Anvisa suspende e volta a liberar testes com vacina chinesa contra covid-19

Mônica Tarantino

Notificação

11 de novembro de 2020

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Após dois dias de suspensão, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a retomada do estudo clínico da vacina CoronaVac na manhã desta quarta-feira (11). Em nota, a agência comunicou que "entende que tem subsídios suficientes para permitir a retomada da vacinação e segue acompanhando a investigação do desfecho do caso para que seja definida a possível relação de causalidade entre o evento adverso grave inesperado e a vacina."

A retomada ocorre depois de muitas declarações de impacto e trocas de acusações entre a direção da Anvisa e do Instituto Butantan ao longo da terça-feira (10), que expuseram dificuldades na comunicação com respingos da polarização política que divide o país. Na mesma data, jornalistas da TV Globo obtiveram um boletim de ocorrência que registrou como suicídio a causa da morte do participante da pesquisa com o imunizante produzido em parceia entre o Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo, e a farmacêutica Sinovac Life Science, do grupo chinês Sinovac Biotech. A Anvisa informou, em nota, que obteve esses dados ao longo da terça-feira, assim como o parecer do Comitê Internacional de Segurança sobre os testes.

O modo como se deu a paralisação dos testes da vacina chinesa causou muita tensão. Os testes com a CoronaVac foram interrompidos na noite do dia 9 pela Anvisa após a notificação de um evento adverso grave feita pelos pesquisadores. A medida teve grande repercussão nos meios científicos e na imprensa, causando manifestações dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Foi o assunto que dominou os noticiários televisivos da terça-feira (10), um dia repleto de entrevistas coletivas e comunicados de instituições de pesquisa e partidos políticos. A repercussão foi tanta, que o Supremo Tribunal Federal (STF) chegou a dar 48 horas para a Anvisa explicar a suspensão dos testes de fase 3 com a vacina chinesa. No despacho, divulgado no dia 10, o ministro Ricardo Lewandowski, do STF, pede que sejam prestadas informações ao Supremo "acerca dos critérios utilizados para proceder aos estudos e experimentos concernentes à vacina acima referida, bem como sobre o estágio de aprovação desta e demais vacinas contra a covid-19". 

Mais de 10 mil voluntários participam dos testes com a CoronaVac no país e outros 3 mil devem ainda ser incluídos. A decisão anterior da Anvisa impedia a aplicação da vacina em novos participantes do estudo por tempo indeterminado. Outras atividades de pesquisa poderiam prosseguir, como o acompanhamento dos voluntários e a avaliação dos dados. 

No início da terça-feira (10), a Anvisa afirmou ter recebido informações incompletas e insuficientes sobre evento adverso grave ocorrido em 29 de outubro com um dos voluntários da pesquisa. O diretor-presidente da agência, Dr. Antônio Barra Torres, disse que a agência decidiu suspender o estudo até esclarecer os fatos para evitar que novos participantes pudessem correr o risco de eventos adversos graves.

O Dr. Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, que comemorou a decisão da retomada, rebateu dizendo que a interrupção dos testes não era necessária e que "tudo poderia ter sido resolvido administrativamente." A instituição é muito respeitada no Brasil. Um em cada cinco brasileiros toma imunizantes fabricados pelo Butantan.   

As falhas de comunicação ao longo do processo chamam a atenção. Em 30 de outubro, um dia depois da morte do voluntário, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC/FMUSP), centro que monitorava o voluntário, informou a ocorrência do evento adverso à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e à farmacovigilância do Instituto Butantan. No dia 6, dentro do prazo, o Instituto Butantan notificou a Anvisa. O comunicado, feito por meio um sistema de notificações da agência, dizia que "um participante do estudo clínico teve efeito adverso não relacionado com a vacina."

O diretor-presidente da Anvisa, Dr. Antônio Barra Torres, disse em entrevista coletiva que a agência só tomou ciência da informação na segunda-feira (9) por causa de problemas técnicos atribuídos ao ataque de um hacker a órgãos federais, ocorrido na semana passada, que afetou a recepção de dados de outras instituições.  

Na sequência, por volta das 15 horas do dia 9, o Instituto Butantan recebeu um e-mail da agência reguladora solicitando o envio das informações. Às 18h24, de acordo com a instituição, enviou a resposta e a cópia das notificações sobre o caso encaminhadas anteriormente, no dia 6. Pouco tempo depois, às 20h47, veio o convite para uma reunião emergencial na manhã do dia 10. A mesma mensagem anunciava a suspensão do estudo.

"Vinte minutos depois, a notícia estava em toda a imprensa", reclamou o Dr. Dimas Covas.  "Foi um rito sumário. A documentação fornecida à Anvisa estava clara, mostrando que não havia relação do óbito com a vacina. Não foi uma reação adversa, que ocorre em decorrência da vacina. Foi um evento adverso 25 dias depois, que não tem relação direta com a vacina. Isso não é motivo para suspender um estudo clínico. São mais de 10 mil pessoas e isso vai acontecer mais vezes", disse o Dr. Covas.

Perguntado por jornalistas se a agência não poderia primeiramente esclarecer as dúvidas em uma reunião agendada para a manhã do dia 10 com os pesquisadores da CoronaVac antes de anunciar a medida, o Dr. Antônio Torres disse que a interrupção era a conduta correta de acordo com as informações de que dispunha a agência.

"Não somos parceiros, somos reguladores", afirmou, enfatizando que os dados deveriam ser sempre enviados pelos canais oficiais.

