Do nascimento à morte, o álcool faz mal ao cérebro

Megan Brooks

Notificação

15 de dezembro de 2020

Existem evidências "convincentes" dos efeitos nocivos do álcool no cérebro. O maior risco ocorre durante os três períodos da vida marcados por mudanças dinâmicas no cérebro, dizem pesquisadores da Austrália e do Reino Unido.

Esses três períodos são:

  • Gestação (da concepção ao nascimento), que é caracterizada por vasta produção, migração e diferenciação de neurônios, bem como apoptose importante;

  • adolescência tardia (de 15 a 19 anos de idade), um período marcado por poda neural e aumento da mielinização axonal; e

  • terceira idade (a partir de 65 anos), um período associado à atrofia cerebral. As mudanças aceleram após os 65 anos, em grande parte impulsionadas por diminuições no tamanho dos neurônios e reduções no número de espinhas dendríticas e sinapses.

Essas mudanças no circuito neural podem aumentar a sensibilidade aos efeitos neurotóxicos do álcool, segundo a Dra. Louise Mewton, Ph.D., Center for Healthy Brain Aging, University of New South Wales, na Austrália, e seus colaboradores.

"Um olhar para a saúde do cérebro ao longo da vida apoia a formulação de políticas e intervenções de saúde pública para reduzir o consumo e o abuso de bebidas alcoólicas em todas as idades", escreveram as pesquisadores em um editorial publicado on-line em 04 de dezembro no periódico BMJ.

Tendências preocupantes

Pesquisas mostraram que, globalmente, cerca de 10% das gestantes consomem bebidas alcoólicas. Nos países europeus, as taxas são muito superiores à média mundial.

O consumo pesado de álcool durante a gestação pode causar síndrome do álcool fetal, que está associado a diminuições generalizadas do volume cerebral e prejuízo cognitivo.

Mesmo o consumo baixo ou moderado de álcool durante a gestação está significativamente associado a piores desfechos psicológicos e comportamentais em crianças, pontuaram os pesquisadores.

Na adolescência, mais de 20% dos jovens de 15 a 19 anos na Europa e em outros países de alta renda relatam que pelo menos ocasionalmente fazem uso excessivo de álcool, o que está ligado à redução do volume cerebral, pior desenvolvimento de substância branca e déficits em diversas funções cognitivas, acrescentaram.

Em um estudo recente com idosos, os transtornos por uso de álcool emergiram como um dos fatores de risco modificáveis mais fortes de demência (particularmente demência de início precoce) em comparação com outros fatores de risco estabelecidos, como hipertensão arterial sistêmica e tabagismo.

Os transtornos por uso de álcool são relativamente raros em idosos, mas, mesmo o consumo moderado de bebidas alcoólicas durante a vida adulta, tem sido associado a uma perda "pequena, mas significativa" de volume cerebral, disseram os autores.

Dra. Louise e colaboradores disseram que as tendências demográficas podem agravar o efeito do consumo de bebidas alcoólicas na saúde do cérebro.

Eles observaram que hoje em dia as mulheres têm tanta probabilidade quanto os homens de consumir álcool e sofrer as consequências associadas. Estima-se que o consumo global aumentará ainda mais na próxima década.

Embora os efeitos da pandemia de covid-19 no consumo de bebidas alcoólicas e os danos associados ainda não estejam claros, o uso de álcool aumentou em longo prazo após outras grandes crises de saúde pública, acrescentaram os autores.

Em vista dos dados, a Dra. Louise e seus colaboradores pediram "uma abordagem integrada" para reduzir os danos relacionados com o consumo de álcool em todas as idades.

"Intervenções a nível populacional, como diretrizes para consumo de álcool de baixo risco, políticas de precificação das bebidas alcoólicas e limites mais baixos para dirigir alcoolizado, precisam ser acompanhadas do desenvolvimento de treinamentos e linhas de cuidados que considerem o cérebro humano em risco ao longo da vida", concluíram.

Os autores informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

BMJ. Publicado on-line em 04 de dezembro de 2020. Editorial

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