Estudo avalia desdobramentos neurológicos das arboviroses

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

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11 de janeiro de 2021

As arboviroses podem sabidamente desencadear várias manifestações neurológicas, no entanto, o tipo de apresentação parece diferir de acordo com o arbovírus em questão. Segundo um estudo publicado em 2020 no periódico Lancet Neurology, [1] enquanto adultos infectados pelo vírus chicungunha tendem a apresentar mais doenças do sistema nervoso central (SNC), aqueles pelo vírus Zika desenvolvem com maior frequência doenças do sistema nervoso periférico. Os resultados são fruto de uma pesquisa observacional realizada na região Nordeste do Brasil com pacientes admitidos no serviço de neurologia do Hospital da Restauração (HR), em Pernambuco, entre 2014 e 2016.

O trabalho foi desenvolvido por especialistas do HR, do Instituto Aggeu Magalhães Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Pernambuco, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e por colaboradores da Holanda e do Reino Unido. A Dra. Maria Lúcia Brito Ferreira, médica neurologista do HR e uma das autoras da pesquisa, falou ao Medscape sobre o trabalho.

Os pesquisadores identificaram a admissão de 1.410 pacientes com 18 anos de idade ou mais no serviço de neurologia do HR no período analisado. Destes, 201 pacientes (14%) apresentavam sintomas de infecção por arbovírus, sendo que 148 tiveram arbovirose confirmada por investigação laboratorial – RNA viral ou anticorpo imunoglobulina M (IgM) específico no soro ou no líquor.

A análise dos pacientes com confirmação laboratorial de arbovirose revelou que 98 (49%) tinham apenas uma infecção por arbovírus, sendo 41 (20%) positivos para zika, 55 (27%) para chicungunha e dois (1%) para dengue. Outros 50 pacientes (25%) apresentaram evidências de infecção dupla, predominantemente por Zika e chicungunha (N = 46).

Os autores observaram que a infecção por chicungunha foi mais associada com doença do SNC, visto que 26 de 55 pacientes com chicungunha apresentaram este tipo de manifestação neurológica versus 6 dos 41 infectados por Zika. Entre as doenças do SNC mais prevalentes estavam mielite e encefalite. Por outro lado, sujeitos com zika tiveram mais frequentemente doença do sistema nervoso periférico: 26 dos 41 infectados por Zika vs. 9 dos 55 com chicungunha. A síndrome de Guillain-Barré foi a doença do sistema nervoso periférico mais prevalente.

Segundo a Dra. Maria Lúcia, na América Central já havia relatos de casos de arbovirose com apresentação de síndrome de Guillain-Barré. "A nossa surpresa foi termos observado outras complicações do sistema nervoso periférico, além da síndrome de Guillain-Barré (polineuropatia desmielinizante inflamatória crônica e radiculite) e das doenças do SNC, algo que ainda não havia sido descrito anteriormente", afirmou. Além disso, o número expressivo de doenças neurológicas observadas no período analisado também chamou a atenção da equipe.

Quanto às diferenças observadas entre os tipos de manifestações neurológicas, a médica lembrou que já se sabe que o vírus Zika parece ter predileção pelo sistema nervoso periférico, no entanto, ressaltou que provavelmente aspectos relacionados ao hospedeiro também contribuem para esse cenário.

"Sempre questionávamos por que uma família toda tinha manifestação clínica de erupção cutânea, dor articular, edema, entre outros sinais e sintomas das arboviroses, enquanto um membro desse núcleo familiar desenvolvia um quadro neurológico. Provavelmente, alguns pacientes apresentam características particulares que predispõem essa manifestação", pontuou a Dra. Maria Lúcia. A equipe do Hospital da Restauração está desenvolvendo outros estudos, em parceria com o grupo da Fiocruz Pernambuco, para tentar identificar marcadores imunológicos e genéticos que possam estar envolvidos nesse contexto. A expectativa, segundo a especialista, é que no início de 2021 já sejam publicados alguns resultados referentes a uma série de casos de Guillain-Barré.

Outro achado reportado pelo grupo no trabalho publicado no periódico Lancet Neurology foi que, entre os sujeitos com síndrome de Guillain-Barré, os que tinham infecção dupla por Zika e chicungunha apresentaram doença mais grave do que aqueles infectados por um único arbovírus. A infecção dupla também aumentou o risco de acidente vascular cerebral (AVC) e ataque isquêmico transitório.

Segundo a Dra. Maria Lúcia, de maneira geral, os pacientes com infecção dupla foram mais graves, precisaram mais de unidade de terapia intensiva (UTI), por mais tempo, e, quando apresentaram algum desses quadros neurológicos, tiveram manifestações mais complexas e com evolução também mais prolongada.

"Na medida em que temos vírus diferentes atuando ao mesmo tempo, imaginamos que, de fato, a condição seria mais complexa do que a de um paciente que tem uma manifestação por apenas um vírus", ponderou.

A experiência com as epidemias de arbovirose trouxe, segundo a médica, um aprendizado importante tanto no que tange às medidas preventivas de proliferação de mosquitos vetores dessas doenças, como em relação ao enfrentamento de outras enfermidades.

"Ficamos muito mais atentos agora para o coronavírus, porque é um vírus que tem uma predileção também pelo SNC, então provavelmente veremos alterações neurológicas associadas", afirmou a Dra. Maria Lúcia, destacando a importância de estudos e de parcerias entre grupos de pesquisa e entre nações para o avanço do conhecimento científico.

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