Sim ou não para a vitamina D: Suplementação não reduz quedas em idosos

Nancy A. Melville

Notificação

31 de dezembro de 2020

A administração de doses mais altas de vitamina D não apenas não mostrou benefício na prevenção de quedas em idosos com alto risco em comparação com a administração de doses mais baixas, como pareceu aumentar o risco, mostra uma nova pesquisa.

Com base nos achados, a suplementação de vitamina D acima da dose mínima de 200 UI/dia provavelmente é pouco benéfica, disse ao Medscape o médico e primeiro autor do estudo, Dr. Lawrence J. Appel.

“Na ausência de qualquer benefício ligado a administração de 1.000 UI/dia versus 2.000 UI/dia de suplementação de vitamina D em relação a quedas, junto com o potencial malefício associado à administração de > 1.000 UI/dia, é difícil recomendar > 200 UI/dia para idosos, a não ser que haja um motivo convincente”, explicou o Dr. Lawrence, que é diretor do Welch Center for Prevention, Epidemiology, and Clinical Research na Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, nos Estados Unidos.

“Mais nem sempre é melhor – e pode até ser pior” quando se trata do papel da vitamina D na prevenção de quedas, ele disse.

A pesquisa, publicada no periódico Annals of Internal Medicine, acrescenta importantes evidências ao esforço sendo feito para prevenir quedas, disse o Dr. Bruce R. Troen em um editorial que acompanha o estudo.

“As quedas e suas consequências deletérias continuam representando um risco substancial para idosos, e são um grande desafio para equipes de profissionais de saúde”, escreveu o Dr. Bruce, médico e pesquisador do Veterans Affairs Western New York Healthcare System, nos EUA.

No entanto, comentando para o Medscape, o Dr. Bruce ponderou que “existem muitos estudos epidemiológicos que fornecem correlações, não causais, mostrando uma probabilidade de benefício” associado à suplementação de vitamina D.

“Assim, não existem motivos para os médicos interromperem o uso de vitamina D nos indivíduos por conta desse estudo.”

“Se você estiver monitorando um idoso que é frágil e tem diversas comorbidades, vai querer saber seu nível de vitamina D e oferecer a suplementação apropriada caso seja necessário”, enfatizou o editorialista.

Algumas diretrizes já refletem a falta de evidência de qualquer papel da suplementação de vitamina D na prevenção de quedas, incluindo as publicadas em 2018 pela US Preventive Services Task Force, que, voltando atrás em relação às diretrizes de 2012, deixaram de recomendar suplementação de vitamina D para prevenção de quedas em idosos sem osteoporose ou deficiência da vitamina, observaram Dr. Lawrence e colaboradores.

Sem prevenção de quedas independentemente da vitamina D basal

Como parte do Study to Understand Fall Reduction and Vitamin D in You (STURDY), Dr. Lawrence e colaboradores recrutaram 688 pessoas com alto risco de quedas; definido como nível sérico de 25-hidroxivitamina D (25-OH-D) de 25,0 nmol/L a 72,5 nmol/L (10 ng/dL a 29 ng/dL).

A média de idade dos participantes era de 77,2 anos; com média de 25-OH-D no momento do recrutamento de 55,3 nmol/L.

Eles foram randomizados para receber uma das seguintes doses diárias de vitamina D3: 200 UI (grupo controle), 1.000 UI, 2.000 UI ou 4.000 UI.

Aqueles que receberam as doses mais altas (2.000 UI ou 4.000 UI) foram associados a piores – e não a melhores – desfechos, incluindo menos tempo até hospitalização ou óbito, em comparação com os que receberam 1.000 UI/dia. Os participantes incluídos nos grupos 2.000 UI e 4.000 UI então passaram a receber ≤ 1.000 UI de 25-OH-D por dia. Todos os pacientes foram acompanhados por dois anos.

No total, 63% dos participantes sofreram quedas ao longo do estudo, o que, apesar de ser uma taxa elevada, está de acordo com o critério de inclusão na pesquisa, de participantes com alto risco de quedas.

Dos 667 participantes que completaram o estudo, nenhuma dose demonstrou qualquer benefício no que tange a prevenção de quedas, em comparação com o grupo controle, independentemente dos níveis de vitamina D dos participantes no início do estudo.

As análises de segurança mostraram que, mesmo no grupo 1.000 UI/dia, foi observado maior risco de ocorrência de primeira queda grave e de primeira queda com necessidade de hospitalização, em comparação com o grupo controle.

Uma limitação foi o fato de o estudo não ter contado com um grupo placebo, no entanto, “200 UI/dia é uma dose muito pequena, provavelmente homeopática”, disse o Dr. Lawrence ao Medscape. “Foi perto de ser um placebo”, disse ele.

Ressalvas: Comorbidades, subgrupos

No editorial, o Dr. Brice observou que outros estudos, incluindo o Vitamin D and Omega-3 Trial (VITAL), também não encontraram redução na ocorrência de quedas com maiores doses de vitamina D; no entanto, o estudo VITAL não mostrou nenhum risco significativo relacionado com as doses mais altas.

Ele acrescentou que o estudo em tela carece de informações sobre os subconjuntos de participantes.

“Não temos informações suficientes sobre a existência de comorbidades e medicamentos que essas pessoas pudessem estar utilizando. Talvez exista um subgrupo que não deveria estar em uso de 4.000 UI, enquanto outro subgrupo poderia não apresentar prejuízos, e eventualmente poderia se beneficiar”, ele disse.

Além disso, o estudo não avaliou grupos como residentes de instituições de longa permanência.

“Eu tenho, por exemplo, pacientes de 85 anos com níveis de vitamina D de 20 nmol/L que têm diversas doenças, mas níveis tão baixos não foram incluídos no estudo, então é um assunto complicado. Mas o principal é não causar dano”, ele disse.

“Nós realmente precisamos de ensaios que fatorem múltiplos aspectos diferentes, para que então possamos chegar, eu espero, a uma abordagem holística e interdisciplinar, que geralmente é a melhor forma de otimizar o tratamento de idosos frágeis”, ele concluiu.

O estudo recebeu financiamento do National Institute of Aging.

Ann Intern Med. Publicado em 07 de dezembro de 2020.  Abstract Editorial

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