Maçãs, frutas vermelhas e chá: O papel dos flavonoides no controle da pressão arterial

Pauline Anderson

Notificação

2 de novembro de 2020

Dr. Gunter Kuhnle

O elevado consumo de flavonoides (compostos encontrados nos alimentos à base de plantas) foi associado a pressão arterial sistólica e diastólica significativamente mais baixas, segundo uma nova pesquisa.

Os resultados reforçam a mensagem de que as intervenções na alimentação, especialmente aquelas que dão maior ênfase em frutas e vegetais, "podem ter um efeito benéfico na pressão arterial", disse ao Medscape o primeiro autor do estudo, Dr. Gunter Kuhnle, professor de nutrição e ciência dos alimentos, University of Reading, no Reino Unido.

No entanto, o estudo não mostrou associação estatisticamente significativa entre os biomarcadores de consumo de flavonoides e a incidência de doenças cardiovasculares ou mortalidade.

O estudo foi publicado on-line em 21 de outubro no periódico Scientific Reports.

Associação inversa entre flavonoides e pressão arterial

Os flavonoides são uma classe importante de bioativos alimentares comumente encontrados em frutas pomoideas, especialmente as maçãs, mas também nas frutas vermelhas, nos produtos derivados do cacau, no vinho tinto e nas verduras. No entanto, o chá "é sem dúvida a melhor fonte", disse o Dr. Gunter.

Para o estudo, os pesquisadores desenvolveram dois biomarcadores nutricionais para estimar a ingestão de flavonoides.

"Esses novos biomarcadores permitem investigações rigorosas, mais objetivas e precisas sobre as associações entre a ingestão real de flavonoides e a saúde em coortes observacionais em escalas relevantes para as populações humanas", escreveram.

O estudo incluiu participantes da coorte de Norfolk do estudo European Prospective Investigation into Cancer (EPIC-Norfolk), uma grande coorte representativa da população geral idosa da Inglaterra.

Os ingleses são conhecidos pelo hábito de consumir chá, o que os torna a população ideal para estudar o impacto dos flavonoides, disse o Dr. Gunter.

Os participantes passaram por um exame médico no qual os pesquisadores coletaram amostras de urina sem jejum e dados de pressão arterial "ao mesmo tempo, portanto, os flavonoides ainda estavam em seu sistema", disse o Dr. Gunter. Os participantes do estudo também receberam diários alimentares para sete dias.

Os dados das amostras de urina foram ajustados para a "gravidade específica", que o Dr. Gunter explicou ser o nível de diluição devido a ingestão de água. Os participantes foram divididos em pessoas com concentrações baixas ou altas de biomarcadores com base nas amostras de urina. As concentrações de biomarcadores estavam disponíveis para 24.152 participantes, dos quais, 55% eram mulheres.

Os pesquisadores usaram vários modelos, cada um ajustado para vários fatores, dentre eles, idade, índice de massa corporal, tabagismo, atividade física, estado de saúde ao início do estudo e história familiar. Eles calcularam as diferenças estimadas na pressão arterial sistólica e diastólica em homens e mulheres nas concentrações de biomarcadores baixas (percentil 10) e altas (percentil 90).

Os resultados mostraram que os participantes no grupo de consumo de flavonol acima do percentil 90 tiveram uma pressão arterial em média 1 a 3 mmHg menor do que os do grupo abaixo do percentil 10.

As diferenças nos tamanhos de efeito para os dois biomarcadores foram irrisórias. As análises de subgrupo mostraram que o efeito foi mais pronunciado em participantes com maior risco de doença cardiovascular, especialmente idosos e aqueles com hipertensão arterial sistêmica.

O Dr. Gunter comparou a redução na pressão arterial associada a elevada ingestão de flavonol ao que pode ser alcançado com intervenções alimentares como a dieta mediterrânea, que enfatiza o consumo de frutas e vegetais frescos, ou a dieta DASH (sigla do inglês, Dietary Approaches to Stop Hypertension), com baixo teor de sal.

Os resultados do estudo "mostram claramente uma associação inversa" entre os flavonoides e a pressão arterial, e "assim, contribuem com os dados disponíveis para investigar um efeito causal", concluíram os pesquisadores.

Os mecanismos moleculares específicos relacionados com os efeitos cardiovasculares dos flavonoides ainda não são conhecidos. No entanto, a pesquisa indica que os flavonoides podem afetar a função imunológica e remodelar a estrutura vascular, disse o Dr. Gunter

"Há muitas ideias sobre os possíveis mecanismos, mas eles ainda não foram de fato determinados", acrescentou.

Os pesquisadores encontraram apenas uma correlação fraca entre os resultados do biomarcador e a ingestão alimentar relatada, que foi a parte mais empolgante do estudo, segundo o Dr. Gunter.

