Covid-19: Comprometimento neurológico não se limita a pacientes graves

Megan Brooks

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6 de janeiro de 2021

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Complicações neurológicas graves em pacientes com covid-19 não estão limitadas a pacientes críticos, confirma nova pesquisa.

"Nós encontramos vários diagnósticos neurológicos, incluindo acidente vascular cerebral (AVC) e convulsões, entre pacientes hospitalizados com covid-19. E a maioria não estava grave, sugerindo que essas complicações não estão limitadas apenas aos pacientes que precisam de terapia intensiva ou de um ventilador", disse ao Medscape a Dra. Pria Anand, médica da Divisão de Doenças Neuro-Infecciosas, Boston University School of Medicine, nos Estados Unidos.

O estudo foi publicado on-line em 09 de dezembro no periódico Neurology Clinical Practice.

Incapacidade "moderadamente grave"

Para o estudo, os pesquisadores revisaram os prontuários de 74 adultos (média de idade de 64 anos) que foram hospitalizados com covid-19 e avaliados quanto a complicações neurológicas no Boston Medical Center, um hospital da rede de segurança mantido primariamente para populações desassistidas, de baixa renda e minorias étnico-raciais.

Os sintomas de covid-19 mais comuns no momento da admissão hospitalar foram tosse (39%), dispneia (36%) e febre (34%). Onze pacientes precisaram ser entubados (15%), 28 pacientes necessitaram de alguma forma de suplementação de oxigênio (38%) e 34 precisaram de terapia intensiva (46%).

Os sintomas neurológicos associados à covid-19 mais comuns na apresentação foram alteração do estado mental (53%), mialgia (24%), fadiga (24%) e cefaleia (18%).

Após a avaliação neurológica, os diagnósticos neurológicos finais mais comuns foram encefalopatia multifatorial ou metabólica (35%), seguida por convulsão (20%), AVC isquêmico (20%), transtorno primário do movimento (9%), neuropatia periférica (8%) e AVC hemorrágico (4%).

Três pacientes (4%) tiveram traumatismo intracraniano após sofrerem quedas em casa depois de apresentarem covid-19.

Dez (14%) pacientes morreram no hospital. Os sobreviventes tiveram incapacidades "moderadamente graves" na alta (a mediana da pontuação na escala Rankin modificada foi 4 pontos, com uma pontuação pré-admissão de 2) e muitos foram transferidos para instituições de longa permanência ou hospitais de reabilitação.

"Embora a gente não tenha dados sobre a evolução pós-hospitalar, isso sugere que os pacientes com complicações neurológicas da covid-19 provavelmente vão precisar de reabilitação, mesmo depois de deixarem o hospital", disse ao Medscape a Dra. Pria, membro da American Academy of Neurology.

"Existe uma ampla variação de mecanismos pelos quais a covid-19 pode causar complicações neurológicas", disse a Dra. Pria.

"Essas complicações podem resultar da resposta imunológica do organismo ao vírus (por exemplo, síndrome de Guillain-Barré, um transtorno autoimune que afeta os nervos), de uma doença sistêmica grave (por exemplo, lesão cerebral resultante de oxigenação insuficiente), do aumento do risco de coágulos (por exemplo, AVC), da piora de transtornos neurológicos pré-existentes e, possivelmente, do envolvimento do sistema nervoso pelo próprio vírus", ela explicou.

Os pesquisadores disseram que mais estudos são necessários para caracterizar as infecções e as complicações neurológicas pós-infecciosas da covid-19 em diversas populações de pacientes.

Problemas persistentes

Comentando os achados para o Medscape, o Dr. Kenneth L. Tyler, médico e chefe de neurologia, University of Colorado School of Medicine, nos EUA, observou que essa é uma das maiores séries publicadas até o momento sobre as complicações neurológicas da covid-19, e a primeira a vir de um hospital norte-americano da rede de segurança de uma grande área metropolitana.

"De forma geral, os tipos e categorias de complicações neurológicas relatados, incluindo encefalopatia (35%) e eventos cerebrovasculares agudos (20%), são semelhantes aos encontrados em outros estudos", disse o Dr. Kenneth.

No entanto, a frequência de AVC (aproximadamente 20%) é maior que em outros relatos, "provavelmente refletindo comorbidades como diabetes, hipertensão e acesso limitado ao tratamento, que estão presentes nessa população", disse.

O Dr. Kenneth também observou que a "frequência relativamente alta" de transtornos do movimento primários, notadamente mioclonias, "não foi particularmente bem reconhecida ou descrita, embora um dos autores tenha escrito sobre essa complicação na covid-19, então talvez exista um 'viés de averiguação' – como se estivessem procurando por isso?"

Finalmente, ele observou, é importante entender que todos os estudos publicados "variam tremendamente quanto à população que examinam, então comparações diretas podem ser difíceis".

Também avaliando a publicação para o Medscape, o Dr. Richard Temes, médico e diretor do Northwell Health's Center for Neurocritical Care, nos EUA, disse que problemas neurológicos têm sido observados desde o início da covid-19 e foram bem descritos.

"É comum que os pacientes apresentem queixas neurológicas não específicas como confusão, desorientação, alteração do estado mental, letargia, mas doenças neurológicas como AVC, hemorragia intracraniana e convulsões também são igualmente comuns", disse o Dr. Richard.

Ele também observou que diversos pacientes com covid-19 apresentam "efeitos persistentes, especialmente aqueles que estão hospitalizados, podendo variar de déficit de memória, lentidão cognitiva e problemas com atividades cotidianas a depressão".

"Esses efeitos podem ocorrer com qualquer paciente que fica hospitalizado por um período significativo, especialmente na unidade de terapia intensiva, então é difícil definir se são ou não devido à covid-19 em si ou pelo fato de a pessoa ser uma sobrevivente de uma doença muito grave. Nós não sabemos ainda. Precisamos de mais dados a respeito", ele alertou.

Neurol Clin Pract. Publicado on-line em 09 de dezembro de 2020. Abstract

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