecido pelos óculos de grau ou de proteção não é robusto, mas eles fornecem pelo menos alguma barreira para a transmissão viral.

Melhores práticas para remoção dos óculos

Quando os óculos de grau ou de proteção são removidos, o usuário deve tocar apenas a haste dos óculos, na parte que segura na cabeça. A parte da frente dos óculos é a área mais provável de ser contaminada, então deve-se evitar tocar essa área. Os óculos de proteção devem ser desinfetados de acordo com instruções do fabricante e deixados para secar ao ar livre.

Os óculos de segurança devem ser removidos tocando a alça traseira, e não a parte da frente ou a lateral dos óculos.

A evolução da proteção ocular

O papel preciso da proteção ocular está em evolução. Embora os óculos de segurança e os escudos faciais forneçam maiores níveis de proteção contra o SARS-CoV-2 no ambiente de trabalho, a evidência é menos clara quando se trata de óculos de proteção, óculos de grau e lentes de contato. Estudos futuros certamente tentarão determinar a forma mais efetiva de proteção ocular para profissionais de saúde em contexto clínico.

Além dos profissionais de saúde que encaram o risco óbvio de exposição ao vírus e de covid-19 mais grave no ambiente de trabalho, evidências recentes sugerem que os riscos também são significativos durante reuniões familiares e sociais.

Não existem dúvidas de que os olhos trazem um risco, pelo menos teórico, de servir como porta de entrada da infecção pelo SARS-CoV-2, e eles podem exibir conjuntivite, um sinal de apresentação do vírus. Na ausência de recomendações universais para equipamento ocular de proteção durante a pandemia, os médicos precisam decidir sozinhos sobre o quanto de proteção desejam, dentro e fora do contexto de atendimento clínico.

Brianne N. Hobbs é diretora de inovação de exames no National Board of Examiners in Optometry, nos Estados Unidos. Ela está atualmente engajada na criação de novas habilidades clínicas de exame para optometria. Brianne dedicou a maior parte de sua carreira ao ambiente acadêmico e também trabalhou em contexto hospitalar.

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