Rápido e indolor: o teste de covid-19 feito em casa

Roxana Tabakman

Notificação

6 de janeiro de 2021

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Os testes em amostras de saliva estão emergindo como uma promissora alternativa aos exames realizados a partir de secreções naso e orofaríngeas para diagnóstico e monitoramento da covid-19. Em agosto, a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos, concedeu autorização de cunho emergencial para o Saliva Direct, um teste por transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase (RT-PCR, sigla do inglês Reverse Transcription Time Polymerase Chain Reaction) para a detecção da infeção pelo SARS-CoV-2 feito a partir de amostra de saliva.

O movimento em direção ao rastreamento na saliva está ganhando força, mesmo que ainda seja uma pequena porcentagem do total dos testes realizados diariamente. A opção, que permite que a amostra seja obtida pelo próprio paciente, sem a intervenção de profissionais de saúde, tem sido extensamente analisada por diferentes autores. Agora, uma avaliação prospectiva do desempenho da autocoleta da saliva para testes por RT-PCR em uma plataforma baseada em telemedicina para vigilância covid-19, [1] traz novas evidências favoráveis.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em colaboração com especialistas da Noruega, China, França e Itália, avaliou uma coorte de pacientes com sintomas leves de covid-19. Os voluntários foram provenientes do programa Corona São Caetano, uma iniciativa que atende todos os moradores da cidade, localizada na região metropolitana de São Paulo.

Diante do surgimento de sintomas de covid-19, os participantes do programa foram incentivados a entrar em contato por meio de um site ou por telefone para preencher um questionário de triagem. Uma série de 201 pacientes consecutivos recebeu o material para autocoleta de amostras de saliva em casa, que incluiu um cotonete para coletar secreções das duas narinas e do fundo da boca (depositadas no mesmo recipiente). Os participantes que testaram positivo para SARS-CoV-2 foram acompanhados por 14 dias.

Dos 201 pacientes, 70 tiveram ao menos um resultado RT-PCR positivo. Destes 70, 52 tiveram resultado positivo na amostragem combinada (naso e orofaringe) e 55 tiveram resultado positivo na amostra de saliva. Os dados revelaram uma sensibilidade de 74,2% para a amostragem combinada (intervalo de confiança, IC, de 95% de 63,7% a 83,1%) e de 78,6% para a amostra de saliva (IC 95% de 67,6% a 86,6%). Os autores concluíram que os dados mostram a viabilidade do uso de amostras coletadas pelo próprio paciente (especialmente de saliva) como alternativa adequada para a detecção do SARS-CoV-2, e consideraram essa nova abordagem de testes como sendo útil para desenvolver estratégias de vigilância da covid-19.

O teste de saliva é factível e mais confortável (comparado com o swab), além de não expor a equipe de saúde a riscos e de reduzir o uso de equipamentos de proteção individual. Além disso, a pessoa não precisa se deslocar, o que provavelmente seria feito por transporte público, portanto, a estratégia também diminui o trânsito do vírus, disse ao Medscape o primeiro autor do artigo, Dr. Paulo H. Braz-Silva, odontólogo, pesquisador no Instituto de Medicina Tropical (IMT) e professor no Departamento de Estomatologia da Faculdade de Odontologia da USP.

A técnica tem várias vantagens importantes para adultos e crianças, tanto em termos de praticidade como de segurança, porque não envolve a presença de profissionais de saúde. A questão é que ainda não há um veredito sobre a sensibilidade. Existem vários trabalhos indicando que talvez a estratégia perca um pouco no quesito sensibilidade para a coleta de secreção nasofaríngea, em 5% ou 10%, mas essa perda não é tão significativa e as vantagens superam as limitações, avaliou o Dr. Claudio Sergio Pannuti, médico e professorsênior do Laboratório de Virologia do IMT da USP, que não participou da pesquisa.

