Estudo indica que 76% dos habitantes de Manaus teriam anticorpos contra o coronavírus em outubro

Mônica Tarantino

Notificação

16 de dezembro de 2020

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Manaus foi a cidade brasileira mais atingida pela pandemia de coronavírus. Um estudo publicado recentemente por 19 pesquisadores no periódico Science revelou que mais de três quartos da população local têm anticorpos contra o SARS-CoV-2.

Para investigar os fatores relacionados com a redução do número de casos, os pesquisadores fizeram testes sorológicos em amostras de sangue de doadores de Manaus e de São Paulo coletadas de março a junho. Os exames avaliaram a presença de reagentes aos anticorpos imunoglobulina G (IgG). Após os ajustes necessários, o time de pesquisadores chegou à estimativa de que 76% dos habitantes da capital amazonense teriam anticorpos contra o SARS-CoV-2 em outubro. Esta taxa foi comparada com os dados dos doadores de sangue da capital paulista, onde o grupo estimou que, em outubro, 29% da população teria anticorpos contra o SARS-CoV-2.

"Utilizamos uma amostra de conveniência de doadores de sangue para mostrar que até junho, um mês após o pico epidêmico em Manaus, capital do estado do Amazonas, 44% da população apresentava anticorpos IgG detectáveis. Corrigindo para casos sem resposta imune detectável e com redução de anticorpos, estimamos uma taxa de ataque de 66% em junho, aumentando para 76% em outubro. É maior do que em São Paulo, no sudeste do Brasil, onde a taxa de ataque estimada em outubro é de 29%", segundo Lewis Buss, pesquisador do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias e Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e seus colaboradores escreveram no Abstract do trabalho publicado em 08 de dezembro. De acordo com os pesquisadores, os resultados confirmam que, quando mal controlado, o SARS-CoV-2 pode infectar uma grande fração da população, causando alta mortalidade.

O crescimento da pandemia de covid-19 no Brasil foi um dos mais rápidos no mundo, com o estado do Amazonas sendo a região mais atingida. Em 13 de março, Manaus, que é a maior metrópole regional, registrou o primeiro caso de covid-19 na cidade; até 07 de dezembro, haviam sido notificados 72.876 diagnósticos de infecção pelo coronavírus e 3.152 mortes por covid-19.

A disseminação acelerada da doença levou ao aumento do número de casos, o que provocou um colapso no sistema de saúde e causou uma explosão no número de mortes pela doença na cidade. Imagens de valas coletivas abertas para receber os mortos circularam na mídia e nas redes sociais, mostrando a dimensão da catástrofe sanitária. São situações cravadas na memória de quem viu. Depois do caos, houve uma queda sustentada no número de novos casos, apesar do relaxamento das medidas de prevenção. "Medidas não farmacológicas foram implementadas em meados de março, quando o distanciamento físico também aumentou. É provável que esses fatores tenham funcionado em conjunto com a crescente imunidade da população para conter a epidemia", apontaram os pesquisadores. Eles disseram ainda que mudanças comportamentais voluntárias podem ter ajudado.

Em setembro, um artigo em pre-print com dados preliminares e sem revisão por pares apontou que 66% dos habitantes de Manaus tinham anticorpos contra o SARS-CoV-2. Essa taxa subiu com a introdução de dados coletados até outubro. Teoricamente, a incidência de 76% está acima das taxas estimadas, entre 60% e 70%, para haver imunidade coletiva, mas a transmissão continua na região.

Na opinião de Dr. Júlio Croda, médico infectologista que fez uma extensa revisão de artigos sobre imunidade de rebanho (também chamada de coletiva), o estudo em tela foi muito bem feito: "É importante entender que este estudo usa bancos de sangue como marcador de provável infecção na comunidade, e foi feito de forma seriada. Não é um estudo populacional. Isso significa que a taxa de anticorpos na população pode ser maior ou menor", disse o médico, que é professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Yale School of Public Health, nos Estados Unidos, e pesquisador ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Dr. Júlio trabalha também com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) nas Américas, no suporte a estados e municípios brasileiros.

O dado principal, de acordo com o infectologista, mostra a intensidade da tragédia vivida em Manaus em comparação com São Paulo, que teve proporcionalmente menos pessoas infectadas. "Em algum momento as medidas preventivas não farmacológicas foram mais efetivas em São Paulo do que em Manaus", afirmou. "Os dados da história natural do que aconteceu em Manaus são emblemáticos para nos informar se a imunidade gerada pela infecção se mantém ao longo do tempo e por quanto tempo gera imunidade de rebanho. Manaus é uma cidade de grande importância para avaliar isso, e talvez possa ajudar a identificar a periodicidade da revacinação da população por conta dessa queda de imunidade", analisou Dr. Júlio. Ele lembrou ainda do risco de reinfecção por cepas diferentes — algo que está em investigação.

Lewis e colaboradores concordam que mais estudos precisam ser feitos urgentemente na região para determinar a longevidade da imunidade da população. "O monitoramento de novos casos (...) também será vital para compreender até que ponto a imunidade da população pode prevenir a transmissão futura e a possível necessidade de vacinação de reforço para reforçar a imunidade protetora", descreveram os autores.

O último inquérito sorológico de abrangência nacional no Brasil foi realizado no final de agosto. Os dados desse estudo, chamado Epicovid-19, têm sido utilizados para subsidiar políticas de saúde em vários locais do Brasil. Antes do Epicovid-19, houve três levantamentos desse tipo. Os dados obtidos têm sido utilizados para subsidiar políticas de saúde em vários locais do Brasil. "É um exemplo de parceria entre a academia e as gestões públicas", disse ao Medscape o epidemiologista Pedro Curi Hallal, coordenador da pesquisa, professor e reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul.

"A quinta fase do Epicovid-19 está programada para a primeira quinzena de janeiro e uma sexta fase deve acontecer ao redor de março de 2021", disse o Dr. Pedro. As três etapas iniciais do estudo, o maior sobre a prevalência e a velocidade de disseminação do novo coronavírus no Brasil, foram financiadas pelo Ministério da Saúde em conjunto com o projeto Fazer o Bem Faz Bem (uma iniciativa da empresa alimentícia JBS) e o Instituto Serrapilheira. As fases quatro a seis estão sendo financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pela iniciativa Todos pela Saúde, que gere recursos doados pelo Itaú Unibanco para o combate da pandemia. Para as próximas edições, os pesquisadores utilizarão testes mais sensíveis para detecção dos anticorpos em vez do teste rápido (sorologia) aplicado nas quatro etapas anteriores.

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