Uso diário de filtro solar pode ser o método mais eficaz de prevenção do melanoma

Bruce Jancin

Notificação

4 de janeiro de 2021

Os dramáticos avanços das terapias direcionadas para o tratamento do melanoma em estágio avançado ganharam as manchetes, mas um recente estudo australiano concluiu, sem alarde, que a maneira mais custo-efetiva de reduzir a incidência de melanoma e as mortes causadas pela doença em longo prazo é realizar prevenção primária por meio do uso diário de filtro solar, de acordo com a Dra. Laura Korb Ferris, Ph.D., dermatologista e diretora de ensaios clínicos do Departamento de Dermatologia da University of Pittsburgh, nos Estados Unidos.

"Acho muito importante reconhecermos a importância da prevenção do câncer de pele, e não apenas da detecção precoce e do tratamento da doença avançada", disse a Dra. Laura em um fórum virtual sobre doenças cutâneas malignas, produzido em conjunto pelo Postgraduate Institute for Medicine e pela Global Academy for Medical Education.

Ela destacou a análise de custo-efetividade feita na Austrália, que usou os modelos de Markov em dados provenientes de dois ensaios clínicos publicados. Ambos os estudos foram controlados, randomizados, tiveram base populacional e foram realizados no estado de Queensland, na Austrália.

O estudo de custo-efetividade comparou a estimativa de impacto em longo prazo de três abordagens diferentes para o controle do melanoma: (1) estratégia de prevenção primária, que consistia basicamente em promover o uso diário de filtro solar e outras formas de proteção contra o sol; (2) estratégia de detecção precoce por meio de avaliação dermatológica do corpo inteiro realizada por um médico anualmente a partir dos 50 anos de idade; e (3) nenhuma intervenção. A análise forneceu estimativas do número de casos de melanoma, mortes por melanoma, câncer de pele não relacionados com melanoma e desfechos de qualidade de vida ao longo de 30 anos – começando com homens e mulheres de 50 anos de idade.

A prevenção primária por meio da proteção solar foi a clara vencedora, conforme demonstrado pelos resultados:

  • Redução de 44,0% na incidência de casos de melanoma, em comparação com a detecção precoce por meio de avaliação dermatológica anual.

  • Redução de 39,0% na projeção de mortes por melanoma, em comparação com a detecção precoce por meio de avaliação dermatológica anual, que, por sua vez, alcançou uma redução de apenas 2,0% em comparação com nenhuma intervenção.

  • Redução de 27,0% dos casos de carcinomas de queratinócitos excisados em comparação com a detecção precoce por meio de avaliação dermatológica anual.

  • Redução de 21,7% nos custos sociais, em comparação com a detecção precoce por meio de avaliação dermatológica anual.

O uso diário de filtro solar para prevenção primária também foi associado a um ganho modesto de 0,1% em anos de vida ajustados pela qualidade de vida (QALY, sigla do inglês Quality-Adjusted Life-Years). "A prevenção é de baixo custo, baixo risco e efetiva", concluiu a Dra. Laura.

Os pesquisadores disseram que, embora os residentes de Queensland sejam majoritariamente de pele clara e enfrentem altos níveis de exposição à radiação ultravioleta (UV) ao longo do ano – o que de certa forma limita a generalização dos resultados do estudo –, as relações entre os custos das estratégias de intervenção e os desfechos devem ser proporcionais em outros países.

É bem verdade, mas fazer uma avaliação dermatológica anual a partir dos 50 anos de idade como estratégia, conforme proposto no estudo australiano, não é a maneira mais produtiva de conduzir um programa de detecção precoce de melanoma, disse a Dra. Laura. Ela citou dados do National Cancer Institute's Surveillance, Epidemiology, and End Results Program mostrando que a média de idade ao diagnóstico de melanoma nos Estados Unidos é de 65 anos, enquanto a média de idade de morte pela doença maligna é 71 anos. Essas informações são úteis para a formulação de estratégias para aprimorar a detecção precoce por meio de um rastreamento mais específico e eficaz.

Caso em questão: Os pesquisadores europeus estimaram que, ao rastrear todo mundo a partir dos 50 anos de idade, 475 pessoas precisam ser rastreadas e uma média de 19,6 lesões devem ser biopsiadas para detectar um melanoma. Mas, ao restringir o rastreamento para pessoas com 50 anos ou mais que apresentam história pessoal de melanoma, nevos atípicos ou que têm pelo menos 40 nevos comuns, esses números caem drasticamente: 98 pessoas precisam ser rastreadas e 13,5 lesões devem ser biopsiadas para detectar um melanoma. E, estreitando ainda mais a população a ser rastreada para aqueles com 65 anos ou mais com qualquer um dos três fatores de risco citados, 63 idosos precisariam ser rastreados e 9,2 lesões excisadas para encontrar um melanoma.

A avaliação de corpo inteiro ocupa o tempo dos dermatologistas. Em um estudo recente feito nos EUA, os pesquisadores constataram que, para cada câncer de pele detectado por meio de uma avaliação dermatológica de corpo inteiro em adultos que buscam atendimento dermatológico por outros motivos, são necessárias 4,5 horas a mais de consulta presencial. E este é apenas o tempo gasto na busca por qualquer tipo de câncer de pele.

Para obter esse número especificamente para o melanoma, "multiplique por 15 a 20", disse a Dra. Laura.

Os pesquisadores também constataram que, para cada década de avanço da idade e incremento no fotótipo de pele mais clara, o número necessário para examinar a fim de identificar qualquer tipo de câncer de pele diminuiu.

"Ao nos concentrarmos em pacientes mais velhos e com tipos de pele clara, podemos reduzir esse tempo para cerca de uma hora", comentou a Dra. Laura, que escreveu uma perspectiva editorial sobre o estudo.

Embora muitos dermatologistas recomendem que pessoas com alta contagem de nevo comum sejam submetidas a exames frequentes para melanoma, por apresentarem um risco particularmente alto de doença invasiva, alguns estudos recentes questionam essa conduta, disse ela. Dentre eles, um estudo retrospectivo com 326 pacientes consecutivos com melanoma recém-diagnosticado que mostrou que os pacientes com uma contagem de nevos mais alta tinham melanomas mais finos e maior probabilidade de melanoma in situ. Os pacientes que apresentaram melanoma invasivo tiveram uma contagem média total de nevos de 31,5 lesões, enquanto aqueles com melanoma in situ tiveram uma média de 57,2 nevos. Cada nevo adicional foi associado a uma redução de 4% na probabilidade de melanoma invasivo, independentemente da idade e do sexo.

O outro estudo incluiu 566 pacientes com melanoma recém-diagnosticado em dois centros nos EUA. Entre os 56% dos pacientes com menos de 60 anos, aqueles que tinham mais de 50 nevos tiveram probabilidade 68% menor de apresentar melanoma espesso em uma análise de regressão logística que controlou para fatores demográficos, localização anatômica do melanoma, subtipo histológico e frequência de rastreamento para câncer de pele. Por outro lado, os pacientes mais jovens com mais de cinco nevos atípicos tiveram probabilidade 2,43 maior de apresentar melanomas mais espessos do que aqueles sem essas lesões. A lição, de acordo com os pesquisadores, é que o total de nevos não é um determinante confiável do risco ou da necessidade de avaliação dermatológica.

A Dra. Laura Korb Ferris informou não ter conflitos de interesses relevantes em relação a sua apresentação.

A Global Academy for Medical Education e esta organização de notícias são parte da mesma empresa.

Este artigo foi originalmente publicado emMDedge – Medscape Professional Network.

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