O padrão-ouro hoje é a coleta de secreção orofaríngea, mas, para a detecção de SARS-CoV-2, podem ser usadas outras amostras biológicas, que apresentam diferentes graus de sensibilidade. Na literatura, há evidências de que a sensibilidade dos métodos de detecção do RNA do SARS-CoV-2 por meio de amostras de saliva é boa e comparável à das amostras de secreções nasofaríngeas em pacientes assintomáticos, com sintomas leves, moderados ou graves. [2,3]

O teste por RT-PCR para detectar infecção por SARS-CoV-2 por meio de amostras de saliva começou a ser oferecido recentemente por laboratórios privados. Um protocolo de pesquisa que comparou 400 amostras ofereceu concordância geral de 90% em relação ao RT-PCR em amostras de secreções naso ou orofaríngeas obtidas por swab.

O Dr. Paulo destacou, no entanto, que é importante dar instruções precisas sobre o momento adequado para fazer o teste. "O paciente precisa entender e o laboratório precisa ter a informação para interpretar." Isso ocorre porque a carga de SARS-CoV-2 na saliva é descrita como estando mais alta uma semana após o início dos sintomas, seguida de um declínio gradual; ou seja, o teste de saliva por RT-PCR é um bom candidato para a detecção de SARS-CoV-2 na fase inicial da doença.

O Dr. Claudio acredita que o teste de saliva pode ter um lugar entre os recursos diagnósticos, e antecipa a importância de utilizá-lo para o acompanhamento de pessoas vacinadas. "Não existe nenhum estudo para acompanhar os vacinados, saber se excretam vírus e podem contaminar os outros. Ninguém vai fazer coleta orofaríngea, mas o teste de saliva é mais prático, podendo ser feito muitas vezes e por muito tempo." Ele alertou, porém, que o SARS-CoV-2 é um vírus instável. "A conservação é um pouco complicada, mas, enquanto se superam as limitações de conservação do material, é totalmente factível. E poderá ser usado em epidemiologia, contatos de família ou pessoas próximas e seguimento de vacinas."

Outras técnicas

Em dezembro, o Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (CEGH-CEL) da USP, começou a oferecer o teste Covid-19-Genoma por meio da autocoleta de saliva. O exame não utiliza a transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase, mas sim a transcrição reversa seguida por amplificação isotérmica mediada por alça (RT-LAMP, sigla do inglês Reverse Transcription Loop-mediated Isothermal Amplification). O teste é oferecido aos moradores da capital paulista por 150 reais.

O site indica que o teste pode ser útil para pessoas que apresentam sintomas de covid-19; tiveram contato com pessoas infectadas; se expõem a ambientes de maior risco de contágio ou de grande circulação de pessoas; procuram obter um diagnóstico antes de entrar em contato com ou visitar pessoas que pertencem a algum grupo de risco; precisam viajar; ou trabalhar. No entanto, um alerta indica que "o sucesso do teste depende da presença do vírus na saliva, que é bastante variável e não necessariamente concordante com a presença do vírus na região nasofaríngea, e que o teste tem maior sensibilidade quando realizado nos 10 primeiros dias após o início da infecção ou da data de possível contágio".

Consultada pelo Medscape, Maria Rita Passos-Bueno, coordenadora do projeto, pesquisadora e professora, descreveu o teste de saliva como sendo o ideal para triagens populacionais. Ela afirmou que os testes para detecção do SARS-CoV-2 realizados por meio de autocoleta de saliva podem contribuir para o controle da pandemia, e o teste RT-LAMP direto (sem extração de RNA) é rápido e mais barato do que o RT-qPCR, que é o padrão-ouro.

A técnica RT-LAMP poder ser realizada em laboratórios mais simples do que a RT-PCR e o custo é menor. A Profa. Maria Rita salientou que "a sensibilidade alta é muito parecida com a do teste por RT-qPCR, particularmente no período de infecção ativa, ou seja, nos primeiros 9 a 10 dias após a contaminação, que é justamente o período com maior risco de transmissão. "Considero fundamental haver métodos alternativos para diagnóstico, o que viabiliza maior flexibilidade e diversidade no mercado quanto a opções de reagentes disponíveis, podendo ser um diferencial na pandemia", disse a pesquisadora.

