Desfechos de pacientes com covid-19 grave

Dra. Sabrine Teixeira Grünewald, MSc

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11 de novembro de 2020

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Um dos grandes dramas impostos pela pandemia de SARS-CoV-2 é o aumento da ocupação de leitos em unidades de terapia intensiva (UTI), sobrecarregando recursos e profissionais. Nem todos os hospitais estavam preparados para lidar com essa nova demanda, e muitas adaptações e ampliações precisaram ser realizadas em poucos meses.

Uma revisão sistemática conduzida por pesquisadores brasileiros avaliou quase 70.000 pacientes com covid-19 admitidos em UTI em todo o mundo mostrou que grande parte necessitou de diversas intervenções complexas e de longa permanência.

Segundo os autores, a necessidade de intervenções sofisticadas e caras, como ventilação mecânica invasiva, oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO, sigla do inglês, Extracorporeal Membrane Oxygenation) e terapia de substituição renal, exige uma equipe altamente capacitada e uma distribuição de recursos bem planejada. Assim, esse estudo tem a importância de fornecer dados que auxiliem nesse planejamento.

"A covid-19 trouxe um desafio sem precedentes aos sistemas de saúde no mundo", explicou em uma entrevista ao Medscape o primeiro autor do estudo, Dr. Rodrigo Serafim, médico intensivista do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), no Rio de Janeiro.

"Dos primeiros estudos, com número limitado de pacientes, aos grandes relatórios internacionais disponíveis atualmente, muitas informações foram acrescentadas, e hoje existem condições mais favoráveis para combater a pandemia", disse.

O artigo foi publicado na edição de outubro do periódico Clinical Microbiology and Infection.

No momento de sua publicação, esta era a primeira revisão sistemática a descrever as intervenções utilizadas e os desfechos de pacientes graves com covid-19.

Limitações da literatura

Os autores realizaram uma busca na literatura, na qual selecionaram estudos sobre pacientes com covid-19 grave, incluindo pesquisas em fase de pré-publicação, divulgados desde o início da pandemia, em dezembro de 2019. Essa busca inicial resultou em quase 3.000 estudos, mas apenas 32 atendiam os critérios necessários para serem incluídos na revisão sistemática.

No total, as pesquisas selecionadas reuniram dados de 69.093 pacientes em todo o mundo.

Uma das limitações comentadas pelos autores foi a grande heterogeneidade dos estudos quanto a dados de características clínicas, intervenções e desfechos em pacientes admitidos em UTI. "Diferenças significativas no desenho dos estudos também contribuíram para a falta de informações clínicas específicas em vários artigos", escreveram.

Segundo o Dr. Rodrigo, é notável o grande número de publicações sobre a covid-19 nos últimos meses, mas a qualidade dessas pesquisas é muitas vezes questionável. "O elevado número de publicações excedeu a capacidade das revistas científicas e muitos artigos foram publicados na forma de pré-prints ou sem o devido rigor", explicou ele.

"Ao mesmo tempo em que a urgência mundial justificou a necessidade de novas pesquisas sobre o tema e a acelerada divulgação de artigos, também contribuiu para uma queda de qualidade e menor nível de evidência científica nas publicações. É necessária uma avaliação cautelosa dos leitores para aplicar o conhecimento disponível na prática médica", destacou o Dr. Rodrigo.

Intervenções complexas, desfechos desfavoráveis

A maioria dos pacientes admitidos em UTI era do sexo masculino (59%) com média de idade de 56 anos (intervalo de confiança, IC, de 95% de 48,5 a 59,8). Cerca de 85% dos pacientes internados na UTI tinham síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) como indicação para o suporte intensivo.

Os desfechos mais descritos nos estudos foram: morte (32,3% dos pacientes) e tempo de internação em UTI, que foi de nove dias em média (IC 95% de 6,5 a 11,2). Alguns estudos discriminaram a taxa de mortalidade para pacientes em uso de ventilação mecânica (59%) e para pacientes com diagnóstico de SDRA (até 93% dos casos).

Quanto às terapias de suporte e intervenções realizadas durante a internação em UTI, 58% dos pacientes receberam ventilação mecânica invasiva; 20,5% necessitaram de oxigenoterapia de alto fluxo; e 25,5% dos pacientes utilizaram ventilação não invasiva. A ECMO foi utilizada em apenas 2,3% dos pacientes.

Por fim, a terapia renal de substituição foi necessária em 16,6% dos pacientes, e 28% dos pacientes receberam vasoativos.

Os autores do estudo destacaram o impacto da covid-19 nas unidades de terapia intensiva, com a mortalidade e o tempo de permanência tendo sido superiores aos de outras doenças infecciosas.

"A mortalidade de pacientes com covid-19 internados em UTI foi de 30,6%, o que é relevante quando comparado com as taxas de mortalidade geralmente descritas para a pneumonia adquirida na comunidade (16,6% a 18,0%) e para a sepse (24,2% a 55,7%)", escreveram.

"O estudo descreve os recursos utilizados para o tratamento da covid-19, assim como os principais desfechos apresentados", explicou o Dr. Rodrigo, destacando que, em muitos países, a falta de recursos suficientes foi impactante e contribuiu para piores desfechos.

"Os resultados servem tanto para orientar uma melhor alocação de recursos como para a percepção de oportunidades de melhorias", disse ele, destacando que essas questões se tornam ainda mais importantes agora que muitos países estão apresentando um novo aumento do número de casos.

Os autores do estudo informaram não ter conflitos de interesses relevantes ao tema.

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