Covid-19 e o impacto ambiental associado ao uso excessivo de EPI e desinfetantes

Roxana Tabakman

Notificação

22 de outubro de 2020

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A geração de resíduos médicos aumentou com a pandemia de covid-19. Uma carta publicada no periódico Science destaca que no mês de fevereiro a China elevou em 12 vezes a produção de máscaras de uso único e que, "se os Estados Unidos seguirem o ritmo registrado em Wuhan poderão gerar um ano inteiro de resíduos médicos em dois meses". [1]

A necessidade de uso dos equipamentos de proteção individual (EPI) também fez com que políticas de redução da produção e do consumo de produtos de plástico de uso único fossem interrompidas. Segundo o infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Dr. Marcos Antonio Cyrillo, um hospital gera de dois a quatro quilos de resíduo com cada paciente por dia, mas, com a pandemia, "estamos gerando sete, oito, nove quilos por paciente". No entanto, boa parte deste montante seria evitável: "Muitas vezes a luva, o avental e a máscara são trocados desnecessariamente. Não existe uma legislação indicando por quanto tempo usar máscara cirúrgica, a N95 ou o avental limpo sem contato com paciente. Deveríamos normatizar e treinar as equipes, mas os hospitais não estão fazendo isso."

A Dra. Nelzair Vianna, doutora em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e pesquisadora em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), sugeriu a existência de uma "pandemia de plástico" durante um webinar realizado recentemente. "As máscaras têm várias camadas de polímeros sintéticos e uma série de materiais químicos que acabam se dispersando no ambiente e entrando na cadeia trófica em vários níveis. Os microplásticos não são vistos, mas contaminam águas, animais e depois as pessoas que os ingerem. Vários estudos sugerem que os microplásticos são disruptores endócrinos, provocando alterações no metabolismo reprodutivo dos ovários e diminuição da fertilidade entre os homens."

O polipropileno usado para produzir as máscaras N95, e as fibras de polietileno de alta densidade, usadas na confecção de trajes de proteção, luvas e escudos faciais, podem persistir por muito tempo e liberar dioxinas e elementos tóxicos para o ambiente. [2] O verdadeiro risco é, porém, desconhecido, porque as informações não são suficientes para uma avaliação baseada na exposição, e há muitas lacunas nos dados para a realização de uma abordagem científica sistemática. [3]

A Dra. Nelzair afirma que, desde a epidemia de HIV, o setor médico tem um grande impacto na epidemia de descartáveis. "O profissional de saúde precisa se conscientizar sobre o impacto ambiental que causa, mas também precisa saber que existem normas específicas a serem cumpridas para a redução de danos."

Com a pandemia cresceu também a preocupação em relação ao uso inadequado dos incineradores, que têm uma pegada de carbono importante. Tanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) como o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) apoiam o uso de tratamentos à base de vapor devido à produção de poluentes orgânicos persistentes (POP) no processo de incineração dos resíduos.

O Dr. Marcos Antonio, que participou da comissão de saneantes da prefeitura de São Paulo, disse estar apreensivo com o uso de antissépticos nos pacientes e de certos desinfetantes no ambiente hospitalar.

"Estamos usando muito mais do que antes e despejando esse resíduo no esgoto. Precisamos ter muito cuidado, porque, além de poluir o ambiente, este tipo de produto está associado ao aumento da taxa de resistência bacteriana."

A solução, segundo ele, é o uso racional, a regulamentação, a fiscalização e a capacitação das equipes. "Que seja banido o uso indiscriminado de desinfetantes, que se utilize mais água e sabonete e menos biocidas", propôs. Tudo isso poderia diminuir a pressão no ambiente, "mas temos muito medo e acabamos utilizando desinfetantes e antibióticos desnecessariamente."

Com o objetivo de exterminar o SARS-CoV-2 podemos estar matando espécies benéficas e criando um maior desequilíbrio ecológico. [2] O uso generalizado de túneis de desinfecção motivou um alerta do Saúde sem Dano (SSD): "A evidência disponível não demostra que estas práticas sejam seguras e efetivas (...) Os riscos de drenar uma quantidade significativa de desinfetantes em sistemas de esgoto ou hidrovias como resultado do uso contínuo de túneis não foram avaliados."

Houve retrocessos das práticas sustentáveis nos hospitais brasileiros em função da pandemia? "De modo geral, não se pode falar em retrocesso específico no setor de saúde, afirmou Vital Ribeiro, presidente do conselho do Projeto Hospitais Saudáveis (PHS). Houve impactos sociais e econômicos por conta de uma crise de grandes proporções. Preferimos concentrar nossa atenção na resiliência dos sistemas e das políticas de saúde que acabam por determinar como atravessamos esta crise e como atravessaremos as próximas."

De acordo com Vital, o assunto é muito complexo e envolve polêmicas e interesses: "Muito se falou sobre o que seria um enorme aumento na geração de resíduos nos hospitais pelo uso de mais descartáveis, mas, no total, a geração de resíduos de serviços de saúde (RSS) infectantes (com risco biológico) diminuiu nas cidades brasileiras, porque procedimentos agendados, cirurgias eletivas e diversos tratamentos foram significativamente reduzidos. A redução dos procedimentos de rotina, das ações de prevenção e do acompanhamento de pacientes com doenças crônicas não é algo bom para a saúde pública, mas a queda de movimento resultou, como em quase todos os setores, na redução do consumo de insumos e da geração de resíduos e emissões de gases de efeito-estufa", disse Vital, acrescentando que as unidades de referência para tratamento de pacientes com covid-19 tiveram evidente sobrecarga de demanda e pioraram todos os seus indicadores ambientais, mas que isso foi uma situação pontual.

Em alguns aspectos, que não têm relação com o atendimento aos pacientes, a pandemia foi benéfica para a natureza: Em função do lockdown "houve melhoras na qualidade do ar, diminuição da poluição sonora, aumento do consumo de alimento em casa, diminuição do consumo de energia e até do comércio de animais silvestres", destacou a Dra. Nelzair. A queda na emissão dos gases de efeito estufa foi maior do que em qualquer período da história humana, ultrapassando a queda decorrente da crise econômica global de 2008 e das mudanças geradas pelo protocolo de Kyoto, em 1998, assim como a redução da emissão de material particulado fino, dióxido de enxofre e óxido de nitrogênio NO2. [5]

"Tudo é temporário, mas, para os ambientalistas, mostra que é possível", reforçou a Dra. Nelzair.

A busca por substitutos que causem menos danos à natureza é um desafio tecnológico e comercial. A saúde ambiental do novo normal depende, em parte, de iniciativas globais como as propostas pela campanha Healthy Recovery , que reúne mais de 350 organizações de 90 países e que é promovida pelo PHS no Brasil. O projeto por uma conta com a participação da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ), Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu (FCMBB) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), entre outras instituições. Não pode haver segurança em matéria de saúde pública quando a sustentabilidade não é levada em consideração em suas múltiplas dimensões. [4]

Mas, durante o atendimento médico, algumas práticas individuais erradas podem ser simples falta de atenção. "O médico é um profissional difícil de lidar", refletiu o Dr. Marcos Antonio. "Quando falamos sobre o assunto com enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos, conseguimos conversar, explicar, e eles adotam as práticas corretas. Mas o médico está sempre correndo, não se preocupa nem com práticas de biossegurança. Precisamos treinar e fiscalizar até a higienização das mãos com água e sabão! Com a pandemia as pessoas começaram a se preocupar mais, e esperamos que essa preocupação perdure. O que estamos fazendo ainda é pouco, mas já tem muita gente trabalhando com mais consciência do que antes."

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