Na visão da Profa. Maria Rita, "novos testes precisam de validação. Apesar do nosso conhecimento sobre a presença do vírus na saliva e a covid-19 ser ainda modesto, particularmente se compararmos com os dados a respeito do teste por RT-qPCR realizado em amostras nasofaríngeas coletadas por swab, esta é uma opção muito válida e que pode viabilizar um maior número de testagens em momento de pandemia".

O laboratório Mendelics já oferece o teste por RT-LAMP em amostras de saliva coletadas pelo próprio paciente há seis meses. O trabalho inicial da Mendelics incluiu 244 pacientes admitidos no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, que apresentavam sintomas sugestivos de covid-19 de um a sete dias. Todos os participantes foram diagnosticados por meio do teste por RT-PCR realizado em amostras de secreções nasofaríngeas coletadas por swab. Simultaneamente, foram coletadas amostras de saliva, que, por sua vez, foram analisadas por meio da técnica RT-LAMP. Os dados divulgados como pre-print[4] revelam que o uso da técnica RT-LAMP para análise da saliva obteve 78,9% de sensibilidade, em comparação com 85,5% da RT-PCR para análise da secreção orofaríngea. A especificidade foi de 100%.

O Dr. David Schlesinger, neurologista, geneticista e CEO do laboratório Mendelics, afirmou ao Medscape que não há diferenças fundamentais entre a saliva e a secreção orofaríngea. "Há uma falsa dicotomia na utilização de saliva para uma coisa e secreção orofaríngea para outra. Os estudos mostram que saliva e secreção naso ou orofaríngea têm quantidades comparáveis de vírus." Na opinião do Dr. David, o swab domina o cenário de testes apenas "porque a medicina é um bicho tradicional, conservador, e os grandes laboratórios e hospitais às vezes ficam presos ao que sempre foi feito".

Recurso renovável

Uma pessoa produz entre 600 mL e 1.000 mL de saliva por dia, e a única exigência para a coleta é um recipiente estéril. A obtenção do fluido não é invasiva nem provoca dor, é adequada para pessoas com capacidades diferentes, idosos e crianças, pode ser utilizada em áreas remotas e em grandes populações, e as amostras são fáceis de transportar. Além disso, vários biomarcadores salivares podem ser potencialmente úteis para uma melhor compreensão da covid-19.

De forma geral, a obtenção da amostra apresenta poucas limitações, sendo que o conteúdo da saliva pode ser influenciado pelo método de coleta, grau de estimulação do fluxo salivar, variabilidade interindividual, uso de medicamentos e higiene bucal. [2] "Em comparação com a urina ou o sangue, a saliva é um fluido pouco explorado, refletiu o Dr. Paulo. "Cem por cento da população fez algum dos dois primeiros exames, mas poucas pessoas fizeram o teste de saliva. Porém, este exame pode dar muitas informações interessantes."

Na opinião do Dr. Paulo, a diferença na utilização dos fluidos pode se dever a uma barreira cultural ou educativa, "porque os avanços na pesquisa não chegam na medicina ou talvez porque falta sistematizar as informações sobre em que pode ser utilizada. Também há uma provável deficiência na formação dos médicos e dentistas."

O Dr. Paulo frisou que é necessário, no entanto, entender que a saliva não responde todas as perguntas, em todos os momentos. Segundo ele, o teste "não vai substituir os outros métodos, mas pode ser mais uma ferramenta no arsenal".

Os Drs. Paulo H. Braz-Silva e Claudio Sergio Pannuti informaram não ter conflitos de interesses relevantes. O Dr. David é CEO da Mendelics, que, entre outros serviços, oferece um teste molecular de desenvolvimento próprio chamado #PAREcovid.

A jornalista Roxana Tabakman pode ser encontrada no Twitter: @roxanatabakman.

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