"Isso basicamente apoia nossa suposição de que o autorrelato não funciona para compostos como os flavonoides", disse ele. "Há uma grande variabilidade na composição dos alimentos", por exemplo, uma xícara de chá pode ter uma ampla gama de níveis de flavonol dependendo da origem das folhas do chá e de como a bebida foi preparada, explicou.

Por outro lado, os biomarcadores nutricionais, que são avaliados medindo a presença de compostos alimentares ou seus metabólitos no sistema, podem permitir estimativas objetivas e precisas do consumo "e não refletem apenas os padrões alimentares", disseram os autores.

Os pesquisadores também examinaram os novos eventos de doença cardiovascular, como acidente vascular cerebral e mortalidade, em uma mediana de acompanhamento de 19,5 anos, mas não encontraram nenhuma associação significativa entre esses desfechos e o consumo de flavonoides.

"Isso pode ser explicado pela magnitude da diferença observada na pressão arterial sistólica, que não deveria ter impacto significativo no risco de doença cardiovascular individual", escreveram os pesquisadores.

No entanto, em uma escala populacional, a redução "pode ser muito importante; pode fazer diferença no risco de doenças cardiovasculares", disse o Dr. Gunter.

Não está claro se suplementos podem aumentar o flavonol a níveis que passíveis de reduzir o risco de doença cardiovascular. No entanto, o estudo COSMOS (sigla do inglês, Cocoa Supplement and Multivitamin Outcomes Study), dos Estados Unidos, pode fornecer algumas respostas.

Este ensaio clínico está avaliando se 600 mg/dia de suplementos de cacau ou de um multivitamínico comum reduz o risco de doenças cardíacas, AVC e câncer em cinco anos.

Bom trabalho

Em seus comentários para o Medscape sobre o estudo, o Dr. Stephen Juraschek, PhD, médico e professor-assistente de medicina na Harvard Medical School e Beth Israel Deaconess Medical Center, nos EUA, cuja especialização inclui hipertensão arterial sistêmica, bem como alimentação e nutrição, descreveu o estudo como "muito interessante".

Apesar do desenho transversal, o Dr. Stephen disse que os pesquisadores "fizeram um bom trabalho ao tentar avaliar uma série de fatores de confusão, e que realmente tentaram explicar alguns deles em seus modelos estatísticos".

No entanto, ele acrescentou, é possível que o estudo não tenha capturado todos os possíveis fatores de confusão.

A abordagem com biomarcador gerou "muito entusiasmo" nos estudos de nutrição, disse o Dr. Stephen, acrescentando que o Reino Unido "tem sido um líder" nesta área. "Acho que os biomarcadores são muito promissores" para a pesquisa em nutrição.

O uso de biomarcadores pode evitar o viés de memória – e os problemas de memória – em pacientes mais velhos, disse o Dr. Stephen. No entanto, ao contrário da coleta de urina de 24 horas, que é o padrão ouro, amostras pontuais ou aleatórias de urina, como a usada no estudo "podem ser um pouco complicadas", disse ele.

"Elas podem ser influenciadas pela quantidade de líquido ingerida, pela última vez que a pessoa foi ao banheiro ou pela ingestão excessiva de sal na última refeição", explicou ele.

No entanto, ainda pode haver um papel importante para os diários e questionários em estudos nutricionais. "O que comi ontem está fortemente relacionado com o que vou comer amanhã, no próximo mês e ao longo do ano, por isso não é totalmente sem importância nesta perspectiva", disse o Dr. Stephen. "Alguns especialistas dizem que gostam de autorrelatos para avaliar o consumo de longo prazo."

Também comentando para o Medscape, a Dra. Penny Kris-Etherton, Ph.D., professora de nutrição da Penn State, disse que estava "empolgada" para ver o novo estudo.

Além de reduzir o sódio e diminuir o peso corporal, o aumento do consumo de flavonol "é mais uma estratégia" para manter a pressão arterial sistólica e diastólica abaixo de 120 × 80 mmHg recomendados, disse a Dra. Penny.

Comer mais alimentos à base de plantas, como frutas, vegetais, grãos integrais, legumes e nozes "está de acordo com as atuais recomendações alimentares da American Heart Association (AHA)", disse a Dra. Penny.

E embora a literatura sugira que os flavonoides tenham efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios, "agora estamos descobrindo que eles desempenham um papel no controle da pressão arterial", disse ela.

"Todos nós sabemos que frutas e vegetais são ricos em potássio, que tem um efeito de redução da pressão arterial, e também são ricos em nitratos e nitritos, que desempenham um papel para ter endotélio e vasculatura saudáveis, e agora sabemos que frutas e vegetais, alimentos à base de plantas têm outro composto que ajuda a atingir uma pressão arterial saudável, que são os flavonoides."

O desenvolvimento dos biomarcadores foi financiado pela Mars, uma fabricante de chocolate. Os autores do estudo, Dr. Stephen Juraschek e Dra. Penny Kris-Etherton, informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

Sci Rep. Publicado em 21 de outubro de 2020. Texto completo

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