O diretor-presidente da Anvisa disse ainda que o Comitê Internacional Independente que monitora os dados do estudo não tinha sido informado do evento pelo Instituto Butantan. Pesquisadores ligados ao estudo asseguram que o órgão foi acionado pela instituição, e que já tinha solicitado documentação para esclarecimentos. Na noite da terça, o Comitê confirmou que a morte do voluntário do estudo não teve relação com a vacina e se pronunciou favorável à retomada do estudo. O comitê é composto por especialistas estrangeiros ou que atuam fora do país, e não têm relação com a pesquisa, para analisar os dados de segurança e eficácia. A mesma posição foi defendida coordenador da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), o médico Dr. Jorge Venâncio. Ele afirmou que de modo algum recomendaria a suspensão dos testes após ter recebido as informações sobre a morte do voluntário em São Paulo, na sexta-feira (6). Disse ainda que a família do voluntário havia pedido para não divulgar a causa da morte por motivo religioso. A Conep é um órgão ligado ao Conselho Nacional de Saúde.

Em entrevista coletiva na terça-feira (10), na sede do Instituto Butantan, o secretário estadual de Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, falou à imprensa e criticou a condução do processo.

"O assunto estava sendo discutido tecnicamente, mas provavelmente essa informação tenha sido utilizada por alguém com interesse de criar um fato", disse ele. O presidente brasileiro comemorou em redes sociais a interrupção do estudo. Ele é publicamente contrário aos testes com a vacina chinesa. Entre outros episódios em que deixou claro seu posicionamento, no final de outubro, após anúncio Ministério da Saúde de que compraria a vacina, o presidente mandou desfazer o acordo.

Não é a primeira vez e provavelmente não será a última que testes com as vacinas para o coronavírus são interrompidos. Em 8 de setembro, os testes com a vacina da Oxford foram paralisados em todo o mundo após um voluntário do Reino Unido ter sofrido reação que poderia estar relacionada ao imunizante. No dia 12, um comunicado da Autoridade Sanitária do Reino Unido (MHRA na sigla em inglês) atestou a segurança para a continuidade dos experimentos. Em 13 de outubro, a Janssen, farmacêutica da Johnson & Johnson, anunciou a interrupção temporária dos ensaios clínicos de sua vacina em países como os EUA e o Brasil. O motivo foi uma "doença inexplicável" em um dos voluntários, que não chegou a ser divulgada. O estudo clínico foi retomado na última sexta-feira após liberação da Food and Drug Administration (FDA), agência federal de saúde dos EUA que regula medicamentos. O caso mais recente foi no final de outubro, quando houve a morte de um voluntário brasileiro que participava dos testes da vacina de Oxford por covid-19. O evento foi analisado pelo Comitê Internacional de Segurança que acompanha o estudo, que não viu preocupações de segurança relacionadas ao caso e permitiu o prosseguimento das pesquisas.

O infectologista Dr. Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, faz um alerta sobre futuros episódios de paralisação de estudos.

"Uma coisa que está se perdendo e precisa ser tratada com mais rigor e carinho é o sigilo em respeito ao voluntário. Se a pessoa aceitou participar do estudo, é preciso garantir as boas práticas clínicas em pesquisa e a confidencialidade. Eu imaginava que isso não aconteceria, mas vazaram muitos dados. Sem dúvida, é lamentável". O infectologista também diz que é necessário baixar o tom e acalmar os ânimos. "Todos devem ficar mais tranquilos e serenos. Claro que a suspensão atrasa, cria desconfiança, mas isso acontece no dia a dia da pesquisa. A superação dos questionamentos de agora e outros que poderão vir certifica que o produto é seguro e pode seguir em frente", disse o médico.

Corrida pela vacina

As farmacêuticas Pfizer e BioNTech anunciaram na segunda-feira (9) resultados surpreendentes do imunizante que está na última fase de testes. Mais de 43 mil pessoas, incluindo cerca de 3,1 mil brasileiros, participam do estudo. Os resultados foram obtidos com dados da primeira análise interina de eficácia da vacina com 94 casos de contaminação pelo vírus SARS-CoV-2 entre os voluntários que já receberam as duas doses preconizadas da vacina ou de substância placebo. Segundo os desenvolvedores, a eficácia da vacina é superior a 90% de proteção contra a doença.

"Eu diria que é um momento histórico. Isto nunca aconteceu antes. O mundo foi impactado com uma situação terrível, a pandemia, e agora seremos capazes de, em um curto espaço de tempo, realizar algo que levaria anos", disse Kathrin Jansen, chefe de pesquisa e desenvolvimento de vacinas da Pfizer. A análise final de eficácia será feita quando houver 164 voluntários confirmados com covid-19.

A Pfizer tem acordos de compra da vacina estabelecidos com o Reino Unido, Estados Unidos, União Europeia, Canadá e Japão. A compra da vacina ainda não foi tratada pelo governo brasileiro. No entanto, em comunicado, a farmacêutica afirmou que continua em contato com governo brasileiro e ofereceu a possibilidade de encaminhar uma proposta atualizada de fornecimento da sua potencial vacina. Segundo especialistas, a vacina da Pfizer é baseada RNA demanda conservação em temperatura muito baixas, a 80 graus negativos, o que pode ser um empecilho logístico para países em desenvolvimento. As empresas planejam enviar à FDA o pedido de autorização para uso emergencial da vacina depois da terceira semana de novembro.

Ao todo, há quatro vacinas em teste no Brasil: uma em desenvolvimento pela farmacêutica AstraZeneca em parceria com a University of Oxford e a Fiocruz, uma segunda da Sinovac Biotech e Instituto Butantan, outra da Pfizer-BioNTech-Wyeth, e uma quarta da Janssen-Cilag (Johnson & Johnson).

AstraZeneca/Oxford e Sinovac/Butantan já têm dados pré-clínicos em processo de submissão contínua à Anvisa. Por esse processo, os laboratórios podem apresentar dados de fases já concluídas da pesquisa antes do término dos testes.

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